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Terceira seleção de crônicas, algumas publicadas na imprensa, algumas inéditas

Breve memória da Bienal de Poesia
A I Bienal Internacional de Poesia de Brasília foi realizada em setembro de 2008

O concreto e a miragem 
Políticas públicas bem sucedidas na Colômbia podem servir de exemplo ao Brasil

Conexão Minas-Woodstock

 A festa solitária  
(Uma visão pessoal sobre o poeta Fernando Mendes Vianna, morto a 10 de setembro de 2006)

O vegetariano e o açougueiro

O que querem os escritores?

A poesia em campo fértil

Pássaros e ventos

Cidadão das estrelas 


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Breve memória da Bienal de Poesia

Ao falar para uma platéia de 700 pessoas que lotavam o auditório do Museu da República, na abertura oficial da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, realizada de 2 a 7 de setembro de 2008, o poeta Affonso Romano de Sant´Anna perguntava por que o século XX, o mais sangrento da História, insistiu tanto em decretar a morte da poesia. E não apenas da poesia – falou-se em morte do livro, morte do romance, morte da história, morte da arte. Ninguém soube responder – espera-se, agora, que se decrete, isto sim, a morte dessa conversa. Em Brasília, a poesia mostrou-se viva e vigorosa, ao longo dos cinco dias da Bienal. Foi um contraponto aos chatíssimos desfiles militares da Semana da Pátria.

O QUIXOTE CONTRA OS POLÍTICOS CABEÇA-DE-VENTO
O evento, promovido pela Secretaria de Cultura do DF com o apoio de grande número de instituições e entidades, realizou-se graças à batalha quixotesca de Antonio Miranda, poeta, professor e diretor da Biblioteca Nacional de Brasília. Houve falhas, gafes, frustrações. Mas houve também grande mobilização de escritores e público em torno de uma proposta, reconheçamos, pretensiosa. Não do poder público, é claro. A experiência só vai se tornar tradição na cidade se for transformada em lei. Fora algumas experiências isoladas, o poder público no Brasil não prioriza eventos como esse.

O GOVERNADOR CONFESSOU QUE ERA POETA
Ao contrário do poeta e compositor Arnaldo Antunes, que não veio abrir o evento porque faltou dinheiro, o governador José Roberto Arruda compareceu à abertura. Chegou de helicóptero. Falou sobre sua infância e adolescência, e confessou que não estudou letras porque o pai não permitiu. Teve a coragem de recordar a derrubada dos totens poéticos do artista plástico Gougon por funcionários do governo. E até falou um poeminha. O público estava de alto astral e preferiu não vaiá-lo.

UM NOVO MOVIMENTO POÉTICO
“A modernidade fez a apologia do desencontro, invertendo o pacto que sempre houve entre poeta e comunidade”, falou Affonso Romano. “Se no passado o poeta era um oráculo e falava em nome da tribo, nos tempos atuais ele se escondeu para monologar.” Sant´Anna convoca os poetas para tomar de assalto os novos canais e recuperar o tempo perdido no século XX. É possível, se não mensurável, que isso já esteja acontecendo com a ajuda da internet, que abriu novas possibilidades de troca e divulgação, e um novo movimento poético se encontre em plena eclosão.

POETAS ESTRANGEIROS NÃO ATRAÍRAM PÚBLICO
A multiplicação de eventos cidade adentro levou bom público a auditórios, galerias, bares e cafés, bibliotecas, exposições. O Simpósio de Crítica de Poesia, realizado na UnB, foi prestigiado e agradou os ouvintes inscritos. Infelizmente, aquele que era talvez o programa mais interessante da Bienal, que reuniu grande número de poetas estrangeiros para leitura de seus textos, foi o que menor público atraiu. Acuado nos auditórios do Museu da República e com um nome péssimo – “Sessões magnas” – o evento estimulou pouca gente a se mover até lá.

REVERÊNCIA À POESIA E AOS LIVROS
Mais importante que a dimensão do público foi a reverência à poesia, o que se observou em praticamente todos os espaços. A ampla distribuição gratuita de livros, no primeiro dia da Bienal, chegou a ser surpreendente. Às quatro antologias comemorativas do evento se juntaram grande número de livros, por autores e editores a quem parecia importar apenas a disseminação da poesia. Foi um espetáculo.

UMA GRANDE CELEBRAÇÃO
A idéia de distribuição gratuita de livros foi de Antonio Miranda, que contagiou participantes e o próprio público a fazer parte dessa idéia grandiosa. Muitos supunham que o projeto era excessivamente grande. Miranda achava que não, mas fez questão de advertir que só daria certo se houvesse empenho e envolvimento dos próprios poetas. Houve. Tanto de Brasília, quanto dos que espontaneamente vieram de outros lugares, movidos pela vontade de participar. Ao contrário de outras bienais envolvendo livros e literatura, a Bienal de Poesia de Brasília nada teve de comercial; foi uma grande celebração.

FIGURAÇAS, OS HOMENAGEADOS
A Bienal Internacional de Poesia de Brasília elegeu quatro poetas como homenageados oficiais, e eles estiveram entre as figuras mais interessantes do evento. Affonso Romano de Sant´Anna fez uma belíssima palestra sobre a resistência da Poesia. Reynaldo Jardim, garoto de 82 anos, marcou presença nos eventos, surpreendendo até quem o conhece. E a exposição sobre sua obra, no terceiro andar da Biblioteca Nacional, é simplesmente imperdível. Thiago de Mello, na Feira do Livro, e Wlademir Dias-Pino, na exposição Obranome-2, outras boas lembranças.

CAMPANHA PELA IMPLOSÃO DO CONJUNTO CULTURAL
Apesar do aspecto imponente, o Conjunto Cultural da República, formado por um museu inadequado para grandes exposições e uma biblioteca sem espírito agregador de leitores, é o grande vacilo na obra do arquiteto Oscar Niemeyer. Sem rampas de acesso ou mesmo escadas, a não ser as de incêndio, a biblioteca provoca aglomerações diante dos elevadores em qualquer evento que atraia mais de uma dezena de pessoas. Deveriam implodir tudo e fazer de novo.

O JORNAL E AS PAUTAS PERDIDAS
A imprensa agiu burocraticamente, sem espírito de reportagem. O Correio Braziliense, principal jornal de Brasília, anunciou o evento com bons espaços, mas dele nada aproveitou. Apesar da presença de grandes autores na cidade, muitos estrangeiros, foi incapaz de realizar uma entrevista ou uma matéria mais aprofundada. Não teve a curiosidade de ver – e informar sobre – o que estava acontecendo nos mais diversos espaços onde houve programação. Havia dezenas de boas pautas se oferecendo ao Caderno de Cultura, e todas se perderam.

FEIRA DO LIVRO, O VEXAME
A Feira do Livro, que a Câmara do Livro do Distrito Federal insiste em realizar em local inadequado e improvisado – os corredores externos do shopping Pátio Brasil – tentou pegar carona na Bienal e acabou se tornando um vexame. Trouxe quatro escritores portugueses para um lançamento que não houve, as palestras e recitais foram prejudicados pela falta de isolamento acústico de ambientes improvisados, e ainda foi ameaçada de terminar antes da data marcada, por falta de recursos.

Brasília, setembro de 2008

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O concreto e a miragem

A Colômbia consolida sistema de integração de megabibliotecas em Bogotá e investe no desenvolvimento de programas para formação de leitores. Enquanto isso, em Brasília, os maiores acervos públicos têm acesso restrito e a recém-inaugurada Biblioteca Nacional sequer possui acervo

Biblioteca Nacional de Brasília

Colômbia e Brasil são países subdesenvolvidos da América do Sul, que sofrem com os problemas da miséria, da desigualdade social e da violência. Bogotá é capital da Colômbia; Brasília, do Brasil. A principal biblioteca de Bogotá, a Luis Angel Arango, tem 2 milhões de livros e capacidade para 2 mil leitores sentados. Recebe 9 mil visitantes por dia. A Biblioteca Nacional de Brasília, apesar de ter sido inaugurada três vezes, tem zero livro - não é, portanto, uma biblioteca.

O Conjunto Cultural da República, que agrega a Biblioteca e um Museu que também não existe, é apenas uma miragem a iludir quem passa pela Esplanada, já que a burocracia não deu vida à instituição. Apesar disso, nos últimos meses a Universidade de Brasília e a família da poeta Marly de Oliveira, recentemente falecida, doaram à Biblioteca dois importantes acervos, em catalogação. Quando disponíveis, não terão sido fruto de uma política oficial do Governo, mas apenas altruísmo dos doadores e esforço pessoal do poeta e professor Antonio Miranda, que cumpre informalmente a função de diretor.

A Biblioteca de Bogotá é mantida pelo Banco de La República, o Banco Central colombiano, que criou outras 19 bibliotecas em diversas cidades do país. No Brasil, a única coisa que nosso Banco Central mantém são os juros altos.

A Colômbia tem 5% de analfabetos. O empenho do poder público em criar megabibliotecas e programas para formação de leitores em massa é reconhecido pela comunidade internacional. Bogotá recebeu em 2007 o título de Capital Mundial do Livro, conferido pela Unesco, pela primeira vez a uma cidade latino-americana.
No Brasil, onde 75% da população é formada de analfabetos funcionais, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2005, o poder público não sabe o que fazer com o prédio da Biblioteca Nacional, mandado construir por um governador, Joaquim Roriz, conhecido por sua queda por obras faraônicas e desapego aos livros. A mais recente inauguração foi feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se vangloria de sua baixa escolaridade e pouca leitura.

Brasília tem várias bibliotecas, quase todas pertencentes aos poderes públicos. Entre as mais importantes estão a do Senado Federal (170 mil volumes), aberta ao público apenas para leitura, e a da Câmara dos Deputados (200 mil volumes) que há mais de dois anos é restrita a parlamentares e funcionários da Casa.

A Biblioteca Demonstrativa, vinculada à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, talvez seja a mais democrática de Brasília. Possui um acervo de 80 mil livros e atende 1.500 usuários por dia. O Governo local mantém 20 bibliotecas nas cidades do DF, entre as quais a Biblioteca Pública de Brasília, improvisada em 1990 num antigo mercado de hortifrutigranjeiros. Tem 60 mil livros e atende diariamente a 500 visitantes, alguns dos quais ocupam mesas ao ar livre sob guarda-sóis, já que lá dentro não há espaço. Se chover, o jeito é levar o livro para casa.

A primeira biblioteca de Brasília, inaugurada em 1960, foi a Biblioteca de Obras Raras do Palácio da Alvorada, montada pelo livreiro carioca Carlos Ribeiro a pedido do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Não se sabe o que aconteceu com seu acervo após a posse de Lula, especialmente depois da reforma, concluída em março de 2006. O Palácio da Alvorada é a residência oficial do presidente e não é aberto à visitação. Lula gosta de se comparar a Kubitschek, a não ser pela sua confessa condição de não-leitor.

Em Bogotá, a prefeitura e o Banco de La República criaram a BiblioRed, com três mega e seis bibliotecas intermediárias, e um moderno e amplo sistema de serviço integrado. Cada uma é importante ponto de encontro e centro cultural, com salas de concerto, auditórios e galerias de arte, tudo acessível à população, gratuito e em pleno funcionamento. O usuário distante, ainda que esteja em outra cidade, pode solicitar um livro, que prontamente o receberá.

Uma rede de ciclovias, de 300 quilômetros de extensão, e um sistema de ônibus articulados, em corredores, servem todas as grandes bibliotecas de Bogotá. “As bibliotecas ditaram os rumos do transporte público”, explicou a diretora da Luis Arango, Ángela Pérez Mejía, em visita a São Paulo, em fevereiro.

Atualmente está em construção a quarta megabiblioteca municipal, na periferia de Bogotá, graças à doação de US$ 12 milhões feita pela família Santodomingo, a mais rica da Colômbia. Será inaugurada em 2008. Outra medida da prefeitura local em prol da leitura é o lançamento periódico de 70 mil exemplares, por edição, de clássicos diversos em livros de bolso, distribuídos gratuitamente nos pontos de ônibus.

Combate à violência

Na Colômbia, o investimento em bibliotecas e programas de leitura faz parte das ações de combate à criminalidade e à violência. O sucesso dessas ações atraiu a Bogotá, em março, três governadores brasileiros: Aécio Neves (MG), Sérgio Cabral (RJ) e José Roberto Arruda (DF). Os dois últimos Estados estão entre os oito mais violentos do País – respectivamente, 39 e 22 homicídios por 100 mil habitantes em 2006. O índice de Bogotá é alto, mas o que chama a atenção é a drástica redução nos últimos 10 anos, de 80 para 16 por 100 mil.

Ángela Pérez Mejía afirmou em São Paulo que as bibliotecas, pensadas como espaço público comunitário, estão mudando um país associado à guerrilha e ao narcotráfico. "A arquitetura não é apenas para ler, é para se encontrar. Há muita luz, muito lugar confortável para ler. Pensamos em comunidades, não em indivíduos." Ángela é a quarta diretora da Biblioteca em 48 anos de existência, o que comprova que as políticas culturais devem ser desenvolvidas a longo prazo. Ela observa que os governos municipais mantiveram a prioridade das bibliotecas nos últimos 12 anos, mesmo com prefeitos de partidos diferentes.

A Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), o Governo do DF e o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) firmaram parceria para que seja criado um acervo digital na Biblioteca Nacional. Uma comissão formada por representantes dos Ministérios da Cultura, Educação e Ciência e Tecnologia e governo local estuda sua formalização e possíveis projetos para ocupá-la. A grande dúvida que incomoda os notáveis: a biblioteca deve ser aberta ao público em geral ou um espaço reservado a pesquisadores? Antes da inclusão digital, termo da moda no governo, não seria melhor pensar em inclusão no saudável hábito de ler? Temos aí um prédio de 11,5 mil metros quadrados, pronto para ser preenchido, e localização adequada, próximo à rodoviária central. Só faltam os livros – e, é claro, vontade política e orçamento.

Entre o real e a fantasia

Imagine um corredor cultural em uma das áreas mais nobres de Brasília, atendendo milhares de pessoas para atividades de leitura, cursos e oficinas, apresentações musicais, estudo e diversão. O coração desse espaço é o Complexo Cultural da República. Logo atrás, ao lado da Rodoviária, o edifício onde funcionava o Touring Clube, também projeto de Oscar Niemeyer, contribuirá para democratizar o acesso à cultura. Será transformado em biblioteca popular, com um grande salão de leitura, acervo dirigido a crianças e estudantes de nível médio e um sistema de atendimento com bibliotecários, professores e equipamento técnico. Uma passagem subterrânea ligará essa área ao Setor de Diversões (Conic) e ao Setor Comercial Sul, regiões de grande afluência popular que escoarão para esse corredor uma população carente de atividades culturais. Este é o futuro anunciado pelo diretor em exercício da Biblioteca Nacional, Antonio Miranda.

Por enquanto, nada mais que fantasia. Afinal, os chamados setores culturais de Brasília são ainda um desastre. O Teatro Nacional passa por uma reforma que evidencia anos de abandono. Ao lado, o espaço reservado à ala norte do Complexo é apenas um terreno baldio. Uma feira de comércio suspeito e um prostíbulo clandestino ocuparam durante uma década o espaço ao lado da Biblioteca. A vocação cultural dessa região é evidente, mas é indispensável uma política permanente que lhe dê manutenção.

Caderno Pensar, Correio Braziliense, 25 de agosto de 2007

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Woodstock no interior de Minas Gerais!

Um grande festival de rock´n´roll realizado numa fazenda no interior dos Estados Unidos, em 1969, entrou para a história da música e tornou-se o principal símbolo da contracultura e da era hippie. Agora, mais de 40 anos depois, o espírito Woodstock permanece vivo numa cidade do interior de Minas – ainda que limitado ao espaço físico de um bar lotado, um palco onde tocam bandas formadas por uma garotada talentosa, tudo isso animado por um maestro que carrega a alma desse tempo.

Se o Festival de Woodstock levou quase 500 mil jovens a uma fazenda, debaixo de chuva e em meio a lama, para quatro dias de celebração da paz e da boa música, o que acontece agora no Sudoeste de Minas provoca um sentimento de nostalgia a quem viveu o espírito da época. Mas a maior parte do público está ali para provar que o rock está mais vivo do que nunca – que o digam os meninos atentos aos covers de Pink Floyd, Creedence Clearwater Revival e muitos outros.

A cidade é Passos, o lugar mágico se chama Woodstock Bar e o mentor de tudo é o guitarrista Magrão, nascido em São Paulo mas ligado à cidade desde sempre. O Woodstock Bar localiza-se numa rua bucólica, quase deserta, entre terrenos baldios, no final do bairro de São Francisco. É ali que a coisa ferve nas noites de quinta, sexta, sábado e domingo.

O bairro de São Francisco é um dos mais tradicionais de Passos, que em 2008 completa 150 anos de emancipação política. Nasceu ao redor do morro do mesmo nome, onde foi construída uma simpática capelinha, ainda nos primeiros tempos da cidade. A capelinha sobreviveu intacta até a década de 70, mas a partir daí começou a sofrer sucessivas reformas, até que a demoliram e construíram no lugar uma nova igreja, autêntico exemplar do mau-gosto da arquitetura pós-moderna. Parece uma nave alienígena.

A capelinha foi uma perda, mas não era mais possível salvá-la. Ao longo das últimas décadas, os padres lotearam o morro e o bairro subiu pelas suas encostas, descaracterizando-o. Mas o bairro mantém até hoje suas principais características de cidadezinha do interior, com casinhas singelas, ruas tranqüilas por onde as pessoas caminham, trocam um bom-dia e conversam, a caminho da padaria ou do botequim.

Foi nesse ambiente tipicamente interiorano que nasceu o Woodstock Bar. É por isso que os que o procuram, noite adentro, têm às vezes dificuldade para encontrá-lo – pior ainda, quem está em Passos para uma visita. O cara percorre ruas escuras, vira esquinas desertas, e de repente se depara com uma rua lotada de carros e motos e é despertado por um som que parece vir de uma outra época. E vem mesmo.

O Woodstock Bar deveria ser incluído no roteiro turístico oficial de Passos, uma cidade simpática que recebe visitantes atraídos por suas lojas de roupas modernas e ecoturistas em busca das belas cachoeiras da região. E, é claro, os imortais roqueiros.
 

Passos (MG), agosto de 2007

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A festa solitária

Lá vai o homem de olhos moucos, em busca de paisagens mais belas. Fernando Mendes Vianna era um incansável caçador de belezas, um desafiador do impossível. Sua voz continua viva nos circuitos da minha secretária eletrônica, graças a essa tecnologia a que ele torcia o nariz: "Marino, estou sem notícia da revista, se você puder me dar um retorno..." Fernando queria o que seus olhos já se recusavam a fazer - ver a nova revista, "Traça", criada para abrir novos espaços à literatura de Brasília, ler a entrevista que havia concedido. Típico de sua personalidade, não aceitava o adverso. 

Sua capacidade de observador, seu olhar aguçado permaneciam íntegros, apesar da degeneração macular, nome da cruel doença que repentinamente passou a impedi-lo de fazer o que fizera a vida inteira: ler. Escrever, não: continuava escrevendo de olhos fechados, às cegas, sabendo que os versos perfeitos, profundos, brotavam incontrolavelmente de suas mãos e seu coração. Logo o Fernando, que um dia bradou, em um poema: "Não me fechem os olhos. / Muitas vezes contemplei / impassível / um peixe assassinado / e seu grande olho / estupefato." 

O coração, "feroz ventríloquo", outra peça que lhe pregava peças, inclusive a derradeira, mas que ele cavalgava sempre corajosamente, sem pretender jamais domá-lo. "Coração, cavalo verde / Com espumas, vento e mar. / Coração, cavalo verde, / teu galope é navegar." Esse corpo limitado era abrigo de um espírito que sempre mirou a perfeição. Não a perfeição imaculada, mas acima de tudo humana, a do ser imperfeito que se deslumbra com a vida, a persegue, interage e sabe que dela faz parte a morte, esse fim visível, ainda que Fernando Mendes Vianna não tenha vindo ao mundo para morrer. A morte é uma festa solitária, disse em outro poema.

Imprevisível, não cumpriu o que previra para si próprio - a morte aos 77 anos. Partiu quatro anos antes, sem qualquer aviso prévio: de repente, fechou os olhos, sentado numa poltrona, um lápis na mão, um papel na outra. Desde o domingo, 10 de setembro de 2006, Fernando é um homem encantado, nos dizeres de Guimarães Rosa, mas permanece encantador para quem teve o privilégio de conviver com ele. Seja pelos versos, que eternizam o homem, seja pela sua humanidade explosiva, incontida, indomável, que sempre foi um convite à vida e ao deslumbre. Mais que um poeta, se é possível ser mais que o grande poeta que sempre foi - é - Fernando era ele próprio um poema em estado bruto, a lapidar-se diante de nós. Filósofo, sonhador, irreverente, amigo, mestre da arte da poesia, da arte de viver. 

Fernando Mendes Vianna nasceu no Rio de Janeiro, em 1933. Tradutor e poeta, estreou em 1958, com Marinheiro no Tempo e Construção no Caos, dois livros em um. Seguiram-se A Chave e a Pedra, 1960, Proclamação do Barro, 1964, O Silfo-Hipogrifo, 1972, Embarcado em Seco, 1978, Antologia Pessoal, 2001, e A Rosa Anfractuosa, 2004. Recebeu, entre outros, o Prêmio Literário Nacional do MEC, em 1972 e 1986, e o reconhecimento de críticos como José Guilherme Merquior, Eduardo Portella e Antonio Olinto. Superou as hostilidades dos concretistas contra sua geração com uma poesia filosófica, metafísica, enriquecida pela alta densidade das metáforas. 

Tinha plena consciência de que sua poesia sobreviveria a ele, tanto que não se preocupava com a aparente reclusão em Brasília, onde um círculo de amigos gozava de sua erudição e humor. Espírito inquieto, questionava a ordem das coisas, propunha manifestos, interferia, arrastava o estático ao movimento. Até que sua morte o colocou acima das picuinhas humanas. 

A poesia o eterniza, mas já não há o inusitado de suas frases, o sarcasmo de suas reflexões, seu olhar que viu o mundo de todos os ângulos, imagináveis ou não, e encontrou na poesia a linguagem para descrever as cores, as formas, os sons e a textura do que só ele soube vislumbrar. Lutador e libertário, cumpriu sua missão e sua memória nos guiará, com a ajuda de seus versos. Num deles, advertiu: "Se acaso me ansiasse imortal, / qualquer tempo seria terrível." Adeus, amigo, devemos compreendê-lo. 

[Caderno Pensar, Correio Braziliense, 16 de Setembro de 2006]

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O vegetariano e o açougueiro

Minha condição de vegetariano me permite manter distância segura de churrascarias, açougues e comércios afins. Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, o trabalho de Luiz Amorim à frente de sua casa de carnes T-Bone me despertou atenção. Não especificamente pelo produto que é a razão de ser de seu negócio, mas pelo seu perfil de empreendedor cultural, que faz dele uma peça rara entre os micro e pequenos empresários brasileiros, especialmente os brasilienses.

Dizem que o Açougue Cultural T-Bone — sim, essa é sua razão social — é a melhor casa de carnes de Brasília. Disso eu não entendo. Mas com certeza Luiz Amorim é um empresário exemplar. Graças à sua inquietação, a seu idealismo, vem cumprindo um papel social importante, ao suprir pelo menos uma carência de parte da população da cidade: a de bibliotecas.

O T-Bone existe, com esse nome, há pouco mais de 10 anos. Amorim era um esforçado funcionário da casa, que tinha outro nome, até que teve oportunidade de comprá-la. Localizado na Quadra 312 da Asa Norte, o açougue em poucos meses começou a transformar-se em espaço cultural.

Amorim tem 42 anos. Era analfabeto até os 16. Leu o primeiro livro aos 18 anos. “A partir daí, tornei-me leitor compulsivo”, contou-me quando o conheci, durante um encontro de escritores na Casa de Cultura T-Bone, um espaço cultural que ele criou na quadra 712 Norte, a menos de um quilômetro do açougue. 

Quando decidiu abrir uma pequena biblioteca dentro do açougue, em 1995, a Vigilância Sanitária passou a pressioná-lo. Os problemas se reduziram depois que uma lei distrital autorizou o comércio varejista a manter esse tipo de atividade. Amorim não sossegou. Três anos depois, criou as Noites Culturais, que a cada semestre fecha a rua do açougue para um grande evento reunindo músicos, escritores e outros artistas. Já participaram artistas de nome nacional, como Chico César, Moraes Moreira e Guilherme Arantes.

  Noites Culturais

Há um ano e meio, Amorim alugou duas lojas com subsolo para instalar sua Casa de Cultura, que ele mantém com recursos próprios e o de algumas empresas mantenedoras e alguns políticos que se sensibilizaram com seu projeto. Ali funcionou um teatro de bolso, durante o primeiro ano. Agora a proposta é promover eventos culturais. Os primeiros foram um encontro de escritores mineiros, realizado em fevereiro, e um de afro-descendentes, que aconteceu em abril.

A maior atração da Casa de Cultura é a Biblioteca Comunitária, que possui atualmente cerca de 15 mil títulos, obtidos por meio de doações. Qualquer pessoa pode fazer empréstimo de livros, desde que faça um cadastro que dá direito a uma carteirinha. De janeiro a março de 2005, quando ele começou a atender os interessados, cerca de 900 leitores já haviam se filiado. Amorim acredita que as pessoas se tornarão boas leitoras assim que tiverem acesso aos livros, e está empenhado em contribuir para esse processo.

 “Leio uns 10 livros por mês, e não leio mais porque não posso me dedicar só a ler”, afirma. Amorim garante que não tem preferências de leitura. De acordo com sua teoria, um livro é como uma estrada. “Existem as grandes rodovias, onde você pode andar a alta velocidade, e estradas cheias de curvas, pisos irregulares, buracos, em que você tem que ir devagar, mas todas proporcionam viagens prazerosas e nos levam adiante”, explica. Assim, para ele, não há livros chatos ou difíceis, mas apenas diferentes.

A empresa tem 15 funcionários, somando os do açougue e os da Casa de Cultura, dirigida por Daniel Correa, braço direito de Amorim nesse empreendimento visionário. Amorim exige que seus funcionários sejam bons leitores, e coloca os livros da biblioteca à disposição deles. “A pessoa pode ser pobre, humilde; mas o hábito da leitura é indispensável”, afirma ele. “Como vou conversar com uma pessoa que não lê?”

A meta de Amorim, agora, é criar espaços semelhantes nas outras cidades do Distrito Federal, projeto para o próximo ano. Que ninguém duvide. 

[Maio de 2005]

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O que querem os escritores?

 O que querem os escritores? Querem melhores condições de criação, de circulação da arte e da cultura, e uma efetiva ação do governo nesse sentido, de forma que a Literatura Brasileira saia do gueto cada vez mais estreito em que é confinada e o brasileiro descubra, enfim, o valor e o prazer da leitura. Nada mais justo. Os escritores lutam não apenas pela valorização de seu ofício e do produto dele, como também por um País melhor, conseqüência natural da educação de seu povo.

O Ministério da Cultura tenta estabelecer uma política pública para o livro, e mantém aberta uma discussão com representantes dos setores interessados — editores, livreiros, gráficas, fabricantes de papel, bibliotecários, escritores — numa tentativa de esboçar uma “Política Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas”. Um grupo de escritores, unidos em torno do Movimento Literatura Urgente, enviou ao ministro Gilberto Gil e ao Coordenador do Programa Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas, Galeno Amorim, um documento sob o título “Temos fome de Literatura”, em que apresenta uma série de reivindicações — a começar pela inclusão da palavra “Literatura” nos programas, leis, conselhos e câmaras setoriais propostos pelo Ministério.

O Movimento faz reivindicações pertinentes e apresenta propostas interessantes, entre as quais um programa de circulação de escritores pelas universidades do País, a fim de debater literatura e promover leituras públicas. Também reivindica a concessão de bolsas de criação literária, incentivos para publicação de primeiros livros e outros benefícios de difícil execução, como a criação de um sistema público de distribuição de livros voltado para as pequenas editoras e a produção independente.

Os escritores querem melhores condições para produzir, além de maior e melhor circulação do livro, de forma que sua criação alcance mais leitores. O ofício do escritor no Brasil não gera renda, e conseqüentemente tem que ser exercido de forma marginal, sem dedicação exclusiva. Apesar disso, exerce um fascínio quase inexplicável. A cada dia um novo escritor estréia em livro — ou em blog, o veículo da moda — e novos jovens se lançam a essa atividade como se a literatura fosse um olimpo onde a glória estivesse sempre disponível.

Contradições

Levantamentos recentes indicam que cada brasileiro lê, em média, 2,5 livros por ano, um número que piora bastante se excluirmos da conta os livros didáticos, obrigatoriamente consumidos nas salas de aula. Fora esses, o brasileiro lê em média 0,9 livros por ano, ou seja, abaixo de um! Os norte-americanos lêem sete livros por ano, enquanto a média nos países nórdicos é de 15 livros por ano. Números tão ruins não impedem que a indústria editorial brasileira seja a oitava em produção no planeta — nosso mercado de livros desperta o interesse de multinacionais do setor, e grandes casas editoriais européias já começaram a atuar no Brasil. 

Como isso é possível? De acordo com dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Brasil edita 40 mil títulos por ano, sendo 15 mil em primeira edição. O mercado editorial fatura cerca de R$ 2 bilhões por ano, produzindo 320 milhões de exemplares, a metade para o governo, notadamente o Ministério da Educação, o maior comprador de livros do Brasil e um dos maiores do mundo (durante os oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso o MEC adquiriu cerca de 1 bilhão de exemplares, diretamente das editoras, para distribuição aos estudantes do ensino fundamental). 

A logística de distribuição desses livros comprados pelo Governo, desenvolvida pelos Correios, atingiu alto grau de precisão, de forma que todos os estudantes de escolas públicas, de todos os pontos do País, os tenham em mãos no primeiro dia de aula. Ao mesmo tempo, as bibliotecas públicas são terrivelmente miseráveis, mal aparelhadas e desatualizadas. Nos países avançados, 20% a 30% da produção editorial são destinados às bibliotecas públicas. No Brasil, essas instituições, em estado de penúria, suplicam aos escritores que doem seus livros.

São as contradições nacionais, com raízes em nossa pobre formação cultural. O grande número de títulos editados todos os anos contrasta com as tiragens cada vez mais baixas, o que significa que, apesar do aumento populacional, o número de consumidores de livros no Brasil se reduz, ainda que mais títulos sejam colocados à sua disposição. 

Luxo x desinteresse

Os livros tornam-se objetos luxuosos, e portanto mais caros. As editoras disputam um público seleto, e parecem pouco se interessar por um leitor capaz de se sacrificar para comprar um livro de apresentação mais pobre, porém mais acessível, cujo grande atrativo fosse o texto literário que veicula e não a apresentação gráfica.

Infelizmente, esse consumidor, pelo qual as editoras não se interessam, por sua vez também não se interessa por uma instituição que poderia supri-lo dos livros que não pode comprar: a biblioteca. Nossas comunidades não consideram a biblioteca um equipamento tão necessário quanto um posto de saúde ou uma escola. Quando existe, a biblioteca é utilizada por estudantes para fazer trabalhos escolares, e poucas pessoas da comunidade a utilizam como forma de acesso a um instrumento de prazer.

Carência

O caso das livrarias brasileiras também é exemplar. Não existem dados estatísticos precisos e confiáveis quanto a esse tipo de comércio, mas supõe-se que o Brasil possua cerca de 2 mil livrarias, o que dá uma média de uma para cada 85 mil habitantes, considerando a população de 170 milhões. Segundo a Unesco, o ideal seria uma para cada 10 mil pessoas. De acordo com levantamento realizado pela CBL há cinco anos, apenas 600 dos cerca de 6 mil municípios possuem livrarias autênticas. 

O Brasil não tem uma política de bibliotecas, não tem uma política de incentivos à abertura de livrarias, e o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) não utiliza livrarias na distribuição dos livros escolares, negando-lhes a oportunidade de se fortalecerem. Há cidades relativamente grandes, algumas acima de 50 mil habitantes, que não têm uma única livraria. 

Não se pode exigir que o Brasil seja um país de leitores se a população brasileira não tem acesso aos livros. Uma cidade onde o indivíduo disponha de uma livraria em que possa olhar vitrines ou estantes já é potencialmente mais leitora do que aquelas onde o livro é objeto desconhecido. 

Distribuição

Do ponto de vista do escritor, aqui mora outra contradição. Afinal, há centenas de títulos editados todos os anos no Brasil que circulam apenas nas mãos de familiares ou amigos do autor, porque não há uma forma profissional de distribuição que os faça chegar a grande número de pontos de venda no território nacional. “Se não consigo colocar meu livro nas poucas livrarias que existem, de que me servirá que elas se multipliquem?”, poderia perguntar, provocativamente, o escritor.

Esse problema começa na extensão de nosso território, passa pelas leis do mercado e termina no ponto comum de nossa miséria econômica e cultural. As grandes redes de livrarias compram diretamente das grandes editoras e fazem distribuição própria, o que permite as vendas com descontos. As distribuidoras atendem a pequenas e médias livrarias, que batalham por descontos para concorrer com as grandes. Assim, as distribuidoras, pressionadas, exigem das editoras, além desses descontos, catálogos mais amplos e maior volume de livros, o que aumenta as dificuldades das pequenas editoras para colocar seu produto no mercado. A concorrência também exige que os títulos sejam de alta vendagem, o que leva à multiplicação dos livros de leitura fácil e afasta das grandes redes os livros das pequenas editoras. 

Obviedade

Qualquer raciocínio que se desenvolva sobre mercado de livros e circulação de literatura no Brasil conduz sempre à mesma obviedade. Para que o nível de leitura melhore, o País precisa de melhor distribuição de renda e melhor estrutura educacional, de forma a que o brasileiro, primeiro, tenha o livro como objeto de desejo, e segundo, possua dinheiro para alcançá-lo.

Para isso, não bastam ações isoladas do Ministério da Cultura ou medidas eventuais de um governo ou outro. Todos os governos, um depois do outro, e cada órgão de cada governo devem se conscientizar da importância da educação e da leitura, e realizar ações nesse sentido. Aqui, mais uma vez nossa pobreza cultural nos prejudica, já que é de consenso geral de todos os governos que cultura é enfeite. 

O atual governo, que está colocando o tema em discussão com os setores interessados, pelo menos um dedo moveu em favor desse setor, ao extinguir a cobrança de Pis e Cofins sobre todas as operações com livros. No entanto, ainda permanecem acesos em nossa memória os temíveis improvisos do Presidente da República, que em várias oportunidades abordou o tema livro de forma pejorativa ou negativa. Todos nós sabemos que Luís Inácio Lula da Silva se vangloria de não ter precisado de livros para chegar aonde chegou.

O Movimento Literatura Urgente, que em suas reivindicações sintetiza uma situação ideal entre poder público e escritores, deve mesmo lutar por melhores condições de trabalho. Esperemos que algo aconteça. Enquanto isso, resta aos escritores continuar fazendo o que lhes cabe — enriquecer nossa literatura com textos de qualidade, que um dia, Deus nos ouça, chegarão às mãos de muitos e muitos leitores.
[Fevereiro/2005]

 Grande parte destas reflexões são conseqüência da leitura de O Brasil pode ser um país de leitores?, livro de Felipe Lindoso publicado pela Summus Editorial, fonte também de algumas das informações sobre mercado de livros no Brasil disponíveis neste texto.

Maiores informações sobre os temas aqui discutidos podem ser obtidas nos seguintes endereços:  

Movimento Literatura Urgente 

Ministério da Cultura

Câmara Brasileira do Livro 

Viva Leitura 

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A poesia em campo fértil

Este artigo foi publicado no jornal O Tempo, de Belo Horizonte, em 18/11/1998. Aborda a I Bienal Internacional de Poesia, realizada em naquele mês na capital mineira. O evento não teve continuidade e perdeu a razão de seu nome. Este texto está sendo republicado neste espaço como um apoio ao poeta Rique Aleixo, que comanda um movimento para que o evento volte a ocorrer, agora com o nome de BHZIP.

 

 A essência da Poesia é o humano; sedução do pensamento, arte da reflexão, resgata-nos da barbárie que a todos engole nesses tempos tecnológicos. A Bienal Internacional de Poesia, promovida pela Secretaria Municipal de Cultura, não apenas veio alimentar e comprovar a vocação de Minas Gerais para as artes literárias, como também nos lembrou de que é preciso parar e contemplar.

Foi deliciosamente sintomático que Belo Horizonte realizasse a Bienal enquanto em Brasília se desembrulhava mais um pacote econômico. O mundo que a mídia nos apresenta raramente tem espaço para a Poesia; abrem-se os jornais e o que se vê é o terror econômico, o terror político, a criminalidade, a desumanidade. E no entanto, é ao tornar-se um animal poético, e não racional, que o ser humano alcança o mais alto degrau da escala evolutiva.

Nomes importantes da Poesia brasileira, provenientes de outras capitais brasileiras e do exterior, trouxeram uma efervescência que pôde ser sentida nas ruas, nos espaços onde acontecem eventos relacionados à Bienal e na imprensa. Algumas ausências foram sentidas, o que seria inevitável; citaria Ferreira Gullar, um dos mais importantes poetas brasileiros, e Antônio Barreto, que vive em Belo Horizonte. E lembraria ainda José Paulo Paes, que morreu duas vezes no mês passado: uma por problemas de saúde, outra por indiferença da mídia.

A impressão mais importante que ficou da Bienal, no entanto, é que a Poesia encontrou campo fértil na aparente aridez da cidade. De passagem por Belo Horizonte, apresentei meus poemas na última segunda-feira, dia 9, no Café Belas Artes, como convidado, e aproveitei os três dias em que estive na cidade para tomar um banho de poesia. Aos poucos, fui descobrindo que Belo Horizonte ofereceu clima propício para que a arte da palavra frutificasse e entranhasse nas pessoas.

A apresentação no Belas Artes – ao lado de Virgílio Mattos e Paulo Leão, poetas que dividiram a noite comigo – foi emocionante, e isso não é retórica, é a palavra exata. A receptividade do público me impressionou. Durante os anos 70 e início dos 80, vivi na capital mineira e participei de inúmeros recitais de poesia, sempre com boa resposta do público. Guardei essa imagem de Belo Horizonte, a de uma cidade aberta para a poesia. Mas temia que, depois de tanto tempo, fosse apenas uma sensação nostálgica. Não é. Os fatos, quando se realizam em sua plenitude, é porque aconteceram no lugar certo.

O que se constata é que, acima de tudo, o público curioso e receptivo, em boa parte formado por jovens, deu o real sentido à Bienal. As pessoas gostam de Poesia, mas nem sempre têm a oportunidade de percebê-lo. E no entanto, quando têm a oportunidade, se envolvem, se emocionam, se manifestam e participam.  Esse público, embora pequeno se comparado à população da cidade, pode ser tomado como um exemplo, um símbolo da vocação de Belo Horizonte para o exercício da Poesia.

O sucesso dessa primeira Bienal Internacional de Poesia também se deve à organização e ao apoio da mídia, inclusive nacional. Possíveis falhas certamente serão corrigidas na próxima edição, que esperamos venha a acontecer em novembro de 2000. Afinal, uma Bienal não pode ser única; pressupõe sua continuidade a cada dois anos. Ao realizar a primeira, a Prefeitura assumiu o risco e o compromisso de dar-lhe prosseguimento e incluí-la em definitivo no calendário cultural da cidade, independente de partidos políticos que se revezem no poder.

A Comissão Organizadora da Bienal merece os cumprimentos pelo sucesso do evento.  Dirijo meu agradecimento especial a Marcelo Dolabella e Sérgio Fantini, que se lembraram que, embora eu tenha deixado BH para viver em Brasília, a poesia e BH não me deixaram. E, pela minha vivência como poeta, Belo Horizonte é isso que o próprio nome diz. Apesar de distante, nunca desaparece da vista, em qualquer direção que se olhe.

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Pássaros e ventos

 Há quem diga que Brasília não tem segredos. Não tem aquelas esquinas que todas as cidades têm, que conduzem a um beco escondido, uma paisagem inusitada, um casarão abandonado. Pois quem caminha pelas quadras 413/414 Norte está próximo de descobrir alguns segredos. Mas como, se ninguém mora lá? Ninguém? E as marias-faceiras, os gaviões-peneiras, os martins-pescadores, os beija-flores, os sabiás, os anus-pretos, os tizius, os pica-paus, as pipiras? 

São quadras nobres, com tantos moradores ilustres! Uma área de 21 hectares, com nome poético: Parque Olhos D´Água. Dispostos à boa convivência, os moradores recebem visitas o dia inteiro, sem parar. É gente entrando e saindo, caminhando, correndo, respirando aqueles cheiros que não há como descrever com palavras. E até agredindo o ambiente, como o Felipe, o Lenilson e a Bruna, que escreveram seus nomes numa árvore. Um outro preferiu fazer um apelo anônimo: “paz”, rabiscou no tronco. Está difícil, mas quem sabe os seres da natureza ajudam?

Ali é mesmo um ambiente de paz. Ao redor do alarido das ruas e avenidas, o canto dos pássaros, o farfalhar do vento nas folhas. Parece até possível separar o silêncio e o infindável ruído dos motores, que pelo menos passam longe. Mas também tem gente que não gosta de silêncio, prefere carregar seu charabiá particular nos fones de ouvido. Bob Marley? Lobão? Barão Vermelho? Skank? Belle & Sebastian? Ah, deve ser por isso que o tiziu dá uma cambalhota ao cantar: para chamar a atenção dos que não têm ouvidos para ouvi-lo.

Na Lagoa do Sapo, peixes dançam, patos parlamentam, tartarugas filosofam, sapos trocadilham. As gentes, bichos estranhos, param na ponte para observar. Há os que não param, passam apressados, caminhando como se prestes a perder o trem. Correr não é contemplar. Humanos não dominam essa técnica. Contemplação em movimento é coisa para formigas, libélulas, borboletas. Por isso tantos bancos de madeira à sombra das árvores.

Há uma pista asfaltada beirando a cerca, trilhas calçadas, caminhos na mataria. Estes são proibidos para estressados. Para percorrê-los, é preciso esquecer o tempo. Um passo, um olhar, um inspirar, uma descoberta do imperceptível. E um mergulho numa dimensão fora do urbano, da pressa, do compromisso. A música do riacho. A água brotando da terra como milagre. O perfume da flor invisível. A música de um pássaro feliz.

“Cuidado com as cobras nas trilhas sem calçamento”, adverte uma placa, que alguém pichou. Não foram as cobras nem os lagartos, que são discretos e costumam estar de bem com a vida. Nem foram eles que abandonaram copos de plástico na galharia. Mas pelo menos a maior parte da gente que anda por ali tem algum parentesco com os bichos. Gosta daquele ambiente verde, conversa com o vento, faz confissões aos jequitibás e angicos. E, como os passarinhos, sente uma atração irresistível por pousar numa embaúba. Ah! É sinal de evolução da espécie. 

Publicado na revista Roteiro Brasilia n. 57, de abril/2004

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Cidadão das estrelas

Existem milhões de estrelas visíveis aqui da Terra, mas cinco são especiais. Nossos olhos, que a todas as coisas dão formas, as enxergam na forma de uma cruz, um guia para nossas viagens sem rumo, como se nós, eternos navegantes sem bússolas, ao olhar para cima pudéssemos contar, se não com um porto, pelo menos com um horizonte seguro.

Meus avós, bons avós mineiros, que tinham a carne enraizada na terra mas os olhos na dimensão dos céus, revelaram-me o infinito por meio daqueles pontos de luz, chamados de Cruzeiro do Sul porque visíveis somente deste hemisfério, privilégio do olhar de quem vive na parte "de baixo" do planeta, oriente de navegadores de mares, veredas, sertões.

Nas noites de Passos, no quintal da casa de meus avós, identifiquei o Cruzeiro no céu, e ainda na infância descobri o Cruzeiro na terra, nas ondas de um radinho Mitsubishi a pilha, quando um time de futebol de Minas Gerais, de camisas da cor do horizonte, conquistou a Taça Brasil com duas vitórias históricas sobre as estrelas do Santos Futebol Clube, Pelé & Cia, estrelas que o mundo inteiro reverenciava. Aquela conquista representou uma tomada de consciência, o menino de repente entendia que era um cidadão mineiro, e podia orgulhar-se da terra em que nascera.

Era um tempo de aventuras, de peladas nas ruas de paralelepípedos, nos becos de pouco trânsito, um tempo de descobertas e crescimento. E os moleques cresciam, descobrindo as paixões que viriam pela vida afora, quase todas efêmeras, algumas duradouras, uma eterna: o Cruzeiro Esporte Clube.

E assim aquele menino, ao crescer e tornar-se um cidadão brasileiro, carregou a lembrança de sua infância no sul de Minas, quando aprendeu na escola o Hino Nacional, e ao cantá-lo pôde encher os pulmões como se o esporte fosse a metáfora da História, ou vice-versa, especialmente naqueles versos: "Brasil, um sonho intenso, um raio vívido/ de amor e de esperança à terra desce,/ se em teu formoso céu, risonho e límpido/ a imagem do Cruzeiro resplandece".

Há clubes que carregam nomes de bairros, cidades, estados, países, até continentes; o time de futebol que me levou a descobrir minha terra foi buscar seu nome no céu. É poesia pura. 

Alexandre Marino

uma homenagem ao melhor time de futebol do Brasil,
campeão nacional de 2003
 

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