Primeira seleção de crônicas, todas publicadas na imprensa
A Justiça não sabe
matemática
14/11/2001
E por que não
uma feira de livros?
07/11/2001
Do fundo do
abismo
31/10/2001
O caçador de palavras
24/10/2001
Salve-se quem puder!
17/10/2001
Deus e o diabo na alma do
homem
10/10/2001
Imperialistas
e fanáticos
26/09/2001
Algumas
considerações sobre a insanidade
19/09/2001
Eternamente
jovem
12/09/2001
Chorar adianta
05/09/2001
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Na semana passada, dois acontecimentos nos levaram a refletir sobre a Justiça no Brasil. Um trouxe alento, outro frustração. No último sábado, o País ouviu a juíza Sandra de Santis proferir a sentença de condenação dos assassinos do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos. Max Rogério Alves, Tomás Oliveira de Almeida, Eron Chaves de Oliveira e Antônio Novély Cardoso de Vilanova, todos na faixa dos 23 anos, foram condenados a 14 anos de prisão em regime fechado, pelo crime de homicídio triplamente qualificado. O Código Penal brasileiro e leis complementares permitirão que, na prática, eles fiquem presos por mais três anos. Em 2004, já livres, poderão passar o Natal em casa. Vivos. Já o índio Galdino não terá outra chance. Permanecerá morto, desde que, em 1997, “os meninos”, como se referia a eles a juíza Sandra de Santis, declarada amiga de suas famílias, jogaram dois litros de álcool sobre seu corpo e atearam fogo, enquanto ele dormia, numa parada de ônibus de Brasília. Descobertos, graças a testemunhas que anotaram a placa do carro que usavam, eles declararam à polícia que atearam fogo no índio porque julgaram que fosse um mendigo. É difícil imaginar tamanho desprezo pelo ser humano, ou mesmo por um ser vivo – ou o caro leitor se disporia a atear fogo a um cachorro, só porque o animal está dormindo? O que há em comum entre esses quatro criminosos e o ex-ator Guilherme de Pádua, o outro personagem da semana? Guilherme, com a colaboração de sua ex-mulher Paula Thomaz, matou com 18 facadas a atriz Daniela Perez, em dezembro de 1992. Foi um crime premeditado, cuidadosamente planejado. Réu confesso, Guilherme foi condenado em 1997 a 19 anos de prisão, pena depois reduzida para 14 anos. Na semana passada, menos de nove anos depois do assassinato, ele obteve na Justiça de Minas Gerais um parecer que recomenda à Vara de Execuções Criminais a extinção de sua pena. Se essa recomendação for seguida, Guilherme poderá até mesmo processar a quem chamá-lo de criminoso. Como se vê, além de cega, a Justiça brasileira é absolutamente analfabeta em matemática. Mas eles têm algo mais em comum. No caso deles, não vale aquela máxima de que um criminoso deve ir para a prisão e depois ser reintegrado à sociedade. Max, Tomás, Eron e Antônio, este filho do juiz Novély Vilanova da Silva Reis, da 7.ª Vara Federal de Brasília, assim como Guilherme de Pádua, eram pessoas absolutamente integradas à sociedade quando cometeram seus crimes. Guilherme era ator da principal rede de televisão do Brasil, uma estrela em ascensão; os demais eram jovens de classe média alta, estudavam nos melhores colégios, tinham dinheiro para se divertir. Reintegração à sociedade para quê? Para cometer novos crimes? É preciso repensar essa Justiça que indulta autores de crimes hediondos; dá a liberdade a qualquer pessoa de cometer ao menos um crime na vida – o chamado réu primário; reduz a pena de criminosos graças a uma série de benefícios em cascata; não aproveita, ou aproveita pouco, a força de trabalho nos presídios, que se tornam escolas de crimes, e livra da cadeia os criminosos de classes sociais elevadas. Os quatro assassinos de Galdino foram condenados, mas são exceção a esta última regra. Talvez nem tanto: onde estão presos, eles são os únicos com direito a chuveiro quente e colchão macio.
E por que não uma Feira de Livros? O mundo inteiro realiza feiras de livros, quase sempre tendo como principal finalidade a divulgação do livro como objeto de consumo e o estímulo à leitura. Por que seria diferente no Brasil? Neste mês de novembro, há previsão de pelo menos quatro feiras, em diversos pontos do país, segundo levantamento da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), principais entidades do setor. Em Bauru (SP), começou no sábado passado e prossegue até o próximo domingo, promoção conjunta da Prefeitura Municipal, Secretaria Estadual da Educação e outros órgãos. O governo de São Paulo já tem pronta uma agenda que prevê pelo menos seis feras por ano, em várias cidades do interior. Em setembro, Ribeirão Preto realizou a sua feira, e neste mês acontecerão, ainda, o Salão do Livro Infantil e Juvenil, no Rio de Janeiro, e a I Bienal Nordestina do Livro, em João Pessoa, na Paraíba. Entre agosto e outubro, houve feiras de livros em Brasília, Florianópolis, Salvador, Belém, Recife, Palmas, Porto Alegre, Campanha (MG), Curitiba, Uberlândia (MG). E nessa relação não estão citadas as principais feiras do país, as bienais do Rio de Janeiro e São Paulo. Como se vê pelos exemplos mineiros, não se trata de um evento viável apenas nas capitais. Pelo contrário. As feiras de livros deveriam se expandir pelo interior brasileiro como uma epidemia, que isso faria muito bem à nossa saúde cultural. De acordo com levantamento realizado pela CBL no ano passado, apenas 600 dos 6 mil municípios brasileiros possuem livrarias autênticas. Outro problema sério é que o país também é paupérrimo em bibliotecas. Dos 329 milhões de exemplares vendidos no ano passado, somente 1 milhão foi comprado pelas bibliotecas públicas. O governo não tem orçamento suficiente para comprar livros; as bibliotecas, muito menos; as editoras poderiam fazer doações, mas não o fazem porque identificam nas bibliotecas um mercado potencial. Sem livrarias ou bibliotecas, a saída poderia estar na lucidez de prefeituras e governos estaduais, que se unissem para realizar feiras anuais itinerantes. Com objetivos mais culturais que comerciais, especialmente o de assegurar ao leitor de cidades médias e pequenas o livro que nem sempre lhe chega às mãos, e levando também alguns autores, que teriam com o público um contato proveitoso para ambos. Um dos mais impressionantes eventos desse tipo de que se tem notícia no Brasil ocorre em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Lá, 10 mil pessoas se reuniram sob lonas de circo, durante quatro dias, em agosto último, para discutir literatura e assuntos pertinentes – e não para circular entre estandes e comprar livros, num impulso consumista. A Jornada de Literatura de Passo Fundo ocorre há 20 anos. Nesse período, a cidade, que possuía apenas uma livraria, ganhou outras sete, além de grupos de teatro e dois museus. Promoções desse tipo podem ensinar aos brasileiros um dos grandes prazeres da vida, o de exercitar a imaginação nas páginas de um livro. Pesquisa recente realizada pelo SNEL revelou que 14% dos brasileiros não lêem (nem jornais ou revistas) e desses iletrados 39% alegam “falta de tempo” para a leitura. Bem, provavelmente essas pessoas concedem no mínimo três horas de sua vida, todos os dias, ao lixo televisivo – Ratinho, Sílvio Santos, Faustão, telenovelas etc... Já dizia Monteiro Lobato: um país se faz com homens e livros. Continua sendo assim. Conheci o escritor Oswaldo França Júnior em abril de 1989, a dois meses de sua morte na rodovia entre João Monlevade e Belo Horizonte, aos 52 anos. Publicou 13 livros, e o que seria o décimo quarto, que permanece inédito até hoje, foi entregue à editora 15 dias antes do acidente que lhe tirou a vida. França, como os amigos o conheciam, não era exatamente um best-seller, mas possuía leitores fiéis, no Brasil e outros países. Nascido em 1936 na cidade do Serro, em Minas, França Júnior sonhava em ser aviador, o que realizou a partir dos 18 anos, quando tornou-se oficial da Aeronáutica. A partir do momento em que, ainda adolescente, se trancou em casa para estudar para as provas da Escola de Cadetes do Ar de Barbacena, sua vida foi cheia de turbulências. Até que, em 1964, já na ditadura militar, foi acusado de subversão, expulso da Aeronáutica e proibido de pilotar. Para sobreviver, tentou várias atividades, uma delas a de escritor. A paixão pela literatura era, até então, fantasiosa, quase secreta. Mas, ao começar, não conseguiu parar mais. Ao mesmo tempo que escrevia, virava-se com uma frota de táxis, uma banca de jornais ou vendendo imóveis. Aos poucos, porém, se estabilizou. Ao morrer, estava no auge da carreira. Seu romance “Jorge, um Brasileiro”, depois de dar origem à série “Carga Pesada”, da Rede Globo, foi transformado em filme, sob direção de Paulo Thiago e com Carlos Alberto Riccelli no papel principal. Seus dois últimos livros, “As Laranjas Iguais” (contos, 1985) e “No Fundo das Águas” (romance, 1987) são obras maduras, sensíveis, reveladoras. “No Fundo das Águas” me tocou especialmente por contar a tragédia de uma cidade coberta pelas águas de uma represa. Lembrava-me histórias que eu ouvia na infância, em Passos. Em abril de 1989, repórter do Correio Braziliense, viajei a Belo Horizonte para entrevistá-lo. França era uma pessoa cativante, conversa boa, que se prolongou longo tempo além da entrevista. Antes de me despedir, contei-lhe que preparava um livro, e ele demonstrou interesse em ler meus contos. Prometi-lhe que em breve lhe enviaria alguns, mas não tive tempo de fazê-lo. No dia 18 de junho, ainda incrédulo, publiquei no jornal o necrológio do França. Ele morreu quando voltava de João Monlevade, a 120 quilômetros de Belo Horizonte, depois de uma noite de autógrafos, a convite da Livraria República Literária. O carro que dirigia derrapou no asfalto molhado, capotou e caiu num abismo. A morte foi um choque para a cidade, especialmente as duas proprietárias da livraria, Jacqueline Fernandes e Nádia Rodrigues. Um ano depois, ainda consternadas, elas conseguiram apoio da Prefeitura para realizar um concurso de contos que levou o nome de Oswaldo França Júnior, uma espécie de homenagem possível. Tomei conhecimento do concurso e para lá enviei os três contos que pretendia mostrar ao escritor. Por uma dessas coincidências da vida, um desses contos, “A Construção da Memória”, venceu o concurso. Os prêmios foram entregues durante bela solenidade, quando tanto o público que lotava o auditório quanto os promotores do concurso pareciam tentar se redimir pela fatalidade. Ao subir ao palco, falei sobre meu encontro com França e do significado do prêmio – era como se, naquele momento, França estivesse finalmente lendo meus textos. Muita gente chorava durante a solenidade. Hoje, 11 anos depois, será que alguém se lembra? Seus livros nunca mais foram reeditados no Brasil. Espero que alguém resgate o França do fundo daquele abismo. Era um caçador de palavras. Gostava de identificá-las, observá-las, anotar-lhes o significado, classificá-las, assim como fazem os biólogos com plantas e insetos, os arqueólogos e etnólogos com seus achados. Era um senhor de longos cabelos brancos, óculos de lentes grossas, olhos misteriosos e mãos machucadas pela arte de uma vida inteira a lidar com as palavras. Dizia que eram criaturas sem peso e medida, dotadas de força descomunal e ao mesmo tempo gentis e dóceis, desde que se soubesse com elas conviver. Caçava palavras desde antes de compreendê-las, talvez antes mesmo de aprender a pronunciá-las, e no entanto as sabia infinitas; brotavam das consciências, dos espíritos e dos corações como água da fonte, e se espalhavam pelo mundo, como o ar, como o próprio pensamento que lhes servia de veículo e alimento. Outras, discretas, faziam-se secretas, adormecidas, fósseis, hibernavam durante séculos em certa mastaba silenciosa, para repentinamente ressurgirem se invocadas. E a ele, caçador de palavras, só restava cultuar o dom de percebê-las, no ofício sempre renovado de entender-lhes o significado. Guardava-as, em sua forma abstrata, carântulas, em protegidos recantos da mente, até que fossem invocadas para defender novas idéias, e entre as quatro paredes de sua biblioteca, onde se faziam revolucionárias, organizando-se em grupos, guerreiras, portadoras de verdades e histórias. E nessa busca de caçá-las, eventualmente era surpreendido por uma ou outra ainda mais poderosa, aquelas em cuja sonoridade energias desconhecidas da terra haviam se concentrado. Em certo livro adquirido num sebo, muitos anos atrás, ele encontrou a palavra “abracadabra”, que corresponde a uma fórmula mágica usada para captar as energias do alto, harmonizando o homem com as leis que regem o mundo e dando-lhe proteção. Depois de longos estudos, concluiu que a magia dessa palavra era comum a muitas outras, também capazes de harmonizar o homem com as leis do mundo ou, ao contrário, colocá-lo em choque com elas. Descobriu a palavra “música”, tida por filósofos da Antiguidade como elemento de harmonia entre os números e o cosmos, capaz de associar os seres humanos à plenitude da vida cósmica, levando-os ao encontro do divino. Os números exprimem não apenas quantidades, mas idéias e forças, contando com personalidade própria. O filósofo Platão considerava a interpretação dos números o mais alto grau de conhecimento. A partir do poder dos números e da música, criou ritmos para sua coleção de palavras mágicas, inventando o elixir que lhes dava vida, e dessa forma fez-se a poesia, linguagem de sons e imagens que alcança de forma sintética a mais profunda expressão humana. Pensou que houvesse se tornado assim um homem sério, até perceber que na verdade se livrara do peso da sisudez, das fórmulas e das regras, atingindo o nirvana da ludicidade, um paraíso onde enfim tudo era dotado de lógica própria, ao mesmo tempo que se zombava da lógica rasteira do pragmatismo mercantilista. Este é o poder das metáforas, que as máquinas não conhecem e só podem ser entendidas nos sonhos. O caçador de palavras, sentado na sarjeta do mundo, observa o vocabulário que voa ao redor de mentes e corações e prepara-se – é o momento de libertá-las. Pirenópolis é uma cidade colonial goiana, tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional em 1989, em virtude de sua riqueza arquitetônica e cultural. A 150 quilômetros de Brasília e 120 de Goiânia, tem 20 mil habitantes, dos quais 15 mil na área urbana. Nascida de um pequeno arraial minerador do século XVIII, nos pés da Serra dos Pireneus e cercada de rios e belas cachoeiras, Pirenópolis abriu-se para o turismo nos últimos 15 anos. Foi um processo natural, gradual e indolor: os turistas chegando aos poucos, a cidade oferecendo cada vez mais atrativos, o povo se habituando àquela gente estranha, numa convivência harmoniosa. Foi assim até o primeiro semestre deste ano, quando lá chegou uma equipe da Rede Globo para filmar a novela Estrela Guia. Pirenópolis oferece turismo rústico, ecológico, o contato com a vida simples do interior e com a natureza exuberante de seus arredores. Nada de luxo. Por isso, fazer turismo na cidade significa andar a pé no centro e enfrentar estradas de terra, às vezes esburacadas, até as cachoeiras, principal atrativo da região. Um banho de cachoeira vale uma caminhada no meio do mato, com direito a ouvir o canto dos pássaros, observar flores do cerrado, conviver com as criaturas da natureza. Alguns fazendeiros acrescentaram o turismo às atividades econômicas tradicionais, abrindo suas propriedades aos forasteiros. Não se arrependeram, pois o retorno financeiro é alto, desde que sejam tomados alguns cuidados para impedir acidentes ou agressões ao meio ambiente – por exemplo, a distribuição de sacos de lixo, para que ninguém polua a área, e o controle dos visitantes mais afoitos. A prefeitura faz a sua parte. Passou a oferecer isenções ou descontos em impostos aos proprietários que mantivessem suas casas fiéis ao estilo original. O resultado não demorou a aparecer, na forma de casas típicas, com belas fachadas, e casarões históricos bem conservados. A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, mais antiga de Goiás, construída entre 1728 e 1732, permanece imponente. Sua restauração consumiu R$ 875 mil, oferecidos pela antiga Telebrás, via Ministério da Cultura, com a interferência direta do falecido ministro das Comunicações Sérgio Mota, que freqüentemente visitava a cidade, na companhia de outras estrelas do governo, como o atual ministro do Desenvolvimento, Sérgio Amaral, e até o presidente Fernando Henrique. Esses políticos sempre passaram por Pirenópolis com discrição e nunca fizeram mal à cidade. O mesmo não se pode dizer da “cantora” e “atriz” Sandy e do séqüito da Rede Globo, que atraíram a Pirenópolis uma horda de visitantes que nada têm a fazer lá, a não ser deixar-se fotografar nas mesmas cachoeiras vistas na novela. São jovens agressivos, que levam toda a neurose dos grandes centros urbanos para esse pequeno paraíso. Aumentam o volume do som de seus carrões quando cruzam com um grupo de congadeiros pelas ruas; fazem barulho e sujam a cidade; jogam lixo nos rios e cachoeiras, e não proporcionam lucros aos comerciantes, porque já trazem de casa tudo o que consomem. Agem da mesma forma que a “atriz”, substituída por uma dublê nas cenas em que tomava banho de cachoeira, por não suportar a água fria... Cidades como Pirenópolis, que existem aos montes pelo interior do Brasil, muitas delas ainda intocadas, têm muito a oferecer aos turistas. No entanto, sua harmonia é tênue, e a presença de forasteiros é sempre uma ameaça. Quando vêm em bando, empurrados pela televisão, salve-se quem puder! Deus e o Diabo na alma do homem O ser humano possui habilidades que o surpreendem. Ao longo de um período relativamente curto de civilização, construiu obras quase inimagináveis, em todos os campos de atividade. Além de escrever a história de seu trajeto sobre a terra, vai deixando sinais de sua passagem para que as gerações seguintes, às vezes muito distantes, possam admirar sua própria espécie. A arquitetura está cheia de exemplos dessa grandeza. O mesmo se pode dizer da literatura, da música, das artes plásticas. No entanto, os homens também carregam dentro de si o germe da destruição. A história humana é a história dos conflitos, das guerras, dos massacres. Os muçulmanos destruíram a biblioteca de Alexandria porque supunham que seu livro sagrado, o Corão, era suficiente para conter toda a verdade, e tudo o mais era mentira. Foi perdida, assim, uma parte da cultura que jamais voltará a ser conhecida. Os mesmos muçulmanos, ou melhor, sua facção mais radical, os talebans, destruíram os impressionantes budas gigantes do Afeganistão, por considerá-los profanos. O fundamentalismo islâmico, que tomou o poder no Afeganistão e agora enfrenta a fúria dos norte-americanos e a forte oposição da Aliança do Norte, também ameaça outros países. No Egito, o governo é combatido por radicais religiosos que seguem a mesma cartilha dos talebans. Se tomarem o poder, bombardearão as pirâmides e a esfinge pelas mesmas razões que os afegãos explodiram os budas gigantes. Será mais um pedaço de história da humanidade que irá pelos ares. A sede de destruir não é privilégio dos muçulmanos. Ao chegar às Américas, no século XV, os europeus arrasaram culturas inteiras desenvolvidas aqui no hemisfério sul por civilizações que nada deviam à européia, como os incas, na América do Sul, os maias, na América Central, e os astecas, no México. Os nazistas pretendiam destruir as raças consideradas impuras – ou seja, todas que não fossem a branca – e a cultura que as lembrasse. Em todas as guerras, a capacidade destrutiva do homem põe abaixo não apenas vidas humanas, como também todo o produto de seu esforço, de seu engenho e de sua arte. A história se escreve não apenas com sangue e tinta, como também com pedras, cimento e tijolos, letras e frases, sons, técnicas, pensamentos. Alguns povos não têm a preocupação de preservá-la, e por isso a destroem. Templos religiosos são fortes símbolos de uma cultura, porque são ambientes de meditação e reflexão; concentram o que o povo tem de mais íntimo, a sua fé religiosa, e de mais forte, a sua capacidade de erigir um monumento a um ser abstrato; no entanto, quantas igrejas e capelas não foram destruídas simplesmente para desocupar espaços? O ser humano inventou as divindades, e em nome delas constrói obras de arte e promove destruição em massa. Atribui a seus deuses a misericórdia, e faz-se intolerante e impiedoso. Aproxima-se da divindade pela sua capacidade de criar, mas dá as mãos ao demônio e diverte-se destruindo, odiando, alienando-se. A capacidade destrutiva que o homem acumulou, durante alguns séculos de civilização, o tornou responsável por um tênue equilíbrio do qual depende a sobrevivência do planeta e a sua própria. Manter esse equilíbrio é preservar a própria vida, e a cada susto refazemos a nossa crença em nossa capacidade de sobreviver. Os homens desenvolveram suas habilidades, seu conhecimento e sua inteligência, mas sobreviver nestes tempos de alta tecnologia é algo tão incerto quanto nos tempos em que viviam em cavernas. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, deve ter perdido muitas noites de sono tentando entender o que teria imunizado os terroristas suicidas contra a sedução do “american way of life”. Como as investigações do FBI levam a crer, os fanáticos que seqüestraram os aviões e os arremessaram contra o World Trade Center e o Pentágono viveram durante alguns anos no país, o que, pela lógica norte-americana, seria tempo suficiente para que qualquer estrangeiro “descobrisse” que os Estados Unidos são o melhor dos mundos e a prosperidade capitalista o passaporte para o paraíso. Acontece que o islamismo não é sinônimo de terrorismo, e vice-versa; e o fanatismo, religioso ou não, acaba levando a práticas infernais. Já não importa reunir provas contundentes de que os atentados contra os Estados Unidos foram atos de fundamentalistas islâmicos. O que se evidencia é que o mundo está novamente dividido em dois – os ocidentais de um lado, os muçulmanos de outro – e essa guerra não é tão fria quanto a anterior. O imperialismo ianque luta há mais de um século para impor ao mundo os dogmas, a cultura, a lei e a ordem norte-americanas, e não consegue perceber, ou entender, uma cultura que leva com razoável facilidade indivíduos a se suicidarem por uma causa, nem que seja o ódio. Para o norte-americano, o sentido da vida está na busca da prosperidade, do enriquecimento, do consumismo, do conforto. Mas de que é feita essa prosperidade? Cada americano consome em média tanta energia quanto três suíços, quatro italianos, 160 tanzanianos e 1.100 ruandenses. Com 4,5% da população mundial, os Estados Unidos queimam um quarto de todo o petróleo produzido no mundo. Um habitante de Madagascar só dispõe de cinco litros de água por dia, enquanto o norte-americano, segundo a ONU, consome 600 litros. Eles devoram sem dó os recursos da humanidade. Os fundamentalistas islâmicos são capazes de viver com o objetivo único de morrer em nome da fé islâmica. Segundo a imprensa internacional, 40 mil talibãs prestaram juramento de morte diante da ameaça de guerra. Se as maravilhas do capitalismo tivessem poder de sedução sobre os terroristas, eles teriam trocado sua mórbida aventura pela busca do sucesso pessoal. Na década de 1890, os norte-americanos tomaram a decisão política de expandir seu império pelo mundo afora. “Somos uma raça de conquistadores, e civilizações decadentes devem dar lugar àquelas formadas por homens mais nobres e viris”, discursou o senador Albert Beveridge no Congresso. No século 20, recém-terminado, os Estados Unidos estiveram presentes em quase todos os grandes conflitos – mas sempre em território estrangeiro. Bombardearam a Coréia, o Vietnã, o Iraque. No Japão, estrearam suas bombas atômicas sobre Hiroxima e Nagasaki, matando 100 mil civis. Não há nada que justifique atos abomináveis como os do dia 11 de setembro. Foram crimes contra a Humanidade e a civilização. Mas quando o presidente norte-americano decide declarar uma guerra contra um país já arrasado por outras guerras, está ameaçando a vida de pessoas tão inocentes quanto as que morreram nas torres de Nova York. E ao dizer que os países que não estiverem ao lado dos Estados Unidos estarão apoiando o terrorismo, ele também se apresenta como um fanático religioso. É muito mais difícil desenvolver um trabalho de investigação e espionagem, para desvendar a rede do terrorismo no mundo, que atirar bombas sobre uma população miserável. E, nessa guerra, os miseráveis nada têm a apostar a não ser a vida. Algumas considerações sobre a insanidade Os confrontos entre cristãos e muçulmanos vêm de muitos séculos. Entre 1096 e 1099 aconteceu a primeira Cruzada, realizada por diversos príncipes cristãos com o objetivo de recuperar Jerusalém, que havia sido tomada pelos turcos. Até 1270, quando a oitava Cruzada foi derrotada pelos muçulmanos, a luta pela posse dos Lugares Santos encharcou a terra de sangue. Os sonhadores contavam que o século 21 começasse com o anúncio de uma era realmente nova para a humanidade. Porém, se não havia sinais animadores de que um tempo de paz pudesse finalmente se estabelecer, o choque dos três aviões contra símbolos do poder econômico e militar dos Estados Unidos transformou o sonho em escombros. Os analistas consideram que no dia 11 de setembro de 2001 o século 21 finalmente despontou, da mesma forma que o século 20 nasceu em 1914, ao começar a Primeira Guerra Mundial. O ser humano, que se diz feito à imagem e semelhança de Deus, clama pela paz, porém está sempre metido em guerras. Para os fundamentalistas islâmicos, a guerra contra o ocidente é santa, e os Estados Unidos são o “grande satã”. Para o presidente norte-americano George W. Bush, seu país tem missão divina: “Nosso papel é livrar o mundo do mal”, disse ele. Os atentados terroristas contra os Estados Unidos foram tachados pelo presidente dos Estados Unidos como atos de guerra. Com um simples jogo de palavras, Bush abriu a possibilidade de entrar numa guerra já iniciada, criando novo mercado para a indústria bélica norte-americana e camuflando sua incompetência. O terrorismo é crime contra a humanidade, que deve ser combatido de acordo com as leis internacionais, não às custas de uma guerra insana, suja e cega. Os tempos mudaram, mas continuam os mesmos. E já que o século é novo, a guerra também é: os invencíveis Estados Unidos da América, maior potência militar do planeta, que desde as lutas pela independência não enfrentava uma guerra dentro de seu próprio território, são atacados em pontos vitais por um inimigo invisível. Bem, não é tão invisível assim. O inimigo público número um do Ocidente é o fundamentalismo islâmico, construído pelo poder econômico e militar norte-americano à imagem e semelhança de Osama bin Laden, milionário saudita graduado em economia, 44 anos. Ele comandou uma das principais facções guerrilheiras islâmicas do Afeganistão na guerra contra a União Soviética, com o apoio dos Estados Unidos. O governo norte-americano investiu 500 milhões de dólares por ano, durante quase 10 anos, em armamento, treinamento e infra-estrutura para as guerrilhas afegãs. A luta de Osama bin Laden, no entanto, como ele declarou a uma emissora de TV dos Estados Unidos, era “contra governos corruptos do Oriente Médio e as potências ocidentais que os apoiavam”. Quando os norte-americanos promoveram a Guerra do Golfo, contra o Iraque, despertaram o monstro que haviam criado. Osama bin Laden vive entre montanhas em região quase inexpugnável, no interior do Afeganistão. De lá controla os investimentos de suas empresas nos grandes centros financeiros e uma fortuna estimada em 400 milhões de dólares. Qual o alcance de seu poder? Que tipo de armas seus seguidores utilizam? Em quantos países seus exércitos agem? Como se espalham os tentáculos desse poder invisível? Se os fundamentalistas estão dispostos a morrer pela causa, estariam apenas esperando a hora de desencadear uma guerra sem limites? Se os aliados mergulharem na guerra, é possível que essas perguntas sejam respondidas. Quantos caminhos deve um homem percorrer, até que o chamem de homem? Bob Dylan lançou esta questão em seu segundo álbum, The Freewheelin´, de 1963, e desde então vem fugindo de todos os rótulos que a mídia tenta, em vão, lhe impor. Ao longo de 40 anos, Dylan foi sempre surpreendente e imprevisível – seus inúmeros caminhos, percorridos na condição de “metamorfose ambulante”, como dizia Raul Seixas, formam uma trajetória de incontestável coerência. Bob Dylan completou 60 anos em maio último, mas permanece “eternamente jovem”, cumprindo o que desejou a um interlocutor imaginário na canção Forever Young, lançada em 1974: “Que você cresça e seja verdadeiro/ conheça sempre a verdade/ e a luz que o rodeia./ Seja íntegro e forte/ e eternamente jovem/ (...) tenha um sólido alicerce/ quando vierem os ventos da mudança/ que seu coração seja cheio de alegria/ e sua canção seja sempre cantada.” Esta semana, começa a chegar às lojas o 43o. disco de Bob Dylan, Love and Theft (Amor e Roubo), criado e gravado em meio a uma excursão mundial interminável, que teve início no final da década de 80. Há 13 anos ele viaja sem parar de uma cidade para outra, um país para outro, apresentando suas canções no que chamou de endless tour (turnê sem fim). Este ano, cantou no Japão, Austrália, Estados Unidos, em vários países da Europa e na Escandinávia. Dylan não interrompeu sua viagem nem mesmo para subir ao palco da Academia de Cinema norte-americana para receber o Oscar pela canção Things Have Changed, que compôs para o filme Wonder Boys (Garotos Incríveis, já lançado no Brasil no cinema e em vídeo). Enquanto as estrelas do show business enfeitam-se como árvores de Natal para serem vistas em cadeia mundial na grande noite de entrega do prêmio, Dylan limitou-se a enviar um filmete com a música vencedora, enquanto prosseguia sua turnê pela Austrália. O incansável Bob Dylan já ganhou milhões de dólares pelas canções antológicas com que marcou a história da música popular, mas permanece na estrada porque seus versos questionadores serão sempre necessários. Não dará descanso aos senhores da guerra (“que constroem os aviões da morte, que se escondem em mansões” – Masters of War), aos racistas (Hurricane, a história verídica do boxeador negro vítima de uma farsa, já contada no cinema), à futilidade do american way of life, ao consumismo, à ostentação de riqueza que caracteriza muitos dos ídolos da música. “O vagabundo que bate à sua porta/ usa as mesmas roupas que você um dia usou”, cantou em It´s all over now, baby blue. Dylan nunca emprestou suas canções para a indústria da publicidade, porque isso deturparia seus versos. Cantor folk, foi chamado de traidor quando passou a usar a guitarra elétrica e uniu a energia do rock à de sua poesia. Nascido Robert Zimmerman, assumiu-se como poeta ao adotar o codinome artístico inspirado pelo poeta galês Dylan Thomas. A densidade poética de suas canções o torna, todos os anos, candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, por indicação de um grupo de professores universitários norte-americanos. “Irmãzinha, quando bater à sua porta/ não vire as costas, você me magoará./ O tempo é um oceano, mas termina na praia/ você pode não me ver amanhã” (Oh, Sister). Dylan, como todos os grandes poetas, também canta o amor, as relações humanas, as questões cruciais que incomodam os grandes artistas. Pergunta sobre o destino – “Venho caminhando do meio do nada/ tentando chegar ao Paraíso antes que fechem a porta” –mas sabe que a resposta está flutuando no vento. Na década de 1920, a música norte-americana exercia grande influência sobre os músicos brasileiros, e nossos ritmos enfrentavam forte preconceito no próprio País. Como acontece hoje, as classes mais abastadas sofriam de esnobismo, cultuando o lixo estrangeiro e torcendo os narizes pouco sensíveis para a arte nacional. Foi quando Pixinguinha começou a ganhar notoriedade pelo seu estilo de tocar flauta transversal, levando o choro a firmar-se como gênero. O choro é hoje o mais genuíno ritmo musical brasileiro, mesmo que tenha em suas raízes gêneros europeus, como a polca, a valsa, a mazurca e o maxixe, e africanos, como o lundu. Envolvente e irresistível, tem forte apelo popular. Com características de música erudita, costuma exigir do intérprete uma razoável dose de virtuosismo, o que não impede que continuem surgindo novos chorões de grande talento, como o brasiliense Hamilton de Holanda, 25 anos, que desde os 6 anos compõe a dupla Dois de Ouro com seu irmão Fernando César. Hamilton encantou o público do Free Jazz Festival do ano passado, com um show de bandolim, e tem colecionado prêmios no Brasil e no exterior. Na semana passada, chegou ao Rio de Janeiro o produtor musical norte-americano Mike Quinn, em busca de nossas pérolas musicais para lançar nos Estados Unidos. Depois de descobrir que não existe no mercado sequer um CD do mais antigo grupo brasileiro de choro, o Época de Ouro, ele decidiu gravar pessoalmente três discos, o que deverá estar feito até o fim deste ano – só depois ele procurará uma gravadora para lançá-los. Muitos brasileiros que viajam para os Estados Unidos incluem no roteiro uma passagem por New Orleans, com o objetivo de ouvir uma jam session em um dos muitos clubes de jazz da cidade. Pois uma roda de choro é o equivalente brasileiro a um desses encontros de virtuoses. Mike Quinn sabe disso e veio buscar material direto na fonte. Músico amador, ele descobriu o choro nos anos 70, quando decidiu pesquisar músicas de outros países e ouviu discos de Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Beth Carvalho e outros artistas brasileiros. Apaixonado, Quinn criou na cidade de Austin um carnaval brasileiro, que já completa 25 anos. Os discos do Época de Ouro vão se juntar a outros sucessos alcançados pela música brasileira no exterior, como o Bach in Brasil, lançado na Europa no ano passado. Nesse disco, o cavaquinhista Henrique Cazes promove um inesperado encontro entre Pixinguinha e Bach. Outro sucesso do choro brasileiro no exterior é o disco Café Brasil, no qual o produtor Rildo Hora reuniu em 16 faixas alguns clássicos do gênero a algumas novidades, interpretados por estrelas como Sivuca, Altamiro Carrilho, Paulo Sérgio Santos, Paulinho da Viola e o Época de Ouro, ao lado de nomes em ascensão, como Luciana Rabelo e Marisa Monte. Outra grande notícia é que o choro desperta o interesse das novas gerações. Em Brasília, na primeira escola do gênero, a Escola de Choro Raphael Rabello, músicos de primeira grandeza como Hamilton de Holanda, Alencar Soares e Jorge Cardoso ensinam os segredos do ritmo a duas centenas de estudantes, a maioria na faixa da adolescência. A música brasileira de real qualidade enfrenta bravamente o lixo musical estrangeiro (e nacional) e conquista o mundo, como lembra Altamiro Carrilho, que há dois anos teve quatro músicas gravadas pela flautista Paula Robson, da Orquestra Filarmônica de Nova York. E grupos de choro proliferam por países como Japão, Itália, Canadá e Estados Unidos. |
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