Navegue para conhecer o trabalho do poeta e jornalista Alexandre Marino.

Segunda seleção de crônicas, todas publicadas na imprensa 

Planos para um aniversário
29/08/2001
O mistério de Boa Esperança
22/08/2001
Não é fácil ser pai
15/08/2001
Histórias da dengosa
08/08/2001
O colecionador
18/07/2001
Entre a ternura e a tragédia
11/07/2001
O encantador de serpentes
04/07/2001
As novidades da seção de velharias
27/06/2001
Poesia, surpresa e destino
23/05/2001
Sá, Guarabyra & eu
09/05/2001
Tragédias em movimento
11/04/2001
Adubo para a última flor do Lácio
04/04/2001
O mito da ilha deserta
28/03/2001
Magias da propaganda
21/03/2001
Um herói nacional
14/03/2001
Já leu seu livro hoje?
07/03/2001


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   Planos para um aniversário

Eu poderia promover uma festa ou enviar-lhe flores. Girassóis, flores-do-campo, rosas brancas. Ou frutas: maçãs, pêssegos, mangas ou laranjas. Ou um cartão postal do Rio de Janeiro, das obras de Niemeyer em Brasília, de Ouro Preto, Diamantina, uma praia do Nordeste. Porque postais transportam apenas o que é belo na paisagem.

Um bom presente seria um livro de Carlos Drummond de Andrade, talvez o Sentimento do mundo, onde ele diz: “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. Ou qualquer outro, onde sejam descritas paisagens assim: “O casario alastra-se na cacunda dos morros,/ rebanho dócil pastoreado por igrejas”. Drummond, que disseca nossas identidades secretas fazendo-nos admirar que possa nos conhecer tão bem.

Uma chuva de setembro. A primavera vinte dias antes.

Fechemos os olhos para ouvir. Que tal convidar Chet Baker para, com seu trompete encantado, participar da comemoração? Um CD de Chet Baker, My favorite songs, porque talvez estas sejam também as nossas canções favoritas. Poderia ser ainda Diane, sua parceria com o pianista Paul Bley, ou o melhor de todos, Chet on poetry. Está certo que, em se tratando de Chet Baker, sempre podemos mudar de idéia, porém mesmo que nos decidamos por um outro mais belo, este soará como tal.

Chet Baker, Miles Davis, John Coltrane, Dave Brubeck ou o vozeirão sutil de Louis Armstrong cantando What a wonderful world. Sim, às vezes temos a sensação de que o mundo é mesmo maravilhoso. Ella, Nina Simone, Sara Vaughan e a genialidade dos Beatles.

Bem, a festa está começando. Estão convidados todos os gênios da música. Traremos Paul McCartney para cantar Yesterday, George Harrison cantará Something e John Lennon, é claro, Imagine e Woman. Para completar o quarteto, Ringo Starr também estará presente, e nos mostrará uma seleção de clássicos do jazz, essa linguagem musical elevada, capaz de nos conduzir por caminhos insondáveis da emoção. E, é claro, não faltará o momento adequado para os concertos de Bradenburgo de Bach ou uma sinfonia de Beethoven.

De Chico Buarque, ouviremos, para começar, Futuros amantes e sua parceria com Vinicius de Moraes, Valsinha, esta na voz de Mônica Salmaso. Não passaremos sem as vozes de Elis Regina, Milton Nascimento, Virgínia Rodrigues, e especialmente Dorival Caymmi cantando Morena do mar  ou Suíte dos pescadores. Orlando Silva versejará Sertaneja, em dueto com meu pai.

Comemoraremos com muita cerveja, a bebida dos bárbaros, e vinho tinto, a dos nobres, já que ambos convivem em nossas próprias contradições.

Eu gostaria de presenteá-la com uma semana em Paris, uma cidade tão bonita que nos dá a impressão de não ser habitada, ocupada apenas por turistas com prazo marcado para ir embora, com direito à saudade. Mas por que ir longe assim, se aqui o dia-a-dia também nos reserva boas surpresas? Se a felicidade está no encontro harmônico de um dia com o outro, se cada passo prossegue bem o anterior, e uma xícara de café às vezes é mais palatável que o mais nobre licor?

E depois permanecerá no ambiente aquela música indefinível, alguns acordes como um perfume, um silêncio; os girassóis de Van Gogh a dar vida a um vaso, palavras soltas no ar, sorrisos e olhares.

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O mistério de Boa Esperança

Carlos Alves Netto já era dentista profissional e músico por vocação em 1936, quando escreveu ao compositor carioca Lamartine Babo convidando-o a conhecer sua terra, Boa Esperança, simpática cidadezinha de 5 mil habitantes, no sul de Minas. A razão do convite era o baile de estréia do Bando dos Tangarás, conjunto musical que o próprio Carlos criara, e no qual tocava piano, saxofone e flauta, entre outros instrumentos.

Naquela época, as canções eram divulgadas pelo rádio, em ondas curtas, que levavam a grandes distâncias as transmissões das emissoras das principais cidades. Carlos Netto, então com 30 anos, ouvia todos os programas de música na antiga Rádio Nacional e colecionava fotografias autografadas que solicitava aos artistas por carta.

Graças ao rádio, Lamartine Babo já era sucesso nacional com suas marchinhas que faziam a alegria do Carnaval carioca: O teu cabelo não nega, Uma andorinha não faz verão, entre outras. No entanto, jamais havia respondido aos insistentes pedidos de fotos que recebia de Carlos. Por que, então, aceitaria um convite para viajar mais de 12 horas, em trens desconfortáveis, fazendo baldeações e enfrentando estradas péssimas, para conhecer uma cidadezinha perdida no interior de Minas?

Pois Lamartine aceitou. “Prepare-se para viajar, vamos desmanchar um casamento”, disse a seu fiel secretário particular, Francisquinho Alves. Ele estava apaixonado pela misteriosa Nair, moça prendada que só conhecia por intensa troca de cartas e poemas que durou mais de um ano, até que o objeto de seu amor anunciou que acabara de noivar. Nair, por coincidência, morava em Boa Esperança.

Lamartine foi recebido com uma grande festa na entrada da cidade. Encontrou-se com Carlos Netto, fez muitos amigos, divertiu-se. Mas quem o observasse atentamente poderia perceber seus olhos inquietos, que procuravam uma pessoa desconhecida. Até que Carlos lhe apresentou sua sobrinha Nair – uma garotinha de 11 anos...

Lamartine não pôde desmanchar o casamento, porque não haveria casamento. Infelizmente, a moça que despertara seu amor também não passava de personagem de ficção. Fora criada pelo próprio Carlos Netto, usando o nome da sobrinha, supondo que assim talvez o compositor lhe enviasse a foto autografada para sua coleção. Carlos, autor de sonetos perfeitos e cartas inteligentes, bem escritas, não soube calcular o alcance de sua estratégia.

Conheci Carlos Netto em Boa Esperança em 1994. Aos 88 anos, era um senhor simpático, lúcido, bem disposto, que me guiou pela serra que dá nome à cidade e onde Lamartine Babo compôs, rodeado de amigos, o samba-canção que o imortalizou. “Nós, os poetas erramos / porque rimamos também / os nossos olhos nos olhos / de alguém que não vem / Serra da Boa Esperança / não tenha receio / hei de guardar tua imagem / com a graça de Deus (...)

Também conheci Nair Pimenta de Oliveira, então com 69 anos. E Carlos aproveitou para mostrar sua coleção de fotos autografadas de artistas. Só não vi as cartas que Lamartine enviou à fictícia Nair, porque Carlos as perdeu quando foi morar no Rio de Janeiro, depois de abandonar Boa Esperança por causa de uma desilusão amorosa.

Desde essa época, não tive mais notícias de Carlos Netto. Não voltei à cidade, mas pretendo fazê-lo em breve. Quando o conheci, Carlos me dizia que sua meta mais importante era chegar ao ano 2000. Espero que tenha conseguido e que vá muito mais longe, para ter tempo de contar a mais gente esta e outras histórias.

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Não é fácil ser pai

“Não é fácil ser pai”, pensava meu pai, buzinando o carro sem parar, enquanto nos esperava, impaciente, para sair em viagem. Aos oito ou nove anos, eu era incapaz de me estressar, e defendia-me de impossíveis tensões tornando-me ainda mais calmo à medida que ele se exasperava. Quando desistia da irritação, desligava o carro e relaxava, vínhamos em fila pelo corredor que dava no portão da rua. Eu era o último, com meu jeito meio fora do ar, meio autista, meio vitorioso. 

“Não é fácil ser pai”, pensava eu, examinando o calendário onde a namorada marcava seus dias férteis. Tinha em torno de vinte anos, e transar era a minha viagem. Sem gravidez para atrapalhar, é claro. Todos os meses, a partir do primeiro dia fértil, até ela finalmente anunciar: “chegou!”, eu vivia estressado. 

Nessa época, eu tinha plena convicção de que era absolutamente incapaz de ser pai. “Filhos, só depois dos quarenta”, repetia, com meu jeito meio fora do ar, meio filósofo, meio dono da verdade. O tempo passou, e ano após ano o que faço é fugir do estresse, cada vez mais ansioso. Agora, que já passei dos quarenta, estou certo de que a paternidade só é viável na faixa dos vinte. 

Nessa idade, recém-saído da adolescência, começava a acreditar que levara meu pai ao arrependimento não só de buzinar no portão, como também de ter sido pai. Os últimos anos haviam sido terríveis – para mim, porque aprendia a ser adulto, sem ter consciência disso; para ele, porque achava que eu estava me rebelando contra a infância. 

Contei tudo isso a um jovem que me abordou numa noite fria, durante uma de minhas caminhadas em busca de certas respostas. “Sabe quem sou”, ele perguntou. “Não”, respondi, sem parar. Mas prosseguiu ao meu lado, e acabou atraindo-me a atenção, esforçando-se para conversar despretensiosamente, como um amigo ou colega de trabalho.

“Se você encontrasse hoje um filho que jamais conheceu, o que faria?” – ele indagou, a determinado momento.

“Um teste de DNA”, respondi sem pensar, diante do absurdo da pergunta.

“Não lhe daria algum conselho?”

“Só se ele não soubesse que era meu filho, e eu estivesse convicto de que não era o pai.”

“E, nesse caso, qual seria o conselho?”

Refleti um pouco, sem olhar para ele. Pensei em dizer que o aconselharia a criar um código de ética pessoal, em que constassem os objetivos de ser justo e solidário; de compreender as razões alheias; de respeitar os mais velhos, os mais novos e os de mesma idade; de dar importância ao que se pode ser, e não ao que se pode ter, e de buscar esses objetivos com tal sinceridade que obtivesse prazer ao conseguir cumpri-los; de ler bons livros; de defender a natureza e humildemente respeitá-la; de interessar-se pelas artes, porque é por meio delas que o ser humano se identifica perante as outras raças; de não ter a pretensão de definir o mundo a qualquer pessoa, mesmo a um filho...”

A lista de conselhos cresceria indefinidamente na minha cabeça, se repentinamente o rapaz não tivesse desaparecido. Prossegui a caminhada pensando em como seria bom ser avô, sem o compromisso de ter sido pai. De repente, ocorreu-me que durante os parcos instantes de paternidade que acabara de viver eu assumira um comportamento moralista, tentando impor a um filho virtual as minhas convicções. 

Parei e sentei-me na calçada, tentando desvendar o mistério daquele personagem e dar-lhe uma identidade que não fosse a de um fantasma, uma alucinação. "Não é fácil ser pai", pensei, "porque ser pai é conviver com um desconhecido." 

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Histórias da Dengosa

Se as Highlands ("terras altas") escocesas produzem o melhor uísque do mundo, o Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas, é a terra da melhor cachaça, o que torna essas regiões equivalentes no talento de suas gentes e na riqueza de seus solos. O Vale é terra árida, seca e pobre, mas o fruto de seus alambiques é riqueza nacional, motivo de orgulho para os bons apreciadores.

Diamantina, Patrimônio Cultural da Humanidade – título concedido pela Unesco – é a capital turística do Vale, mas a capital mundial da cachaça é Salinas, cidade de 35 mil habitantes a 620 quilômetros de Belo Horizonte. É lá que se produz a emblemática Havana, que não se compra por preço inferior ao do melhor uísque importado. No entanto, nem é preciso pagar tão caro por uma boa cachaça – a cidade produz marcas de qualidade, que a procedência quase sempre garante.

Conheci Salinas em 1980, quando viajava, de carona, de Belo Horizonte a Fortaleza. Estava em companhia do escritor Carlos Figueiredo, que namorava uma garota de lá. Chegamos à terra da cachaça numa sexta-feira à noite, mortos de fome. Ao passar pela praça principal, notamos que os feirantes, que lá vendiam frutas, artesanato, comidas e, é claro, cachaça, desmontavam suas barracas. Aproximei-me de um deles, um senhor mulato, com jeito caipira, e perguntei: "O senhor tem araticum?"

Araticum, que na região de Passos é mais conhecida como marolo, é fruta do cerrado, e durante a viagem falávamos sobre a imensa variedade de vegetais que os ecossistemas brasileiros nos oferecem. A fome e a saudade de comer alguns bagos de marolo, que na minha infância era muito comum em Passos, deveriam explicar aquele meu súbito desejo. O feirante me olhou, enquanto guardava as últimas garrafas de cachaça numa sacola, e respondeu:

"Tem não. Só tem meiã." Sem entender a resposta, insisti. "Só tem meiã", ele repetiu. Imaginando que "meiã" fosse alguma fruta desconhecida para mim, pedi para ver. "Só meiã", exclamou, elevando a voz. O Carlos me deu uma cotovelada e cochichou: "Ele quer dizer amanhã, seu idiota." Sentindo-me de fato um idiota, comprei-lhe uma garrafa de "Seleta", que enxugamos antes de chegar a Fortaleza.

O Dicionário Aurélio relaciona 173 sinônimos para a palavra "cachaça". O Almanaque da Cachaça, precioso livro que comprei há alguns anos em Belo Horizonte, aumenta a lista, graças aos compostos, como iaiá-me-sacode, otim-fim-fim ou suor-de-cama-torta. Mas as marcas às vezes cercam-se de lendas, como a maranhense Tiquira, que dei de presente ao escritor Antônio Barreto e quase provocou uma tragédia.

Em São Luís, enquanto procurava a famosa marca, ouvi várias vezes um conselho, sem maiores explicações: "Beba quanto quiser, mas não tome banho depois." Sem entender, esqueci de avisar ao Barreto. Algum tempo depois, ele hospedou em seu apartamento em Belo Horizonte nosso saudoso amigo Paulo Régis, que se deliciou com a Tiquira, tomou um banho e foi dormir.

De madrugada, a Graça, mulher do Barreto, acordou com estranhos ruídos no corredor do prédio. Abriu a porta e deparou com a cena: Paulo Régis, negão de corpo atlético, com seu 1,80 de altura, totalmente pelado, tentava entrar no apartamento do vizinho, que, assustado, já o ameaçava com uma arma na mão. Graça o puxou de volta, antes que o vizinho pudesse entender alguma coisa. Aliás, ninguém entendeu, nem o Paulo, que no dia seguinte de nada se lembrava.

As lendas não precisam de explicações. E, quando se propagam ao redor de uma garrafa de cana, tornam-se ainda menos comprováveis, porém mais verossímeis...

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O colecionador

Nessa grande aventura que vivemos diariamente, temos – uns mais, outros menos – o estranho hábito de reunir objetos ao nosso redor. Há pessoas extremamente consumistas, incapazes de conter a compulsão para comprar; há os colecionadores pragmáticos, que investem em obras de arte ou objetos de valor agregado e fazem do hobby um negócio, e, por fim, os colecionadores afetivos, aqueles que juntam aos poucos, quase sem querer, coisas inúteis, as quais transformam em símbolos de valor apenas para si mesmos.

Vejo os primeiros com certa antipatia, porque portam uma aura de futilidade, ostentação e exibição de riqueza. Os do segundo grupo acabam trocando a simples mania pela atividade econômica, que exige planejamento e perspicácia e cria um certo clima, sério demais, de competição. É o caso dos colecionadores de selos, de obras de arte, de moedas e cédulas, e mais recentemente até de cartões telefônicos, que já começam a render lucros.

Estou mais para o colecionador afetivo. Quando era menino, cultivei as mais inusitadas coleções, sem falar, é claro, naquelas irresistíveis a todos os garotos, como as de figurinhas, por exemplo. Colecionei gibis, maços de cigarros, calendários, fotos de automóveis recortadas de revistas, times de futebol de botão e até tampinhas de refrigerantes. Com alguns amigos, o diálogo sempre começava assim: "O que você está colecionando agora?"

De todas as coleções que tive até a adolescência, só uma sobreviveu até hoje: cerca de 800 rótulos de cerveja, assinados no verso por aqueles que a beberam, com direito a versos, observações, confissões, filosofias baratas ou achados poéticos. O primeiro deles data de setembro de 1972. Veio de uma cerveja saboreada na cidade mineira de Itabira, durante o Baile da Primavera, quando foram entregues as medalhas e diplomas do II Festival de Arte promovido pela entidade estudantil local. Ao redor daquela garrafa, estávamos eu, Marco Túlio Costa, Antônio Barreto e nosso inesquecível Paulo Régis. Cansados, com frio, mas felizes. Aqueles prêmios foram o primeiro reconhecimento público de que tínhamos um certo jeito para a literatura.

No início da coleção, agora que lá se vão mais de 25 anos, são muito freqüentes as assinaturas do Iran Machado, Pedro Messias, Delcídio, Voltaire Macedo, Elaine, Desiré, Sônia, Silvane, William e Rosângela, e toda a turma da Upes. O bar era, quase sempre, a Xacrete, ao lado da Matriz, ou o Zé Feio, ambos em Passos. Depois comecei a freqüentar os bares de Belo Horizonte. Quando me mudei para Brasília, passei a guardar só rótulos muito especiais, geralmente para recordar viagens (em todos os sentidos).

Um de que me lembro, também do início, é o de uma Caracu que bebi na companhia do velho amigo Geraldo Rezende, no dia em que ele se ordenou padre, em Guaxupé, no dia 28 de julho de 1976. Há alguns rótulos de cervejas que não existem mais, como Port, Ouro Branco, Malt 90, algumas que bebi no exterior, como a Westmalle dos monges trapistas da Bélgica, que me parece a melhor cerveja que já provei, e a Férida, que tomei num quarto de hotel em Bagdá, no Iraque.

Esses rótulos me trazem tantas histórias que eu teria que escrever um livro inteiro de crônicas para contá-las. Porém, mesmo se não o fizer, posso garantir a todos os amigos que os assinaram ao longo de tanto tempo que o sacrifício não foi em vão. A coleção está bem guardada e aquelas cervejas se tornaram um documento para a posteridade. Saúde!

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Entre a ternura e a tragédia

Esses tempos de globalização nos permitem o acesso a um número infinito de informações, a comunicação imediata com qualquer parte do mundo; porém, tornam ainda mais incompreensível a distância que nós, brasileiros, mantemos de nossos vizinhos da América do Sul. Essa reflexão, que nada tem de novo, ocorre-me a propósito de uma grande descoberta – o poeta argentino Juan Gelman, que pela primeira vez é editado no Brasil, enquanto em seu país ele é grande vendedor de livros.

Apesar desse muro invisível, nossas histórias têm muitos pontos em comum, tais como as ditaduras militares que dominaram os dois países na segunda metade do século que acaba de passar. Da mesma forma que aqui, também lá a violência e a intolerância dos governos autoritários provocaram traumas profundos. Cidadãos foram torturados e mortos; alguns simplesmente desapareceram.

Juan Gelman é personagem de uma dessas tragédias. Em 1976, uma patrulha militar invadiu sua casa à sua procura, mas já estava no exílio. Levaram-lhe o filho e a nora, grávida. Treze anos depois, foram-lhe entregues os restos mortais do filho. Da nora, nunca mais soube. Em março de 2000, encontrou a neta, que fora adotada por uma família de Montevidéu, logo depois de nascer. Ela viveu 23 anos acreditando ser filha de um chefe de polícia uruguaio, e só então soube de sua verdadeira história. "Eu gostaria de ser Deus, para saber o que é o perdão", disse Gelman. "Não posso perdoar, porque não sou Deus."

"Talvez o mundo caiba na cozinha/ onde falamos do filho./ O futuro é um rosto, um doce nome,/ um sangue a caminho deste caminho./ Amor é dito de um modo estranho:/ berço, lenço, cueiro./ Estas coisas comuns./ Estas palavras brancas./ O amor cresceu./ A primavera canta em meu lenço."

Em nosso cotidiano, pouco valorizamos a poesia, mas os poetas estão entre os primeiros que os ditadores escolhem para perseguir, prender, torturar, matar, exilar. É assim no mundo inteiro, foi assim em todas as épocas, talvez porque a palavra tenha uma força e uma magia só plenamente mensuráveis em momentos de crise de humanidade.

Da mesma forma, parece estranho que um homem que carrega história tão trágica escreva poemas com tanta suavidade, tanta leveza, tanta ternura. Talvez porque, mesmo incapaz de perdoar, ele tenha um sentimento de piedade dos homens, adquirido em sua permanente luta com a palavra, contra os baixos sentimentos humanos.

Juan Gelman veio ao Brasil para falar a platéias do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, participando do ciclo "Mestres da Literatura Latino-Americana Contemporânea", promoção do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Aproveitou para lançar o livro Amor que serena, termina?, antologia organizada e traduzida por Eric Nepomuceno e editada pela Record.

Nascido em 1930, estreou em 1961, com Violin y otras cuestiones, e desde então cumpre uma luta obsessiva pela expressão, uma busca que é a própria vida, na Argentina e no exílio – França, Itália ou México, onde vive até hoje. "O poema está cheio de silêncios que dizem outras palavras. Assim, cada poema é infinito."

"Como um menino te canto sob a noite escura./ Cofre dos segredos, jogos profundos,/ tremores do outono como lenços rápidos,/ te canto ali para que sejas./ Senhora do candor,/ com boca limpa digo um a um teus nomes,/ ponho meu rosto na penumbra que deles desce,/ faço um grande fogo com teus nomes sob a noite escura./ Na verdade quero dizer: me fazes andar contra a morte."

A poesia de Juan Gelman nos proporciona um desses prazeres inesperados que a arte oferece a quem lhe abre as portas da mente e do coração.

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O encantador de serpentes

O compositor Chico Buarque disse numa entrevista, há dois ou três anos, que fazer música era atribuição para os jovens. Mas Chico, à beira dos 60, continua enriquecendo o acervo musical que encanta o mundo.

Chico é um seguidor das linhagens mais tradicionais da música popular brasileira, uma espécie de continuador de Noel Rosa, o genial compositor que morreu na década de 30, aos 27 anos, deixando obra riquíssima, até hoje surpreendente. Nunca se preocupou em promover revoluções. É por isso que engrandece nossa música.

Caetano Veloso tem história diferente. Compositor antenado para as transformações da sociedade brasileira, aproveita sua veia polêmica para posar de revolucionário. Depois de aparecer no cenário artístico com Alegria Alegria, foi um dos mentores de Tropicália, álbum coletivo que bagunçou as estruturas de nossa tradição musical.

Na capa de Tropicália aparecem Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa, Capinam, Os Mutantes. O maestro Rogério Duprat segura um penico como se fosse uma xícara. No canto direito, Tom Zé, que não canta, mas é autor de uma canção emblemática: Parque Industrial, cantada pro Gil, Caetano, Gal e Mutantes. Do mesmo ano de Tropicália, 1968, é o primeiro disco de Tom Zé, que leva apenas seu nome.

Caetano e Gil atingiram o máximo de seu prestígio no início da década de 90. Sete anos mais velho, Tom Zé foi esquecido. Seu último trabalho fora Nave Maria, lançado em 1984, único desde 1978. Ninguém conhecia mais aquele baiano franzino, barba mal-feita, que tinha os dentes estragados e pensava em deixar São Paulo e voltar para sua terra, Irará, onde poderia empregar-se como frentista num posto de gasolina.

Foi nessa época que andou pelo Brasil o roqueiro norte-americano David Byrne, ex-líder dos Talking Heads, procurando discos de samba. Pois não é que a obra-prima de Tom Zé se chama Estudando o Samba, embora pouco tenha a ver com o ritmo tradicional? Byrne o comprou num sebo, ouviu-o, apaixonou-se por aquele som diferente, voltou e lhe ofereceu um contrato para lançamento de um CD nos Estados Unidos.

Foi a tábua da salvação. Nossa imprensa colonizada descobriu o óbvio: o talento e a criatividade de Tom Zé. O primeiro lançamento do baiano nos EUA, apesar do título em inglês – The hips of tradition – é todo cantado em português, como a dizer: "Esta é minha língua, se querem me ouvir, ouçam em português."

Tom Zé tem sólida formação musical, inventa instrumentos que utiliza em seus discos e shows – há coisas estranhíssimas, como o enceroscópio e o buzinório, que toca em Jogos de armar – e não faz a menor questão de adaptar sua arte ao gosto duvidoso das classes A, B, C ou Z. O público, se quiser, que o descubra. Eis a grande diferença entre ele e o Caetano Veloso que veste gravata e canta bobagens do Peninha ou do Tigrão.

Aos 64 anos, Tom Zé é um de nossos mais criativos compositores, sucesso de público e crítica nos Estados Unidos, onde é tratado como ídolo. Ninguém fica indiferente ao ouvi-lo. Há três anos, o levaram para abrir uma noite do festival Abril Pro Rock, no Recife, e a moçada, surpreendida, o obrigou a dar 30 minutos de bis. No Rock in Rio, uma alucinada platéia de metaleiros gritava seu nome, depois de ouvi-lo.

Os CDs mais recentes de Tom Zé, lançados primeiro nos Estados Unidos e depois no Brasil – Com defeito de fabricação (1999) e Jogos de armar (2000) – parecem ser fruto daquela criatividade típica dos jovens, à qual se referiu Chico Buarque. Acontece que na música brasileira de hoje pouca gente é tão jovem como o sessentão Tom Zé. Será que o segredo é o famoso abacaxi de Irará?

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As novidades da seção de velharias

São Paulo, a cidade massacrada por todas as espécies de violência, apaga as luzes e aponta seu trânsito caótico na direção de alguém que simplesmente tenta atravessar a rua. Atropelado por uma motocicleta, está morto o roqueiro Marcelo Fromer, dos Titãs.

"Só quero saber do que pode dar certo/ não tenho tempo a perder." Esses versos, da canção Go back, são a cara dos Titãs, a banda que lançou, na década de 80, o melhor disco do rock nacional: Cabeça dinossauro, feito para arrasar com nossas sagradas instituições. Continuamos carentes de sustos.

Mas não se enganem. Os versos acima foram escritos em agosto de 1971, por um poeta que, um ano depois, meteria a cabeça no forno e abriria o gás: Torquato Neto. Parceiro de compositores como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Edu Lobo, entre outros, Torquato escreveu alguns dos versos mais viscerais da MPB, e matou-se aos 28 anos por não agüentar a pressão daqueles tempos.

A intensidade com que se vivia soa, hoje, falsa. Quem foi adolescente nos anos 70 conheceu a linguagem de Torquato e sabe que a transgressão era algo quase sangrento. Quem é adolescente hoje rebola ao som das micaretas ou rebola para se livrar de Sandy & Junior. Pois a música brasileira está precisando beber desse vinho envelhecido 30 anos.

Apesar dos governos militares e da censura, os primeiros anos da década de 70 marcaram a música brasileira para sempre. Ano particularmente rico foi 1972, quando Chico Buarque lançou Construção, Caetano Veloso fez Transa, até hoje os melhores discos de ambos, e Raul Seixas saiu com o incomparável Krig-Ha-Bandolo, seu primeiro LP solo.

Ainda em 1972, Sá, Rodrix e Guarabyra estrearam em trio com Passado, Presente, Futuro, e o maldito e esquecido Sérgio Sampaio fez um dos melhores discos da década: Eu quero é botar meu bloco na rua. Lô Borges ainda não tinha 20 anos, mas criou o clássico e raro LP dos tênis (tinha na capa a foto de um par de tênis). E já havia saído o Clube da Esquina, com Milton Nascimento, Toninho Horta, Beto Guedes, o próprio Lô...

A época era tão rica musicalmente que até Roberto Carlos lançou então seu melhor disco. O baiano Tom Zé, que hoje, aos 65 anos, é um dos mais criativos compositores brasileiros, sacudiu o cenário musical com o belo Se o caso é chorar. Fagner, que hoje é brega, estreou em 1973 com um disco surpreendente, Manera Frufru Manera, que o tornou ídolo do público jovem, especialmente o universitário. E os universitários dos anos 70, politizados e contestadores, tinham gosto refinadíssimo.

Até Dorival Caymmi, que já era veterano, emocionou com um LP que tinha Morena do Mar, Dona Chica, Oração de Mãe Menininha, entre outras pérolas. Em 1973, o carioca Luiz Melodia estreou com Pérola Negra, e Ednardo e o Pessoal do Ceará lançaram Ingazeiras. Edu Lobo fez Missa Breve, e Paulinho da Viola veio com Nervos de Aço... De 1973 também é o primeiro disco dos Secos & Molhados. Depois deles, a música brasileira nunca mais foi a mesma.

Para não me acusarem de machista, vou lembrar que a maior cantora que o Brasil já teve, Elis Regina, lançou seus melhores discos nessa época, e Rita Lee estava em plena forma, assim como Gal Costa e Maria Bethania.

Todos os discos citados neste texto, e muitos outros não citados por falta de espaço, representam o melhor da música brasileira nos últimos 50 anos, são clássicos e continuam surpreendentes. Quando você entrar numa loja de CDs e achar tudo meio sem graça, não desista. Na seção de velharias podem estar as grandes novidades.

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Poesia, surpresa e destino

O poeta mexicano Octavio Paz dizia que a linguagem é a metáfora do mundo, e a poesia é a metáfora da linguagem. Dominando a linguagem, o homem dominou sua perplexidade diante do mundo, e acreditou-se uma divindade. No entanto, a poesia, rebelde, escapou de seu domínio, e continua surpreendendo-o. Lá se escondem suas relações com as forças do desconhecido, da magia, da espiritualidade, de seu destino incerto. Lá residem nossas últimas utopias.

O homem tenta ser o senhor do mundo, e para isso inventou instrumentos e desenvolveu a tecnologia. Aprendeu a gerar a eletricidade, metáfora da criação do mundo – "faça-se a luz!" – e moveu montanhas.

Em busca de respostas, desenvolveu as ciências. Mas, a cada resposta que encontra, a poesia lhe apresenta novas perguntas. A poesia vai sem medo aos nossos mais profundos abismos, é ao mesmo tempo a revelação e a incógnita. Não respeita verdades ou dogmas. É a luz que se faz quando fechamos os olhos.

A evolução tecnológica gerou como subproduto um mundo artificial, perceptível nas imposições e mentiras da sociedade de consumo. A poesia nos oferece abrigo, basta que estejamos disponíveis. Porém, nem sempre estamos; poucos, na verdade, somos capazes de abrir a percepção para uma linguagem que, por definição, deve causar estranheza e nos levar à reflexão. Os homens adquiriram uma enorme capacidade de permanecer na superficialidade, e o aprofundamento pode ser incômodo.

O progresso técnico, que, assim como a poesia, é produto de nossa curiosidade diante do mundo, persegue o conforto e a segurança. A humanidade aprendeu a curar a maior parte das doenças, mesmo que algumas sejam produto da própria evolução. Construiu estradas, por onde viajam carros velozes, e aeronaves que cruzam o globo; há acidentes, porém irrelevantes, sob o ponto de vista estatístico, considerando o conforto proporcionado pelos modernos meios de transporte. O avanço das comunicações nos permite enviar instantaneamente documentos, sons e imagens para qualquer parte do planeta, ainda que corramos mais riscos de ser espionados.

Talvez seja natural que nos deslumbremos com os milagres da tecnologia, que também nos legou o vício da ostentação e reduziu nossa capacidade de reflexão, distorceu nosso discernimento, levou-nos a valorizar a acumulação de bens e a desprezar as coisas simples. Para muitos, parecerá um exotismo sem sentido falar em poesia nestes tempos de desencontros, mas que tempos não o foram?

A poesia nasceu com a própria linguagem, nos primórdios da humanidade; foi veículo de transmissão do conhecimento e de exaltação aos deuses. Hoje, quando a linguagem é segmentada em mil divisões, a poesia transpira filosofia, sonho e liberdade, e permanece marginal.

Veículo de sabedoria e loucura, procuras e encontros, certezas e dúvidas, a poesia é restrita a guetos, tribos e confrarias, mesmo que ninguém precise ser um iniciado para deleitar-se com versos. Quando abrimos nossa sensibilidade à poesia, em algum momento percebemos uma estranha e incontrolável alteração físico-psíquica, nossa percepção se intensifica, somos levados a uma outra dimensão. É o que chamamos de estado poético. Mas não é perigoso nem faz mal à saúde.

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Sá, Guarabyra & eu

Esta história começa em Passos, por volta de 1971-72. Não se trata de nostalgia; afinal, não sou tão velho assim. Muitos se lembram: o Brasil conquistara o tricampeonato mundial de futebol, e os Beatles haviam acabado de se separar. Minha turma assumira há pouco a diretoria da Upes (União Passense dos Estudantes Secundários, para quem não recorda), e o Colégio Imaculada Conceição dava fim à solidão das meninas, abrindo matrícula para estudantes do sexo masculino. É, parece que foi ontem.

Uma das diversões de minha turma era ouvir a Rádio Mundial do Rio. A programação nos deixava a par dos últimos lançamentos de música no mundo, e o programa do Big Boy ("Hello, crazy people!") era um capítulo à parte. Como em Passos a emissora só pegava à noite, entrávamos pelas madrugadas com o rádio ligado, na casa de alguém ou nos bancos da Praça da Matriz, discutindo literatura, namoros frustrados e outros temas vitais.

Foi quando a Mundial começou a tocar uma música estranha, que chamou minha atenção. Chamava-se "A primeira canção da estrada". O estoque da Biju Discos, única loja da cidade, era pequeno e ninguém conhecia a música nem o intérprete, que eu julgava ser um tal de Sá Rodrigues.

Em outubro de 1972, eu, Antônio Barreto, Marco Túlio e Paulo Régis jogamos as mochilas às costas e viajamos para Curitiba, onde aconteceria uma semana de arte estudantil. Lá passamos um frio de rachar, vivemos aventuras inesquecíveis, e eu desvendei o mistério da canção. Descobri, numa loja, "Passado, Presente e Futuro", primeiro LP do trio Sá, Rodrix & Guarabyra, que se tornou meu disco favorito.

Além daquela, o álbum desfilava canções fora do comum, num estilo que passou a ser conhecido como rock rural – uma mistura de nossa música de raiz com o rock que já conquistara adeptos pelo país afora. No serviço de alto-falantes da Upes, uma das músicas mais tocadas era desse LP: "Ama teu vizinho como a ti mesmo", trilha sonora de nossas brigas com a vizinhança, que reclamava do som com que animávamos a paquera de todas as noites na Praça da Matriz.

A "Primeira canção da estrada" tornou-se meu hino de vez quando me mudei para Belo Horizonte, por contar, literalmente, a minha história pessoal: "Eu tinha apenas 17 anos/ no dia em que saí de casa/ e não fazem mais de quatro semanas/ que estou na estrada/ mas encontrei tantas pessoas tristes/ desaprendendo como conversar/ que parece que estou carregando os pecados do mundo."

Depois do lançamento do segundo disco, Zé Rodrix debandou e o trio virou dupla. Sá e Guarabyra gravaram a "Segunda canção da estrada", que falava de coisas simples deixadas para trás: "um relógio velho, areia na varanda, lençol, travesseiro e colchão".

Ao longo desse tempo, lançaram canções antológicas, como "Sobradinho", "Dona", "Cheiro mineiro de flor", a recente "Estrangeira", entre muitas outras. Eles foram os primeiros artistas da MPB a abordar temas ecológicos. Ouvi-los é, até hoje, dirigir o olhar para lugares especiais e seus tipos humanos, é viajar por recantos que não temos tempo de visitar, levados por belas melodias, ritmo contagiante e letras criativas. Agora, preparam um novo CD, novamente em companhia de Zé Rodrix, que volta para recompor o trio.

Recentemente, passei a corresponder com Guarabyra pela internet. E, quase 30 anos depois de ouvi-los pela primeira vez na Rádio Mundial, pude finalmente me sentar com eles para tomar uma cerveja caprichada, depois de um show que fizeram em Brasília. Em seguida fomos jantar com os músicos da banda que os acompanhava.

Foi uma conversa ótima, uma noite que não dá para esquecer. Até porque o peixe que comi fez com que eu atravessasse a madrugada entre o quarto e o banheiro. Bem, não sei se foi o peixe ou a emoção.

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Tragédias em movimento

Antes de inventar a roda, os primeiros homens aprenderam a construir instrumentos como prolongamento do próprio corpo: o porrete, a alavanca, o machado. Dominaram o fogo e outras forças da natureza.

Desde então, tornamo-nos uma ameaça para o mundo. E para nossa própria espécie, pois, ao contrário de todas as outras, aprendemos a oprimir o semelhante. Nós, os animais racionais, os únicos dotados de inteligência, criaturas feitas à imagem e semelhança de Deus, e outros chavões com que descrevemos a nós mesmos.

Os 6 bilhões de seres humanos que, neste início de terceiro milênio, ocupam a face da terra vivem em conflito permanente e a grande maioria está submetida a uma terrível situação de opressão. Em todos os continentes, reina o mais absoluto caos nas relações entre os homens, entre os povos, e entre seres humanos e meio ambiente. A causa é sempre a mesma: a concentração de renda, terra e poder nas mãos de poucos, gerando miséria, preconceito, guerras, desorganização demográfica.

Esse quadro caótico é brilhantemente descrito pelas imagens do fotógrafo Sebastião Salgado, um mineiro cidadão do mundo que durante seis anos visitou mais de 40 países, registrando o movimento das populações. A exposição "Êxodos", composta de 300 fotografias em preto-e-branco, tem percorrido várias cidades e atualmente está em Brasília, mas também pode ser conhecida pelo livro do mesmo nome, editado pela Companhia das Letras.

"Êxodos" registra o processo de reorganização populacional pelo qual passa grande parte da humanidade. São milhões de pessoas que migram todos os dias, cruzando fronteiras, fugindo de guerras, da repressão política, da miséria, do ódio, da destruição ambiental, da violência.

As fotos de Sebastião Salgado mostram migrantes e refugiados legais e ilegais em todas as partes do mundo. Vietnamitas fugitivos do regime comunista são aprisionados em países vizinhos e passam anos em campos de refugiados. Crianças nascem e crescem em imensas prisões, como pássaros em gaiolas, sem jamais conhecer a liberdade. No Equador, camponesas abandonadas pelos maridos, que migram para áreas urbanas, desenvolvem plantios de alimentos em minúsculas porções de terra em meio às imensidões transformadas em pastos pelos grandes proprietários. Sérvios, croatas, albaneses, kosovares e outros povos de regiões permanentemente em conflito vão e voltam, em eterna fuga. Camponeses desalojados das terras cultiváveis concentradas nas mãos de uma minoria rica, pela mecanização da lavoura e pelo uso das terras como pasto, avançam sobre as favelas das grandes cidades, gerando desordem urbana e mais violência.

Uma parte dessa exposição é reservada para as crianças do êxodo. Meninos e meninas sem pátria olham para a câmera com expressões de sofrimento, incompreensão, tristeza, desesperança, raríssimos sorrisos, quase sempre um resquício de dignidade. Inocentes, são as maiores vítimas dos crimes que a humanidade comete contra si mesma. São crianças muito parecidas com aquelas que vemos todos os dias, nas grandes cidades brasileiras, cheirando cola, vigiando carros, vendendo balas nos cruzamentos, cometendo pequenos – e às vezes grandes – delitos.

Essa luta desesperada pela sobrevivência é talvez o principal movimento que homens e mulheres executam sobre o planeta, nestes tempos em que a Nasa se prepara para mandar naves tripuladas a Marte. Na Terra, a maior parte da população vive pior que os bichos.

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Adubo para a última flor do Lácio

Em Israel, um conselho de sábios recebe a atribuição de criar palavras em hebraico para significar novos inventos e todas as novidades que o linguajar tradicional não tem condições de exprimir. A língua é expressão e esteio de uma cultura; ela se forma com as manifestações, valores e comportamentos de um povo.

Estima-se que existem no mundo cerca de 6.700 línguas orais. Os lingüistas acreditam que, dentro de cem anos, restarão no máximo setecentas. As nações indígenas brasileiras comunicam-se em 180 idiomas diferentes, número bem inferior às 1.200 da época do descobrimento. Uma língua definha quando a cultura que ela representa entra em curso de extinção, um processo semelhante ao que ocorre na natureza, onde a destruição dos habitats leva à morte das espécies.

As línguas são organismos vivos; nascem, transformam-se e morrem com o tempo. Pouquíssimas sobrevivem há mais de dois mil anos, como o chinês, a mais falada do mundo, e o grego. O português, que evoluiu a partir do gálico, na região entre Portugal e Espanha, não corre, ainda, risco de extinção. Está entre as 10 mais faladas, segundo estudos do Summer Institute of Linguistics, dos Estados Unidos.

Mesmo sendo meio de expressão de grandes populações, o português não está difundindo no mundo novos conceitos ou idéias, como o inglês, que retrata as culturas economicamente dominantes. Estamos mais vulneráveis à invasão estrangeira, como acontece no Brasil muito mais que em Portugal. Aqui, fazemos operações bancárias em personal banking, vamos ao shopping center para aproveitar as sales, que oferecem 50 por cento off; almoçamos em restaurantes self-services, comemos um fast-food ou simplesmente pedimos uma pizza a um serviço de delivery. Nós, brasileiros, achamos que incorporar essas expressões do inglês é o máximo. Não é à toa que os argentinos nos chamam de macaquitos...

Pois o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) resolveu acabar com essa brincadeira de mau gosto de empresários, publicitários, jornalistas, economistas, autoridades e outros profissionais de mente curta. Seu projeto de lei 1.676/99, que visa a proteger a Língua Portuguesa da degradação a que está sendo submetida por estrangeirismos, foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados e agora será apreciado pelo Senado. Quando se tornar lei, o uso e defesa da língua portuguesa serão obrigatórios no trabalho, nas relações jurídicas, em todos os documentos e eventos públicos, nos meios de comunicação, nas embalagens dos produtos...

É louvável, porque essa bela língua tem sido agredida e vilipendiada pelas elites econômicas, pouco afeita à defesa de nossos valores. O projeto despertou polêmica. Há escritores que são contra, por entender que o poder público não deve se meter nesse assunto, e alguns jornais, como a Folha de S. Paulo, que para posar de moderninho costuma adotar termos em inglês, como o próprio nome de seu caderno para adolescentes, a Folha Teen, que poderia muito bem se chamar Folha Jovem.

Em nosso tempo, as distâncias são cada vez mais curtas. Dominar o inglês, a língua de comunicação universal, é importante, até mesmo uma questão de sobrevivência profissional. Mas a língua portuguesa é expressão de nossos valores e costumes. Além de defendê-los, a lei com certeza nos tornará mais civilizados, porque estimulará a curiosidade por nossa própria cultura. Também nos forçará a pensar e estudar um pouco mais, porque não poderemos sucumbir ao vício e ao comodismo de usar um termo estrangeiro no momento de exprimir uma idéia. Dessa forma, conheceremos um pouco mais a fundo os encantos e mistérios da língua portuguesa, e também a nós mesmos.

 

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O mito da ilha deserta

Para grande parcela do povo brasileiro, o governo federal é uma espécie de Monte Olimpo, onde vivem deuses providos de poder ilimitado. Mesmo que eventualmente se enfureçam com os raios e tempestades lançados pelas divindades, os brasileiros confiam na boa índole daqueles que os guiam. Supondo que o governo é capaz de atender a pedidos individuais, solicitam emprego, dinheiro, presentes.

Sérgio (vou chamá-lo assim, pois não estou autorizado a revelar sua identidade), um brasileiro de 29 anos, encaminhou a um ministério uma correspondência incomum. Ele quer, em resumo, apenas solidão.

Tive acesso à sua carta, datada de julho de 1999. Não sei se obteve o que buscava, nem o que aconteceu a ele. Mas nunca me esqueci daquele texto patético, em que o rapaz quase implora por algo que é quase nada, apenas para alcançar seu objetivo de se isolar do mundo. "Imagino que por este Brasil imenso existam alguns lugares que pessoas com a minha necessidade de paz e sossego poderiam ser imensamente úteis, simplesmente por estar lá (...), como por exemplo uma ilha oceânica situada em local tão distante..."

O sonho de Sérgio é viver isolado, para que possa ler, "sem pressa, cobrança ou interrupções", o maior número possível de livros, tais como a coleção "Os Pensadores", dicionários etimológicos, livros de ciências, e também para escrever. Segundo ele, essa vida seria melhor do que ganhar na sena acumulada. Para obter isso, apelou ao governo, imaginando que são raros os indivíduos que se dispõem a se empregar em localidades desertas e isoladas.

O conhecimento é, de fato, a maior riqueza que podemos almejar em nossa passagem por este mundo. Consciente disso, Sérgio não cobra caro por sua disposição de viver em local "solitário e tedioso". Ao contrário, pede apenas conforto básico, como um alojamento, um salário condizente com trabalho simples, a certeza de que os víveres chegariam no devido tempo e a permissão para levar livros.

Esse conhecimento, gerado ao longo dos milênios, ao qual Sérgio decidiu dedicar a vida, está contido em zilhões de livros distribuídos nas bibliotecas do mundo. Entre seus frutos, há razões para nos orgulharmos, e também para vergonha. O desenvolvimento científico permitiu viagens à lua, a cura para inúmeras doenças, mas também gerou a bomba atômica. Em uma ou duas décadas o homem poderá desvendar todo o segredo da vida, contido no mapa genético. E, no entanto, não consegue impedir que milhões de pessoas morram de fome. A civilização gerou riqueza e miséria, conforto e destruição, soluções e problemas. Traz em sua essência as próprias contradições humanas.

Sérgio quer encontrar o Santo Graal, atingir o Nirvana. Ao mesmo tempo, para mergulhar de cabeça na sabedoria, quer afastar-se do mundo e da civilização, razão e conseqüência do desenvolvimento. O que Sérgio fará com a sabedoria que alcançar, isolado numa ilha deserta? Ele também pretende escrever, mas escrever para quem?

Pequena parcela da população mundial usufrui dos benefícios do conhecimento. No entanto, também pequena parcela está interessada nesse conhecimento. Estamos trocando os livros pela televisão, a leitura pela navegação na internet, a sabedoria pela informação, a arte pelo entretenimento.

A iniciativa desesperada de Sérgio é uma reação contra essa criatura que tem nas mãos um mundo fascinante, mas despreza a ferramenta que lhe dá poderes quase infinitos para resolver seus mais complexos problemas. É um paradoxo, em meio a tantos outros.

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Magias da propaganda

Diz um antigo adágio que a propaganda é a alma do negócio. Esse ditado vem de uma época em que muitas fábricas eram artesanais, alguns produtos eram cercados de uma aura quase mágica e a publicidade era planejada de forma instintiva, geralmente pelos próprios fabricantes. Hoje vivemos a era do marketing, quando a marca chega a ser mais importante que o próprio lucro. Há empresas especializadas em fixar a imagem de produtos, empresas e até pessoas, e algumas movimentam milhões de dólares.

O capitalismo, tanto no mundo desenvolvido quanto no nosso, se agigantou. Com a multiplicação da concorrência, a guerra do marketing e da propaganda tornou-se um jogo de vida ou morte. Folheando revistas ou assistindo televisão, percebemos que o número de marcas que se oferecem ao nosso olhar são incontáveis, e elas travam uma guerra surda para que nos lembremos delas. Uma outra máxima da comunicação informa que o cérebro humano memoriza no máximo sete produtos que a mídia lhe apresenta. O que explica o esforço dos publicitários para fazer anúncios cada vez mais criativos.

E no entanto, nossa memória afetiva é capaz de manter vivos, ao longo de décadas, produtos relacionados a nossa infância ou adolescência, nem sempre por suas virtudes, mas pelo vínculo a situações ou pessoas inesquecíveis. A Maizena, o polvilho Granado, a pomada Minâncora, as pastilhas Valda são produtos consolidados de tal forma que sua propaganda é a própria imagem.

A Editora do Senac do Rio de Janeiro publicou recentemente um livro sobre esses produtos que atravessam gerações, mesmo desprovidos da imagem de modernidade. "Marcas de Valor no Mercado Brasileiro", escrito pela jornalista Anna Regina Accioly, o publicitário Lula Vieira, o desenhista Joaquim Marçal de Andrade e o professor universitário Rafael Cardoso Denis, conta essa história, com belas ilustrações.

Para nós, passenses, esse livro tem um sabor especial, porque a primeira das 21 marcas abordadas é a manteiga Aviação, "registrada a 20 de setembro de 1920 na cidade mineira de Passos". Meu avô, Chico Gomes, trabalhou vários anos no escritório da fábrica, que funcionava no Largo da Estação. Desde então, o rótulo da manteiga sofreu apenas uma pequena alteração, ainda na década de 40. Mas a embalagem continua a mesma, uma latinha de 250 gramas que dispensa refrigeração, embora hoje quase todas as casas disponham de geladeira.

A Aviação é fabricada atualmente em São Sebastião do Paraíso. Essa história me inspirou, há algum tempo, a fazer uma brincadeira com um paraisense que conheci em São Paulo. Depois de ouvi-lo elogiar a manteiga, eu lhe disse, movido pela rivalidade entre as duas cidades, que os paraisenses haviam invadido a fábrica de Passos e roubado sua fórmula secreta, e por isso respondiam a um processo na Justiça.

A minha tia Lourdes, indiferente a seus gloriosos 85 anos, costura até hoje numa máquina Singer, que também está no livro. Os pesquisadores optaram por abordar apenas marcas ainda no mercado, deixando de fora produtos que fizeram parte da minha infância, como os dropes Dulcora, a camisa Volta ao Mundo e o automóvel Renault Gordini, meu sonho de consumo aos nove anos.

Enquanto eu o folheava, esse livro me trouxe à lembrança uma infinidade de marcas que, na inocência da infância, possuíam um significado quase mágico, muito mais profundo que o de meros fetiches do capitalismo, como vejo hoje os produtos que travam batalha selvagem para conquistar minha atenção de consumidor.

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Um herói nacional

O que acontece hoje, nas praças do Brasil, em comemoração a este dia especial? Estamos no século XXI, as informações circulam a alta velocidade, mas o mundo não é menos injusto do que era em 1847. Naquele ano, a 14 de março, nascia um herói nacional: o poeta Castro Alves.

Sim, um herói, porque foi um homem extraordinário por sua grandeza de alma e seus feitos. Morreu aos 24 anos, e enquanto viveu, manejou as palavras com a destreza de um guerreiro, no papel e por meio de declamações apaixonadas, que faziam delirar multidões.

Ninguém melhor do que Castro Alves para definir o Dia Nacional da Poesia, comemorado hoje. Um dos principais nomes do romantismo, marcou a presença da poesia no espaço público, bradando versos compromissados com a justiça social e a solidariedade humana. Aos 21 anos, já havia escrito algumas das mais belas páginas da literatura brasileira, entre as quais "O Navio Negreiro":

"Senhor Deus dos desgraçados!/ dizei-me vós, senhor Deus!/ Se é loucura... se é verdade/ Tanto horror perante os céus?!/ Ó mar, por que não apagas/ Co’a esponja de tuas vagas/ De teu manto este borrão?.../ Astros! Noites! Tempestades!/ Rolai das imensidades!/ Varrei os mares, tufão!"

A vida, para Castro Alves, veio e se foi em alta velocidade, e ele soube impor o mesmo ritmo à sua mente inquieta, obedecer à sensibilidade de menino sonhador. Nascido numa fazenda no interior da Bahia, desde cedo conviveu com a tragédia: perdeu a mãe aos 12 anos, e aos 16 sentiu os primeiros sintomas da tuberculose que o levaria à morte. Um ano depois, em 1864, seu irmão José Antônio suicidou-se, vítima de misteriosa perturbação mental. E em 1866, já estudante de Direito no Recife, viu morrer o pai, durante as férias em Salvador.

Castro Alves viveu um dos períodos mais efervescentes do Segundo Império. Com seus versos, manifestou-se sobre a Guerra do Paraguai, o movimento pela República e especialmente a campanha abolicionista. Fez enorme sucesso declamando em teatros e praças. Em 1868, da sacada do Diário do Rio de Janeiro, apresentou o poema "Pesadelo de Humaitá", sobre a Guerra do Paraguai, a uma multidão que o aplaudiu calorosamente.

Nesse ano, acompanhado da atriz portuguesa Eugénia Câmara, que conquistou graças ao porte sedutor e à veia poética, mudou-se para São Paulo, com a intenção de prosseguir os estudos. Mas foi a poesia, os ideais políticos e a agitação acadêmica que o atraíram. Ainda nesse ano, fez a primeira apresentação pública de "O Navio Negreiro".

Foram dias gloriosos. Mas, em novembro, sofreu grave acidente numa caçada, disparando um tiro no pé, que acabou provocando a amputação. Desde então, sua saúde piorou, o romance com Eugénia chegou ao fim, e Castro Alves viveu períodos dramáticos, tendo a poesia como fiel companheira. Em 1870, um ano antes de morrer, lançou seu único livro editado em vida, "Espumas Flutuantes".

Castro Alves previu a glória e a morte precoce. O poema "Mocidade e Morte", que escreveu aos 17 anos, prenunciava: "Eu sinto em mim o borbulhar do gênio./ Vejo além um futuro radiante:/ Avante! – brada-me o talento n’alma/ E o eco longe me repete – Avante!/ (...)/ E a mesma voz repete funerária: –/ Teu Panteon – a pedra mortuária!"

Nestes tempos em que o glamour da televisão impõe sua verdade vazia a um público absolutamente incapaz de pensar, quando a indústria do entretenimento avança sobre as artes e destrói nossa capacidade de reflexão, é recomendável recordar Castro Alves. Reler seus poemas é um ato mágico. É como se aquela voz, que há mais de 150 anos encantou as multidões, continuasse vibrando no ar, à espera de quem souber ouvir.

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Já leu seu livro hoje?

A Biblioteca de Alexandria, onde se armazenara todo o saber da Antigüidade, foi totalmente destruída pelos conquistadores árabes em 391 d.C. Eles entendiam que, se o livro sagrado do islamismo, o Corão, continha toda a Verdade, os 700 mil volumes da Biblioteca eram inúteis. Estima-se que alguns conhecimentos perdidos em conseqüência desse ato de barbárie nunca mais foram recuperados.

Os muçulmanos, que estão prestes a destruir outro grande tesouro da humanidade – os budas gigantes do Afeganistão – não foram os únicos a contribuir para a ignorância, a estupidez e o atraso. A Igreja foi pródiga em mandar para a fogueira pessoas cujo maior pecado era pensar à frente de seu tempo. Os nazistas fizeram fogueiras imensas com livros.

Os governos autoritários tremem de medo de livros. A ditadura militar que subjugou o Brasil a partir de 1964 cansou-se de proibi-los. Para os ditadores, a informação e o conhecimento são ameaças constantes, porque abrem caminho para a reflexão, o discernimento e a liberdade.

O crítico literário norte-americano Harold Bloom costuma dizer que os meios de comunicação podem nos fornecer informação imediata, porém só o convívio com os livros nos torna mais sábios. Os modernos veículos de comunicação, televisão à frente, adotam uma linguagem eminentemente visual, o que torna o cérebro preguiçoso. O hábito da leitura desenvolve a capacidade de reflexão e raciocínio, exercita a mente e fortalece a memória.

Um indivíduo alfabetizado, que viveu um processo educacional saudável, chega à vida adulta preparado para ler e entender desde breves recados até manuais, relatórios, romances, poemas, ensaios ou compêndios. O desenvolvimento mental que o capacita para isso é a leitura literária, cujo principal componente é o prazer. A difusão dessa capacidade na população está diretamente relacionada com o grau de desenvolvimento de um país, e daqui para a frente será condição essencial.

O Brasil foi um dos últimos países a ter imprensa. Até pouco mais de 250 anos atrás, o estabelecimento de oficinas de impressão era proibido e a importação de livros rigorosamente controlada pela Coroa Portuguesa. Hoje, o Brasil possui 2008 livrarias para seus 170 milhões de habitantes, média de uma para cada 84,4 mil pessoas, quando, de acordo com a Unesco, o ideal seria uma para cada 10 mil pessoas. Essa pobreza faz com que cada brasileiro leia, em média, 2,5 livros por ano (se excluirmos os didáticos, não serão mais de 0,9 livro/ano). Enquanto isso, os norte-americanos lêem 7 livros por ano. Nos países nórdicos a média é de 15 livros.

Pelo menos metade da população das nações mais desenvolvidas do planeta é letrada. De acordo com uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 1997, cerca de 123 milhões de norte-americanos (quase metade da população) leram, naquele ano, peças de teatro, romances, contos e poesia. Esses dados elevam a leitura literária à condição de mais difundida atividade cultural do país.

Não é preciso muita ginástica mental para perceber que um país onde não se desenvolve a leitura está fadado ao subdesenvolvimento, um monstro que se alimenta de si mesmo, porque o analfabetismo e o baixo nível educacional são frutos do subdesenvolvimento.

Lembre-se disso hoje, quando levar seu filho para a cama. Antes que durma, leia para ele algumas páginas de um bom livro. De acordo com os especialistas, este é o primeiro passo para despertar na criança o gosto pela leitura. É possível que essa seja a maior herança que os pais lhe deixem.

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