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Leia
abaixo uma crônica-reportagem (e veja as fotos de uma Bagdá que não existe mais) |
Muito além de Bagdá
Parecia
trote. Não era. O governo iraquiano queria me apresentar a Babilônia.
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“Bom dia, aqui é da Embaixada do Iraque. Você recebeu nosso convite para visitar a Babilônia?” A voz feminina ao telefone soou como trote. Era uma manhã de final de julho, em 1987. Eu era repórter da sucursal de Brasília do Jornal do Brasil e não tinha qualquer contato com a Embaixada do Iraque. Aliás, do Iraque eu só sabia aquilo que todos liam diariamente nos jornais: o país vivia há anos uma guerra contra o Irã, movida pelo fanatismo religioso. Dois dias depois, recebi uma segunda via do convite para o Festival de Música e Dança Internacional, que se realizaria em setembro e outubro, nas ruínas da Babilônia. Eu permaneceria uma semana, à minha escolha dentro desse período. A cidade, construída pelos Acádios em 2.350 a.C., e reconstruída por Nabucodonosor em 500 a.C., estava sendo restaurada pelo governo de Saddam Hussein. A idéia de visitar um cenário bíblico me fascinou. Mas e a guerra? Os funcionários da embaixada procuravam me tranqüilizar: “Não há guerra em Bagdá”, diziam. “A guerra está na fronteira com o Irã, e o povo de Bagdá nem toma conhecimento.” Se não havia em Bagdá, muito menos na Babilônia, distante certa de 90 km da capital. A Babilônia era apenas um sítio arqueológico. Ninguém vivia lá. Depois de longa e sofrida indecisão, embarquei. Eram duas horas da manhã de 17 de outubro, um sábado, quando acabei de ajeitar minhas coisas no Hotel Mansour-Melia, um cinco estrelas às margens do Rio Tigre. Batidas na porta. Eram dois funcionários do governo. Entraram, sentaram-se na cama e começaram a fazer perguntas. Naquele dia, um recenseamento estava sendo realizado em todo o país. Objetivo: identificar desertores da guerra. Até às 17 horas, estava proibido circular nas ruas de Bagdá. Passei meu primeiro dia no Oriente Médio trancado no hotel, vendo pela janela as águas do Tigre e, a curta distância, as baterias antiaéreas. Quando os recenseadores saíram, caí na cama, esgotado. Liguei o rádio. Tocava “Felicidade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. “Tristeza, não tem fim; felicidade, sim...” Cantada em inglês, mas pura bossa-nova. Foram 17 horas de vôo. Antes de ser levado ao hotel, tomei um chá de cadeira no aeroporto, esperando pela bagagem e pelo funcionário do governo que fora resolver problemas burocráticos com meu passaporte. Pelo menos uma boa surpresa aconteceu nesse intervalo. Plantado numa desconfortável cadeira, sonolento, vi um rosto conhecido entre a multidão de árabes que circulavam naquele cenário estranho. Era a jornalista Josiane Cotrim, ex-repórter do Correio Braziliense. Ela me recebeu com a autoridade de quem se sente em casa. Seu marido, o diplomata Flávio, ocupava há dois meses o cargo de primeiro secretário da Embaixada do Brasil. O encontro foi providencial. Flávio e Josiane se tornaram meus “anjos da guarda” em Bagdá. Organizaram passeios, intermediaram uma complicada negociação para que eu desmembrasse a passagem de volta para ficar em Lisboa e ainda me presentearam com um tapete comprado no “suki”, um mercado típico da cidade. Assim como o “suki”, permaneceram na minha memória outras visões pitorescas de Bagdá: os inúmeros outdoors com fotos de Saddam Hussein espalhados pela cidade, as centenas de pessoas beijando o portal de uma mesquita, ao passar para entrar, e a artilharia antiaérea instalada em pontos estratégicos. Também me chamou a atenção uma casa de fumar. É um amplo salão onde os homens passam horas tragando a fumaça de um “narguilé”, peça de cobre e vidro de cerca de 50 cm, onde se coloca fumo iraquiano ou egípcio. Dizem que é uma erva “especial”... mas o cheiro é insuportável. Flávio e Josiane também me “emprestaram” um filme para que eu fotografasse a Babilônia. Eu levara seis filmes, mas quatro deles, coloridos, desapareceram misteriosamente no aeroporto, quando a bagagem passou pela alfândega. “É por causa da guerra”, alguém me explicou. Outro
efeito da guerra foi empurrar a mulher para o mercado de trabalho. Em
Bagdá, as mais jovens retiraram os véus e se vestiram à moda
ocidental. Mas permaneceram submissas e desprezadas. O mercado também
foi invadido pelos egípcios, indianos, filipinos, enquanto os homens
iraquianos morriam nas frentes de combate. A caminho da guerraVisitar o Iraque era uma idéia atraente. Seria minha primeira viagem internacional e a oportunidade era única. Mas, e a guerra? O governo me oferecia a passagem e cinco dias de estadia, com tudo pago. Defini a data, tirei o passaporte e negociei uma folga no trabalho. Com tudo pronto, venceria o medo da guerra. Na antevéspera da partida, os jornais noticiaram que um míssil explodiu numa escola num bairro de Bagdá, a três quilômetros da Embaixada do Brasil, matando 30 crianças. Entrei em parafuso. Ainda não tinha o visto e comecei a pensar em cancelar a viagem. Na véspera da data marcada, fiz as malas, peguei o passaporte, sem o visto, e decretei que estaria são e salvo em Bagdá, já que essa era a minha vontade. No aeroporto do Galeão, no Rio, mais uma tarde de sufoco: o adiamento da partida, de 17 h para 19 h, me deixou tenso. Entrei no avião da Iraque Airways carregando uma pequena sacola a tiracolo, que os comissários abriram e vasculharam, com agressividade, sem pedir licença. Meu nome constava da lista como convidado do governo, o que não impediu o comissário de espremer a minha pasta de dentes, para verificar se havia algo suspeito dentro da bisnaga. Durante
as 17 horas de viagem, conheci dois brasileiros que viviam na capital
iraquiana. Ivanir, um funcionário da Embaixada, e Zé Luís, médico da
seleção de futebol do Iraque, que trabalhara no Flamengo. Zé Luís
morava a 500 metros da escola onde caíra a bomba. Mesmo assim, dizia
que era mais fácil ser assaltado no Rio ou em São Paulo que sair
ferido de um bombardeio em Bagdá. Os portais da BabilôniaNa minha primeira noite em Bagdá não houve programação do Festival, por causa do recenseamento. Na noite seguinte, um domingo, finalmente cruzei os portais da Babilônia para chegar ao teatro, ao ar livre, e ver um espetáculo de dança folclórica do Afeganistão. No carro que me levou estava também um japonês, Gen´ichi, estudioso de música. Ele me deixou frustrado: o único músico brasileiro de que já ouvira falar era Marlos Nobre... A segunda-feira começou mais cedo que eu esperava. A recepcionista do hotel me acordou às 5 horas da manhã para avisar que meu passaporte estava disponível. Passei-lhe uma descompostura com meu inglês ginasiano e voltei a dormir. À noite, percorri os 90 quilômetros entre Bagdá e a Babilônia no ônibus de um grupo de dança polonesa. Um imprevisto, no entanto, cancelou o espetáculo: começou a chover. Era como ver chover em Brasília em agosto ou acertar as dezenas da mega sena. Babilônia estava às escuras. Enquanto esperávamos, numa lanchonete, à confirmação do cancelamento, conheci um polonês que falava espanhol. E descobri que meu portunhol não era de se jogar fora. Conversamos sobre futebol e outras coisas da América Latina. O constante acende-e-apaga de luz descontraiu o ambiente. De volta ao hotel em Bagdá, os poloneses me convidaram para tomar uma vodka. Subi ao apartamento onde todos haviam se reunido — o grupo deles era de umas 30 pessoas. Deram-me um porre, mas sobreu energia para acabar a noite na boate do hotel. Na porta, uma placa proibia a entrada: de menores de 18 anos; de convidados do sexo masculino desacompanhados; de pessoas trajando jeans; de pessoas que não fossem casais ou familiares. Também era proibido a pessoas do sexo masculino dançar sozinhos. O aviso era dirigido ao público local. Mas a boate era freqüentada quase exclusivamente por turistas. Os nativos, no entanto, eram facilmente identificáveis. Homens dançavam apenas com homens, e mulheres com mulheres. Também nas mesas os sexos não se misturavam. Em
Bagdá não havia cinemas, teatros, nada de diversão. Casais namorando
nas ruas, nem pensar. Mas mãos dadas e trocas de beijos, tudo bem.
Homem com homem e mulher com mulher. Despertando do sonhoMinha viagem de volta estava marcada para a terça-feira, às 22 horas. À tarde, Josiane e Flávio me levaram à Babilônia, para que eu pudesse ver, à luz do dia, aquele cenário bíblico. Caminhamos entre as ruínas, fizemos fotos, pisei nas trilhas do local onde se supõe que tenham existido os lendários Jardins Suspensos da Babilônia. Cheguei ao hotel às 18 horas. O mesmo funcionário que me recebera no aeroporto estava desesperado, à minha espera. Fiz a mala o mais rápido possível, sem conseguir entender a pressa. Mas fazia sentido. Mais de 200 peões brasileiros, da Construtora Mendes Júnior, trabalhavam em obras naquele país, tomariam o mesmo avião que eu. Quando cheguei ao aeroporto, já formavam uma fila imensa para o check-in. Durante as três horas que permanecemos parados, dentro do avião, no Aeroporto de Aman, capital da Jordânia, sem qualquer explicação, eu tentava imaginar o que ia pela cabeça daqueles peões. Com certeza, uma experiência inesquecível. Como a que eu acabara de viver. |
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