Navegue para conhecer o trabalho do poeta e jornalista Alexandre Marino.


Leia aqui reportagens de Alexandre Marino publicadas na imprensa brasiliense e nacional


Poesia para redimir Brasília
A capital brasileira prepara-se para sediar um festival internacional de poesia, em setembro
Revista Roteiro Brasília, fevereiro de 2008

Rebelião na poesia falada
Versos ásperos e bom acompanhamento musical marcam CD de Ademir Assunção
Correio Braziliense
, caderno Pensar, 15 de outubro de 2005

A cidade e os escritores
Afinal, existe ou não uma literatura com a cara de Brasília?
Revista Roteiro Brasília, n. 73 (segunda quinzena de abril/2005)

Espiritualidade e erotismo na poesia de Leonard Cohen
O bardo canadense, que acaba de ter seu novo CD Dear Heather lançado no Brasil, está em forma no esplendor de seus 70 anos
Correio Braziliense (15/janeiro/2005)

Capital da leitura
Abertura de livrarias excita leitores e comerciantes de Brasília
Revista D&F n. 9 (outubro/2004)

Livros para todos os bons gostos
O crescente mercado de livros de Brasília oferece novas opções
Revista Roteiro Brasília n. 61 (julho/2004)

A universidade quer se mostrar
O rico acervo de obras de arte da UnB pode ganhar um museu
Revista Indústria Brasileira n. 38 (abril/2004)

A viagem dos livros
A capital do Brasil tem bibliotecas pobres e mal-servidas
Revista Roteiro Brasília (18 de setembro de 2003)


Poesia para redimir Brasília

Durante cinco dias, a cidade será palco
de programação internacional,
com dezenas de eventos

A cidade sufocada pelos escândalos e negócios suspeitos será, este ano, palco para notícias edificantes. O cinismo dos políticos ficará em segundo plano – em 2008, Brasília falará da arte da poesia. O centro nervoso da capital se deslocará da Praça dos Três Poderes para outros cenários. A cidade abrirá asas e coração para poetas do Brasil e exterior, que de 3 a 7 de setembro vão ocupar com sua arte os mais diferentes espaços públicos. Começando pelas manhãs e entrando pelas madrugadas, a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (BIP) promete ser um dos principais eventos de 2008, quando Brasília será a Capital Americana da Cultura.

O projeto já conta com o apoio de instituições culturais do Brasil e exterior e embaixadas de vários países da Europa e Américas. É uma idéia que nasceu dentro da Biblioteca Nacional de Brasília, mais precisamente na sala de seu diretor, o professor e escritor Antonio Miranda. O prédio, que faz parte do Conjunto Cultural da República, erguido na Esplanada dos Ministérios, começa a ganhar vida graças a Miranda, que sonha em consolidar ali a mais moderna biblioteca brasileira. Enquanto isso não acontece, ele trabalha nas duas frentes.

Ainda falta algum tempo e a maior parte da programação está em aberto, mas o que já se fechou dá uma idéia da grandeza do festival. Dois espetáculos poético-musicais estão previstos, o primeiro na abertura, com Arnaldo Antunes. O outro é com a poeta e compositora chilena Elga Pérez-Laborde, que mostrará poesia e cantos latino-americanos, em espetáculo bilíngüe.

“Teremos sessões simultâneas em espaços com públicos próprios, tomando conta de toda a cidade, em outros espaços do Distrito Federal e também do Entorno”, prevê Miranda. Nessas sessões haverá recitais, lançamentos de livros, performances, palestras e pocket-shows. Outro evento importante é o Simpósio de Crítica de Poesia, organizado pelo Departamento de Teoria Literária da Universidade de Brasília (UnB), sob a coordenação da professora Sylvia Cyntrão, do Departamento de Pós-Graduação em Literaturas. Está assegurada a participação dos poetas e professores Antônio Carlos Secchin, do Rio, e Frederico Barbosa, de São Paulo.

A UnB é uma das parceiras da Secretaria de Cultura do DF para a realização da Bienal, assim como as embaixadas da França, Peru, Espanha, Cuba, Portugal, entre outras. Cada uma assumiu o compromisso de trazer dois nomes importantes da poesia de seus países. A embaixada da França promete exposições sobre os poetas Mallarmé e Apollinaire e uma sobre o poema-objeto. Antonio Miranda prevê a participação de 50 a 60 convidados, patrocinados pelo Governo do DF e instituições do Brasil e exterior.

Entre os poetas que virão, está garantida a participação de Affonso Romano de Santanna, Paulo Henriques Britto, Astrid Cabral, do Brasil, e os peruanos Antonio Cisneros e Manuel Pantigoso. Espera-se a resposta de muitos outros convidados, e Miranda lembra que o evento, mesmo sem ter tido divulgação maciça, já vem despertando grande interesse nos meios literários. Todos os poetas farão leituras em teatros, auditórios e bares da cidade. As leituras em idioma estrangeiro serão sempre acompanhadas de projeção das traduções em telão. “Assim, além de compreender o texto teremos a oportunidade de ouvir os autores”, observa Miranda.

O artista plástico Wagner Barja será o curador da Exposição de Poesia Visual, a ser realizada no Museu da República, ao lado da Biblioteca. Barja e o jornalista e poeta Luís Turiba preparam também uma programação de intervenções poéticas urbanas, que prevê projeção de poesia nas paredes externas do Museu, da Biblioteca e outros edifícios, assim como criação de outdoors e exposições em ônibus, estações de metrô e outros locais. Turiba pretende encher a primeira quadra da Esplanada de painéis poéticos.

Está prevista uma exposição de arte postal, a partir de convocação pública. O trabalho deverá ser enviado pelos correios, com expressão livre associada à mensagem poética. Serão lançadas pelo menos quatro antologias, reunindo os poetas participantes. Haverá concursos de poesia para jovens e oficinas de criação, leitura e interpretação.

O orçamento da Bienal de Poesia ainda não está fechado, mas diversas instituições e mecanismos de financiamento já estão sendo mobilizados para garantir os recursos. Entre esses estão o Fundo da Arte e da Cultura (FAC), o Fundo de Amparo à Pesquisa, a própria Secretaria de Cultura e a Lei Rouanet, por intermédio da qual as empresas contribuirão em troca de incentivos fiscais.
“Estamos pensando a Bienal de forma que envolva toda Brasília, mas também levaremos eventos para outros pontos do DF e do Entorno”, prevê o diretor da Biblioteca. “Dessa forma, toda a população estará voltada para a poesia, ou ao menos sentindo a presença dela.” Miranda já pensa também na segunda Bienal, em 2010: “Esta primeira será um ensaio, porque em 2010 devemos comemorar os 50 anos de Brasília, e o evento terá que ser ainda maior.” A cidade agradece.

 

Título de Capital Cultural exige responsabilidade

As comemorações dos 20 anos do título de Patrimônio Cultural da Humanidade, no mês passado, foram enriquecidas pelo anúncio oficial de outro título que Brasília ostentará este ano: a de Capital Americana da Cultura, sucedendo a peruana Cuzco. Foi conferido pela Organización Capital Americana de la Cultura (CAC), entidade não-governamental ligada ao Bureau Internacional das Capitais Culturais e reconhecida pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e pelos parlamentos europeus e latino-americanos. A homenagem, que implicará maior divulgação da cidade na mídia internacional e aumento do fluxo de turistas, exige também maior responsabilidade do governo. Afinal, é preciso fazer jus ao título. A inglesa Liverpool é a Capital Européia da Cultura 2008, e já tem pronto um calendário de eventos para todos os dias do ano. E Brasília, o que nos reserva?

Revista Roteiro Brasília, fevereiro de 2008

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Rebelião na poesia falada
Versos ásperos e bom acompanhamento musical marcam CD de Ademir Assunção

"Sou um homem só olhando o céu / na noite fria através da janela", entoa o poeta Ademir Assunção, com a voz ainda serena, em perfeita conexão com o violão de aço de Luiz Waack. Homem só é a faixa que abre o CD Rebelião na Zona Fantasma, uma coleção de 12 poemas ao som de guitarras, violões, pianos, percussão. O CD tem a energia dos bons discos de rock e a intensidade do blues, mas não se enganem - é um disco de poesia. Porém, bem diferente daquelas gravações em que uma voz declama poemas sobre um fundo musical. 

Ademir Assunção foi muito mais longe. Acompanhado por nomes importantes da cena musical paulistana, como Madan, Edvaldo Santana e Luiz Waack, que produziu o CD e fez a direção musical ao lado do próprio poeta, Ademir faz transbordar de suas palavras a rebeldia e o inconformismo que caracterizam os grandes criadores, e impõe à poesia um ritmo e uma sonoridade muito fortes, coberta de roupagem musical surpreendente, porque, afinal, é poesia falada. Ao fim das 12 faixas, os poemas continuam pipocando no ouvido, alguns acordes insistindo em vibrar na cabeça do leitor. 

A poesia de Ademir Assunção é visceral e lírica ao mesmo tempo. Um lirismo agressivo, é certo - e aqui não se pretende dar conotação negativa ao adjetivo. O que o poeta parece estar tentando, o tempo todo, é botar o dedo nas feridas que não cicatrizam, é dizer que nada está no lugar, é dar um grito para acordar os chapados, os sedados, os sorridentes. "E então? / Você já ficou mudo de medo? / Você já chorou em segredo? / No canto da cela de uma prisão?" 

Ademir Assunção nasceu dentro de um vagão de trem em 1961 e foi registrado em Araraquara (SP). Jornalista, sua formação cultural foi influenciada por escritores como Arthur Rimbaud, Paulo Leminski e Torquato Neto. Embora não cite Carlos Drummond de Andrade entre suas preferências poéticas, aprendeu muito bem a lição do anjo torto e assumiu os prós e contras de ser gauche na vida e desafinar o coro dos contentes. Publicou quatro livros de poesia, entre os quais LSD Nô (Iluminuras, 1994) e Zona Branca (Altana, 2001), dos quais foi retirada a maior parte dos poemas do CD. 

Essa fúria que pontua o trabalho de Ademir dá o tom de Rebelião na Zona Fantasma. Em Escrito a sangue, ele brada, acompanhado pelo canto de Madan: "encaro a face da fera / espelhos se estilhaçam / rasgam minha cara / cai a neblina do vazio / frio na barriga / pago o preço". Mais à frente, no poema Ratos, adverte: "você pensa / o sol é seu / e o sol descreve um arco / escapa / de suas mãos / e aparece / no Japão". 

A rebeldia às vezes excessiva pode carecer, para um ou outro ouvinte/leitor, de uma dosagem maior de sutileza, de metáforas, mas não é essa a proposta de Ademir Assunção. Ele demonstra estar muito à vontade nessa condição de artista rebelde e provocador, qualquer que seja o preço a pagar. "Eu rio todos os risos que me fazem chorar", diz o poema O espinho no dedo de Deus. O ouvinte de Rebelião na Zona Fantasma, antes mesmo de voltar ao início do CD uma, duas ou três vezes, já percebeu a coerência e serenidade de Ademir diante de sua missão, e esse é um dos prazeres que a audição do disco proporciona. 

Ao final, é evidente a sensação de que o poeta cumpre à risca o que se propôs. Oferece um produto de grande qualidade poética, musical e sonora, dificilmente classificável, resultado de um projeto que exigiu mais de dois anos de trabalho e foi amadurecido ao longo de uma década. Ademir é acompanhado pelos músicos Mintcho Garramone (baixo), Eduardo Batistella (bateria), Ricardo Garcia (percussão), Daniel Szafran (piano), Celmo Reis (violino), além de Madan, Luiz Waack e Zeca Baleiro, que canta em uma das faixas. A capa tem desenhos de Paulo Stocker, que também ilustrou o encarte. 

Este belo trabalho coletivo dificilmente será encontrado à venda nos shopping centers da vida. Faz parte da proposta de Ademir Assunção não fazer concessões mercadológicas. Ademir mantém na internet o blog Espelunca, no endereço http://zonabranca.blog.uol.com.br. É ali que ele continua dando seus gritos e versejando. 

REBELIÃO NA ZONA FANTASMA 
CD com poemas de Ademir Assunção. Preço: R$ 25,00, incluindo frete postal. Pedidos: zonafantasma@uol.com.br 

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A cidade e os escritores

 Entre as curvas modernistas da arquitetura de Oscar Niemeyer e um céu liricamente perfeito, os escritores procuram seu espaço. Vindos de todas as regiões do País ou mesmo aqui nascidos, trazem linguagens, olhares e dicções típicas de suas origens, que entram em ebulição e geram esse produto híbrido, inusitado como a própria cidade: a literatura de Brasília. 

Mas que literatura é essa, afinal? Para alguns, ela nem existe. “Essa discussão é irritante, enfadonha, uma perda de tempo”, protesta André Giusti, carioca há sete anos na capital, autor de “Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília” (LGE Editora). Para ele, o que há é o escritor brasileiro, bom ou ruim, “e todos devem estar na mesma estante da livraria”. 

Ronaldo Cagiano, mineiro de Cataguases, que lançou recentemente “Concerto para arranha-céus” (LGE), acredita que Brasília conta com uma literatura forte, “em quantidade e qualidade, um caleidoscópio que vai da tradição à vanguarda”. Organizador da “Antologia do Conto Brasiliense” (Projecto Editorial), em que reuniu 83 autores que aqui vivem ou viveram, prevê que só a partir do amadurecimento de uma geração nascida e criada aqui haverá uma literatura que espelhe a capital. “Eu já cheguei adulto a Brasília e, como todos os de minha geração, faço literatura com referência a meu Estado de origem”, completa Lourenço Cazarré, gaúcho de Pelotas, autor de mais de 30 livros e ganhador de prêmios importantes, como o Nestlé e o Jabuti.

Professora da UnB e “poeta bissexta”, como se apresenta, Sylvia Cyntrão acredita que houve um movimento literário muito forte em Brasília nos anos 80, que levou a um amadurecimento de formadores de opinião e leitores a partir dos 90. Esse movimento, segundo ela, lançou as fundações de uma poética inovadora, irreverente, mas conciliadora, inclusiva, e por isso muito humanista, característica da produção local.  

Para o poeta Fernando Marques (“Retratos de mulher”, Varanda Edições), o mais importante seria pensar em uma literatura que, produzida aqui, chegasse às outras capitais, além de conquistar os conterrâneos. “Precisamos deixar de aplaudir o que foi consagrado no Rio ou São Paulo e criar um sistema que tenha seus próprios mecanismos de consagração”, explica. 

Alta produção

Produção para isso existe. Um dos termômetros é o Fundo da Arte e Cultura (FAC), mecanismo criado pelo Governo do DF para patrocinar projetos culturais. Este ano, o Conselho de Cultura, órgão da Secretaria de Cultura, selecionou 94 dos 103 projetos literários inscritos para receber recursos. Os autores, em contrapartida, doarão à Secretaria uma parte da edição dos livros patrocinados, para distribuição às bibliotecas públicas. 

Alguns escritores defendem uma seleção mais criteriosa, mas todos concordam que o FAC cumpre papel importante para a literatura local. No ano passado, entre 83 projetos aprovados, o FAC patrocinou “Traduzir poesia” (Thesaurus Editora), de Anderson Braga Horta, “Arquitetura dos dias”, de Joanyr de Oliveira, “A rosa anfractuosa”, de Fernando Mendes Vianna, e “A arte excêntrica dos goleiros”, de Lourenço Cazarré. Assim como Ronaldo Costa Fernandes, autor de “Eterno passageiro” (Varanda Edições), apontado por Lígia Cademartori, crítica literária do Correio Braziliense e professora da UnB, como um dos mais importantes lançamentos do ano no Brasil, são autores que mostraram seu valor além das fronteiras brasilienses, recebendo importantes prêmios nacionais e até internacionais, como o Jabuti e o Casa de Las Americas.

Leitores

Para Fernando Marques, vivemos o momento adequado para que a literatura de Brasília se projete por seus próprios meios e méritos. “O amadurecimento da cidade coincide com a afirmação do livro como bem de consumo, objeto de desejo.” E o escritor local conta ainda com outro trunfo, aliado à renda média alta e à escolaridade: “Os brasilienses lêem”, afirma. 

Não adianta falar de literatura ou escritores sem falar de leitores. E, embora o índice de leitura em Brasília seja considerado alto, há um consenso de que a leitura não é voltada para os autores locais. “Aqui acontece como em outras regiões, a primeira referência é sempre de fora”, observa o poeta Alexandre Pilati. “As grandes editoras não dominam só as prateleiras, mas também os olhos de nossos leitores.” 

Se os escritores de Brasília são, na maioria, culturalmente estranhos à cidade, os leitores também são, o que dificulta a criação de um vínculo afetivo entre uns e outros. Para o livreiro Lourenço Flores, proprietário da Livraria Esquina da Palavra, falta ao leitor local um certo bairrismo que o leve a conhecer o escritor da cidade. “Se o autor não é referendado por Rio ou São Paulo, não é visto com atenção”, observa. “É um erro, pois temos bons escritores.” 

O poeta João Carlos Taveira, mineiro, que disputou a presidência da Associação Nacional de Escritores (ANE) em recente eleição, concorda. “Os leitores de Brasília não só não nos lêem, como nos ignoram”, afirma. Sua esposa Aglaia de Souza, também poeta, vai além: “Nem mesmo os escritores de Brasília lêem os seus colegas.” 

Lourenço Flores identifica ainda um certo “excesso de produção” em Brasília. “Tem gente que, se refletisse um pouco, não publicaria”, provoca. Além disso, observa uma certa desatenção dos autores com o produto de seu trabalho. Segundo ele, houve uma evolução gráfica muito grande no mercado editorial, mas alguns escritores, que editam por conta própria, não cuidam da parte visual do livro. “Há muitos livros mal feitos, que afastam os leitores”.

Para Stela Maris Rezende, autora de dezenas de livros, a maior parte para o público infanto-juvenil, o público leitor brasiliense está em formação, pelas escolas, pelos professores e por eventos como a Feira do Livro. “Há um sentimento de paixão pela leitura, um encantamento”, garante. Stela é professora, ministra oficinas de literatura, faz palestras e acaba de criar o projeto Laços de Leitura, que levará escritores às escolas para conversar com os estudantes. Ela acredita que os brasilienses têm evoluído muito na sua relação com os livros.

Lourenço Cazarré, um dos autores selecionados para o Laços de Leitura, é mais pessimista. Ele acredita que, por mais que os estudantes leiam, poucos se tornarão no futuro autênticos leitores. “O mundo exige movimento e ruído, e a literatura exige imobilidade e concentração”, explica. “Talvez a literatura seja uma coisa arcaica, obsoleta, mas a verdade é que não mais de 5 por cento desse público conseguirá desenvolver sua capacidade de concentração, abstração e imaginação para se manter um bom leitor.” 

Mercado

Ao comparar Brasília com outras capitais, Lourenço Flores lembra que, por ser muito jovem, a cidade ainda está em processo de consolidação de sua infra-estrutura cultural. Outro problema, no seu entender, é o tamanho da população. “Todo o Distrito Federal tem 2 milhões de habitantes, com uma desigualdade de renda muito grande. Isso reduz a população que pode comprar livros a no máximo 400 mil pessoas. É um mercado pequeno”, argumenta ele. 

Mas, assim como o próprio Flores, muita gente acredita nesse mercado. A mais importante livraria do País, a Cultura, inaugurará em julho uma loja na cidade, a terceira fora de São Paulo, com 120 mil títulos disponíveis. E o editor Antônio Carlos Navarro, da LGE Editora, promete colocar cerca de 35 novos títulos no mercado este ano, mantendo a proporção dos últimos anos, quando 80 por cento dos autores editados eram brasilienses. 

Navarro reconhece uma certa “discriminação” contra os escritores locais que, segundo ele, se verifica também em outros setores. “Muita gente fala mal de produtos e serviços pelo simples fato de serem de Brasília”, diz. “Mas as Feiras do Livro, as livrarias, os lançamentos superlotados, tudo isso mostra que os escritores de Brasília estão formando leitores na cidade.” 

O que pode ser feito para que escritores e leitores se aproximem, já que uns não vivem sem os outros? Sylvia Cyntrão reivindica, para valorizar os escritores, a instituição de um prêmio anual, nos moldes do Portugal Brasil Telecom, um dos mais importantes prêmios literários nacionais, com o apoio de um “patrocinador forte”. Alexandre Lobão sugere que a ANE crie uma agência literária que conquiste espaço para os brasilienses nas grandes editoras nacionais. 

Ronaldo Cagiano, Margarida Patriota e Alexandre Pilati querem a criação de mais bibliotecas no DF. Fernando Marques espera o surgimento de uma revista literária de circulação nacional. E o poeta Fernando Mendes Vianna sonha com um ponto de encontro, que aglutine autores e leitores para boas conversas e trocas de idéias. “Temos muitos círculos fechados, mas falta o espírito associativo”, diz ele. Uma coisa é certa: não faltará assunto. 

[Revista Roteiro Brasília, n. 73, segunda quinzena de abril/2005]

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Espiritualidade e erotismo na poesia de Leonard Cohen


Um garoto de nove anos caminha por um jardim coberto de neve, nos fundos de uma casa na cidade canadense de Montreal. Agacha-se e cava. Com gestual sério e solene, fruto do primeiro encontro com a morte, enterra uma gravata de seu pai, onde acabou de costurar uma mensagem de despedida. Dessa forma, ele cumpriu seu ritual particular de sepultamento, depois de observar no caixão o rosto austero do pai.

Leonard CohenAquela mensagem foi o primeiro texto que o poeta, romancista e compositor canadense Leonard Cohen escreveu, levado pela força interior que move os grandes criadores. Cohen completou 70 anos no dia 21 de setembro. Sua dedicação à música e à literatura rendeu até agora nove livros (sete de poesia, dois romances) e 11 discos, incluindo Dear heather, seu mais recente CD, lançado pela Sony Music do Brasil em dezembro de 2004. É um disco belo e estranho, como alguns de seus mais importantes álbuns. 

Nascido de tradicional família judaica, Cohen escreveu os primeiros poemas aos 15 anos, dando início a uma busca pessoal que o levou também à boemia, à música, às drogas e a insolúveis conflitos em todos os caminhos que tem percorrido, incluindo o religioso. "Como um pássaro no fio, como um bêbado numa cantoria noturna, eu vou buscando o meu jeito de ser livre", definiu em sua mais emblemática canção, Bird on the wire.

Foi a leitura do poeta espanhol Federico Garcia Lorca que o arrebatou para a poesia e o levou a estudar o flamenco. Take this waltz, do CD I´m your man, de 1988, é uma adaptação do poema Pequena valsa vienense, de Garcia Lorca. E Lorca é o nome de sua filha com Suzanne Verdal, musa inspiradora de um de seus hits, Suzanne ("Suzanne leva você para seu canto à beira-rio/ você ouve os barcos partindo/ e passa a noite ao seu lado/ sabe que ela está quase louca/ mas é por isso que quer ficar ali"). 

Em 1956, Cohen publicou seu primeiro livro, Let us compare mithologies, pelo selo McGill Poetry Series. Passaram-se 10 anos até que decidiu dedicar-se á música, depois de lançar o polêmico romance Beautiful losers, conhecido e discutido, mas um fracasso comercial. Já publicara outro romance, The favourite game, e quatro volumes de poemas, sempre com vendas "insuficientes para sobreviver como escritor". A cantora Judy Collins gravou a primeira canção de Cohen, Suzanne, em 1966, e outras três em seu álbum de 1967, Wildflowers

Estréia 

Finalmente, em 1968, aos 34 anos, lançou Songs of Leonard Cohen, que já trazia alguns de seus hits, como Sisters of mercy e So long Marianne, além de Suzanne. Assim como Songs from a room, de 1969, esse disco apresentava as principais características de sua obra musical, feita de melodias suaves, aparentemente monótonas, quase declamativas, porém dotadas de uma beleza que dispensa teorizações. "Suas canções cada vez mais se parecem com orações", definiu Bob Dylan quando ouviu o álbum Various positions, de 1984. Veículo de poemas complexos e elaborados, sua música leva a multidões uma poesia que seria para poucos. 

Seu mais recente CD, Ten new songs, de 2001, vendeu mais de um milhão de cópias e lhe valeu Discos de Platina no Canadá, Noruega e Polônia, e de Ouro na França, Espanha, Dinamarca, Irlanda, Suíça, Hungria e Suécia. Ao lançá-lo, estava há nove anos sem gravar, e acabara de deixar o mosteiro zen budista de Mounty Baldy, onde durante cinco anos cumpriu com humildade a rotina de qualquer monge: acordava às 3 horas da manhã para meditar, estudava, fazia faxina, cozinhava e trabalhava como secretário de Joshu Sasaki Roshi, 92 anos, líder do mosteiro e guia espiritual de Cohen.Leonard Cohen

Dessa mistura entre Zen e Judaísmo ele retira os elementos necessários para lidar com a vida espiritual e a carreira. Os conflitos com a ideologia burguesa dos judeus de Westmount o levaram várias vezes a isolar-se para escrever e estudar, tanto em quartos de pensão e hotel, quanto na casa que adquiriu na ilha grega de Hydra em 1960, quando lá não havia eletricidade nem telefone, e mantém até hoje. Ali escreveu algumas de suas obras-primas, incluindo Bird on the wire, inspirado pelos pássaros que pousavam nos primeiros fios de luz elétrica.

Suas origens, além do hábito de se vestir bem, não raro de paletó e gravata, afastaram dele os poetas da geração beat. Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Lawrence Ferlinghetti, William Burroughs e seu grupo o consideraram "muito classe média para nós". Foi em 1956, quando chegou a Nova York, em busca de ambiente mais cosmopolita e "menos burguês", para estudar literatura na Universidade de Columbia. Anos depois, numa noite de 1977, Cohen gravava as canções de Death of a ladies´man quando Ginsberg apareceu inesperadamente no estúdio, ao lado de Bob Dylan. Ambos fizeram "backing vocals" na faixa Don´t go home with your hard on, um rock satírico cujo título é uma expressão vulgar.

Sepulcral 

Dear heather deve seguir a trilha de sucesso de Ten New Songs. A propósito do novo álbum, só de canções inéditas, o crítico Jon Wilde escreveu na revista musical inglesa Uncut: "Os vocais soam sepulcrais como nunca, como se Cohen pretendesse que esta última fornada de canções sobre anseios espirituais, paixões eróticas e os limites da intimidade seja sua palavra final a respeito destes temas." 

"Sepulcral" e "melancólica" são adjetivos que se encaixam com perfeição à voz de Cohen, tanto para os fãs quanto para seus detratores. "Minha voz se tornou mais profunda, depois de 50 mil cigarros", define. Grave, rouca e afinada, sempre emoldurada por delicados vocais femininos, é o veículo ideal para canções de tom marcadamente intimista, quase sempre autobiográficas, que levam a supor que Leonard canta não com o corpo, mas com a alma, e estabelecem imediata empatia entre ele e quem o ouve.

Não apenas o ouvinte comum, mas astros como Elton John, Bono, a banda R.E.M., Sting e Peter Gabriel lhe prestam reverências. Esses e outros artistas se uniram para gravar suas canções em dois álbuns antológicos, I´m your fan (1991) e Tower of song (1995). O sítio Leonard Cohen Files, mantido na Finlândia pelo fã e amigo pessoal Jarkko Arjatsalo, listou, até setembro, 903 regravações de suas canções ao redor do mundo. São artistas do Canadá, Estados Unidos, dos principais países europeus e também do Irã, Croácia, Israel, Eslovênia, Índia, Japão, África do Sul, Tchecoslováquia, Nova Zelândia... Há um único brasileiro na lista: Renato Russo, que gravou Hey, that´s no way to say goodbye, lançada em seu álbum póstumo, O último solo, de 1997. 

A matéria-prima de Leonard Cohen é a mesma dos grandes criadores da literatura - o amor, a paixão, os altos e baixos da condição humana e as questões cruciais de nosso tempo. Em Dear heather, ele faz referências, com sutileza, ao 11 de setembro: "Algumas pessoas dizem/ é isso que merecemos/ pelos pecados contra Deus/ pelos crimes ao redor do mundo/ eu não saberia/ estou apenas aguentando a barra/ desde aquele dia/ que feriram New York" (On that day). E também volta a falar de paixão e mulheres, agora abordando sua condição de septuagenário: "Mulheres têm sido/ excepcionalmente gentis/ para minha avançada idade" (Because of). Como os melhores vinhos, Leonard Cohen usa o tempo a seu favor.

 

 

Obras de Leonard Cohen

Livros

Let´us compare mithologies (poesia, 1956)
The spice-box of earth (poesia, 1961)
The favourite game (romance, 1963)
Flowers for Hitler (poesia, 1964)
Beautiful losers (romance, 1966)
Parasites of heaven (poesia, 1966)
Selected poems 1956-1968 (poesia, 1968)
The energy of slaves (poesia, 1972)
Death of a lady´s man (poesia, 1978)
Book of mercy (prosa poética, 1984)
Stranger Music - Selected poems and songs (antologia poética, 1993)

Discos

Songs of Leonard Cohen (1967)
Songs from a room (1969)
Songs of love and hate (1971)
Live songs (1972)
New skin for the old ceremony (1973)
The best of Leonard Cohen (1975)
Death of a ladie´s man (1977)
Recent songs (1979)
Various positions (1984)
I´m your man (1988)
The future (1992)
Leonard Cohen live in concert (1994)
More best of Leonard Cohen (1997)
Field commander Cohen - Tour of 1979 (2000)
Ten new songs (2001)
The essential Leonard Cohen (2002)
Dear heather (2004)

Principais CDs de tributos por outros artistas

I´m your fan (vários, 1991)
Famous blue raincoat (Jennifer Warnes, 1991)
Tower of song (vários, 1995)
Judy Collins sings Leonard Cohen: Democracy (Judy Collins, 2004)

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Capital da leitura

 

Um clima de euforia pela literatura e pelos livros toma conta de Brasília. Desde que uma pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) sobre o perfil do leitor brasileiro a apontou como a cidade onde mais se lê, novas livrarias vão se estabelecendo, eventos literários são criados, escritores lotam auditórios. “O mercado de livros de Brasília é absurdo”, exclama o jornalista Lourenço Flores, proprietário da Esquina da Palavra, livraria que, desde sua inauguração em fevereiro de 2002, tornou-se ponto de encontro de leitores na 406 Norte.

Os leitores parecem não ter levado a sério nem mesmo a frase do mais ilustre habitante da cidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que na abertura da Bienal do Livro de São Paulo, em abril, declarou que “o livro dá uma preguiça desgramada”. E o Governo do Distrito Federal já prepara um novo estímulo ao hábito de leitura, com a construção da Biblioteca Nacional de Brasília na Esplanada, parte do Conjunto Cultural que completa o projeto da cidade.

Como Lourenço Flores, outros empresários identificaram em Brasília um grande mercado potencial. Os consumidores, depois de comparecer em grande número à inauguração, no Park Shopping, da loja da Fnac — que, se não é apenas livraria, tem nos livros um de seus principais produtos — aguardam a instalação da Livraria Cultura, de São Paulo, na expansão do Casa Shopping, e da carioca Livraria da Travessa, ainda sem endereço certo.

700 pontos de venda  De acordo com os dados da Câmara do Livro do Distrito Federal (CLDF), que conta atualmente com 43 associados, entre livrarias e editoras, existem cerca de 60 lojas de livros no DF, das quais 20 estão no Plano Piloto. Consideradas as lojas de material escolar, esse número cresce para 163, ou 93 apenas no Plano Piloto, segundo o Sindicato de Papelarias e Livrarias do DF (Sindipel). Lourenço Flores, proprietário da Esquina da Palavra e diretor financeiro da CLDF, informa que o Distrito Federal possui cerca de 700 pontos de venda de livros, se incluídos estabelecimentos como supermercados, postos de gasolina, escolas e outras lojas.

Esse mercado, em momento de ebulição, também gera empregos. Embora não existam dados estatísticos precisos, pode-se considerar, segundo Íris Borges, presidente da CLDF, que cada livraria, por menor que seja, emprega pelo menos duas pessoas, além do proprietário. Nas lojas de redes esses números são mais significativos. A Fnac treinou 112 funcionários para atender a clientela dos diversos departamentos de sua loja — entre os quais o de livros, onde estão disponíveis 60 mil títulos. A Siciliano, com cinco lojas na cidade, emprega uma média de 100 pessoas, informa a gerente regional para Centro-Oeste e Nordeste, Svetlana Vidal.

A Fnac investiu R$ 15 milhões para ocupar 3,2 mil metros quadrados na expansão do ParkShopping, segundo seu diretor Patrick Viala. A Livraria Cultura, que terá uma loja de dimensões semelhantes no Casa Park, não informa o valor do investimento, mas promete empregar cerca de 80 funcionários. Além dos livros, a Cultura venderá revistas, CDs e DVDs e contará com um auditório de 150 lugares e um café. Ainda não há data prevista para a inauguração, que deverá ocorrer em meados do próximo ano.

Referência nacional  “Teremos uma filial com a mesma cara da matriz”, promete Pedro Herz, que administra a Cultura, um negócio familiar que começou em 1947 com um serviço caseiro de empréstimo de livros. Hoje, ocupando várias lojas do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo, a Cultura é uma referência nacional. Foi a primeira livraria a estabelecer-se como loja âncora em shopping center — o Villa-Lobos, também em São Paulo, em 2000. Nas mesmas condições instalou-se no Bourbon Shopping Country, em Porto Alegre, e no Paço da Alfândega, em Recife.

Pedro Herz observa que a Cultura investe forte em recursos humanos e tecnologia. A loja deverá contar com um estoque entre 130 mil e 140 mil títulos, o que já garante o maior acervo de livros da cidade, de um total de 800 mil produtos. Os funcionários receberão treinamento, antes da abertura, para orientar com segurança os clientes na busca e na escolha. As notas fiscais serão processadas em São Paulo, de forma que a administração mantenha controle permanente do estoque e possa suprir as carências com o máximo de agilidade. E a loja chega com conhecimento do mercado e preparada para atender às suas especificidades — uma das promessas é um grande acervo de livros importados, para atender à demanda das embaixadas.

Outra livraria aguardada com expectativa é a Travessa, que tem seis lojas no Rio de Janeiro, incluindo uma no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e uma no Museu de Arte Moderna (MAM), com acervos especiais, como livros de artes e catálogos das exposições em cartaz. A Travessa já possui uma pequena loja no CCBB de Brasília, também com esse espírito de atender principalmente aos visitantes das exposições e eventos ali realizados. A livraria faz tanto sucesso, desde sua inauguração, em julho do ano passado, que abrir uma loja de quadra — e não em shopping center — é um dos planos para o início de 2006. “Queremos um ponto de rua, para criar um ambiente típico de livraria”, explica Beatrice Correa do Lago, gerente da loja do CCBB e representante da empresa em Brasília.

Quais as razões para que o mercado de leitores de Brasília, que não tem uma grande editora local, desperte a atenção dos livreiros nacionais? O primeiro sinal foi dado por uma pesquisa realizada em janeiro de 2001 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), sobre o perfil do leitor brasileiro. Foi o maior levantamento já realizado no País sobre o assunto. A pesquisa indicou que Brasília é, de longe, a cidade onde mais se lê — 69% por cento do universo pesquisado (alfabetizados acima dos 14 anos) havia lido um livro nos últimos três meses. Depois vieram Manaus (49%), Salvador (47%), Rio de Janeiro (43%), Porto Alegre (39%), São Paulo (36%), Belo Horizonte (26%) e Fortaleza (22%). O resultado de Brasília foi tão significativo que interferiu nos resultados relativos ao Centro-Oeste.

Estímulo  Analisando os resultados dessa pesquisa, Íris Borges, proprietária da Livraria e Distribuidora Arco-Íris e presidente da CLDF, avalia que o tipo de trabalho que se faz em Brasília, cidade administrativa e capital federal, estimula o hábito de leitura. E ela ainda lembra que, nos últimos anos, eventos culturais como as Rodas de Leitura (CCBB), Literatura em Conjunto (Conjunto Nacional) e Sempre Um Papo (Centro Cultural da Caixa), que trazem escritores de fora para debater com o público e lançar livros, contribuíram para elevar os índices.

As Rodas de Leitura, promovidas mensalmente pelo CCBB, sob a curadoria da escritora Suzana Vargas, costumam atrair uma média de 300 pessoas para ouvir escritores. O Projeto Sempre um Papo, que há 18 anos promove encontros semelhantes em Belo Horizonte, chegou a Brasília em janeiro de 2004 e logo na primeira edição precisou promover uma “sessão extra” com Luiz Fernando Veríssimo, que lotou duas vezes o auditório de 400 lugares da Caixa.

Esse universo de leitores é formado por estudantes, funcionários públicos, profissionais liberais e outros que usufruem da maior renda per capita do Brasil — algo em torno de R$ 14 mil, o dobro da média nacional, segundo o IBGE. Na avaliação de Samuel Arantes, administrador da Cotidiano Livraria de Conveniência, essa é uma das explicações para o alto índice de leitura, mas não a única.

“O ensino superior está em expansão em Brasília, com a abertura de faculdades, que atendem uma grande demanda por educação, por causa dos concursos públicos”, observa ele. “Isso instiga o hábito.” A Cotidiano emprega oito funcionários. Possui um café, um salão para exposições de arte e eventos culturais e computadores para acesso à internet. A maior parte de seu público é de funcionários federais que trabalham no Setor de Autarquias.

A Cultura, uma das mais tradicionais livrarias do País e possivelmente a mais completa, a Travessa, a gigante francesa Fnac, que atraem o consumidor pela marca, representariam uma ameaça para aquelas já instaladas na cidade? Só o tempo dirá, mas os livreiros não parecem assustados e encaram sua chegada como sinal da vitalidade do mercado.

Lourenço Flores, que abriu a Esquina da Palavra em fevereiro de 2002 e a ampliou em dezembro último, acrescentando-lhe 60% da área original, acredita que a cidade tem lugar para todos, e cada parcela de público saberá encontrar o estabelecimento que melhor o atende. “Eu criei a livraria na condição de consumidor, que acreditava que a cidade não me oferecia boas livrarias, de acordo com o meu conceito”, explica. “Boa parte do público prefere um atendimento personalizado, uma relação de amizade.”

Fundo de catálogo  A Esquina da Palavra, assim como a Cotidiano, a Café com Letras e várias outras pequenas lojas da cidade, trabalham com o chamado fundo de catálogo, livros fora das listas de best-sellers que alimentam as vendas das grandes redes e atraem um consumidor bem informado e mais curioso. Esse nicho, além dos livros para públicos especializados, pode manter a vitalidade dos pequenos frente aos gigantes.

A especialização, no entender de Íris Borges, explica a vitalidade do comércio de livros em Brasília e garante o seu crescimento. “As pequenas livrarias locais não podem competir com as grandes redes em número de títulos, mas ao focar em determinado segmento do mercado elas garantem seu espaço”, observa. Um dos melhores exemplos é a Musimed, maior livraria especializada em música da América Latina, que tem mais de 100 mil títulos de mais de 1 mil editoras de todo o mundo, numa loja de 800 metros quadrados na Asa Sul.

A instalação de novas livrarias é guiada por pesquisas de mercado e muito planejamento. O proprietário da Cultura também acredita que a cidade “tem espaço para todos”, e não dá muita importância à elevada renda per capita — “Quem gosta de livros compra, independente de ter muito dinheiro”, afirma. O dado mais determinante para a vinda da Cultura, no entanto, é outro. “Brasília hoje é uma cidade com vida própria, que não vive mais em função do governo”, analisa Herz. “Tem muitas faculdades e vida cultural intensa, que continua pulsando quando o Congresso está em recesso.”

“O termômetro do mercado de Brasília é a Feira do Livro”, lembra Svetlana Vidal, gerente da Siciliano, que tem cinco lojas em Brasília. A CLDF confirma. Informações recolhidas pela entidade dão conta que a Feira, realizada na área externa do shopping Pátio Brasil, como vem acontecendo nos últimos anos, bateu novo recorde de visitantes — 300 mil nos 12 dias, 50 mil a mais que no ano passado. Desses, 34 mil eram estudantes, somando as redes pública e particular. O faturamento ficou em torno de R$ 2,2 milhões.

“Esta foi a melhor feira do livro que já fizemos”, afirma Íris Borges. “Além do aumento do público e das vendas, tivemos uma mídia muito favorável, os jornais fizeram cobertura diária. Somos a capital brasileira da leitura, e estamos no caminho certo.”
(Outubro/2004)

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Livros para todos os bons gostos

Com fama de bons leitores, os brasilienses têm gosto variado quando se trata de comprar livros. A fama foi adquirida graças à última pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL), realizada há dois anos, segundo a qual Brasília é a cidade onde mais se lê. O gosto variado se manifesta na diversidade de livrarias à disposição dos leitores. De acordo com cálculos não oficiais, o Distrito Federal conta com cerca de 60 livrarias, sem contar as escolares, das quais pelo menos 20 no Plano Piloto, a área tombada, onde vivem 200 mil habitantes, segundo o IBGE.

Quem faz o cálculo é Íris Odete Borges, presidente da Câmara do Livro do Distrito Federal (CLDF), entidade com 43 associados, entre livrarias, editoras e distribuidoras. Íris chama a atenção para o fato de que a cada ano Brasília ganha novas livrarias, o que evidencia a vitalidade desse setor — lembrando também que livrarias costumam ser, além de estabelecimento comercial, um ponto de encontro. 

No comércio de livros, Brasília já pode orgulhar-se até mesmo de alguns superlativos. Por exemplo: aqui fica localizada a maior livraria musical da América Latina, o que é confirmado por executivos de editoras estrangeiras. O autor da façanha é o músico, professor universitário e livreiro Bohumil Med, nascido no interior da República Tcheca e desde 1974 morador de Brasília. A Musimed, livraria que criou em 1981, instalou-se há quatro meses numa loja de 800 metros quadrados na Asa Sul, espaço onde guarda mais de 100 mil títulos de quase 1 mil editoras do mundo inteiro e ainda abriga a clientela que comparece aos sábados para ouvir música.

Se a Musimed chama a atenção de quem passa por uma das principais avenidas de Brasília, também há livrarias escondidas, para aqueles que compreendem os caminhos de uma cidade setorizada. A Briquet de Lemos, por exemplo, especializada em artes, arquitetura, fotografia e design, fica no oitavo andar do Embassy Tower, edifício plantado bem no centro, próximo ao Parque da Cidade e rodeado por trânsito intenso. Também tem seus clientes fiéis. 

Brasília conta com muitas livrarias de rede, distribuídas nos diversos shopping centers, com destaque para as lojas da Siciliano, Nobel, Leitura e a já tradicional Sodiler, a mais antiga, localizada no Conjunto Nacional. A Saraiva tem loja ampla e confortável na área central, no Setor Comercial Sul. Próximo dali, no Setor de Diversões Sul, no conjunto mais conhecido como Conic, o livreiro Wilson Hargreaves, da Casa do Livro, já atendeu pelo menos duas gerações de leitores, da forma como os bons leitores gostam, discutindo as obras e fazendo indicações.

Há outras que seguem a mesma receita. É o caso da Café com Letras (203 Sul), onde a proprietária, Luiza Neiva, já ouviu pedidos assim: “Luiza, me ensine a ler!” Leitora voraz, ela ensina. Indica livros de acordo com o perfil do cliente, ou do candidato a cliente, que volta para novas sugestões. “O meu público é formado por pessoas que gostam de ler”, afirma. Dos 6 mil títulos disponíveis, a maior saída é de livros de filosofia, história, artes e boa literatura. 

Clientela semelhante tem a Esquina da Palavra (406 Norte). O proprietário, Lourenço Flores, define: “Gosto de trabalhar com livros que são lidos por prazer.” Acredita que o brasiliense é bom leitor, contrariando as advertências que ouviu quando decidiu abrir a loja, há dois anos. “A Esquina da Palavra é uma livraria diferenciada e um ponto de encontro. Trabalho com um acervo de qualidade e com livros que as grandes redes não vendem.” A loja tem cerca de 11 mil títulos, entre os quais romances, ciências humanas e sociais são os mais procurados.

Outra livraria no mesmo estilo é a Cotidiano Livraria de Conveniência, localizada na 201 Sul, próxima ao Setor de Autarquias, onde atende principalmente funcionários do Governo Federal. “Economia, negócios, filosofia e história são as áreas que mais vendemos”, explica Samuel Arantes, um dos proprietários. Fazendo jus à idéia de livraria de conveniência, a Cotidiano reserva um salão superior para exposições de arte e eventos culturais, organiza cursos e lançamentos de livros e oferece computadores para acesso à internet. No ano passado, a livraria ganhou um café, reforçando o conceito de ponto de encontro.

A incorporação do café à livraria é uma tendência nacional, mas em Brasília ainda é incipiente. Na Café com Letras, o café localiza-se na sobreloja, não se misturando às estantes. Mesmo assim, uma e outra área se reforçam. “O café é um atrativo a mais, ajuda a movimentar a livraria”, explica Luiza Neiva. A livraria abre às 10h30, o café às 17h, e ambos funcionam juntos até as 2h, de segunda a sábado. Aos domingos, vão das 16h à meia-noite.

Como capital do País, Brasília não poderia deixar de ter uma loja da Fundação Nacional de Arte (Funarte), a Livraria Maria Clara Machado. Especializada em publicações do Núcleo de Edição da Funarte, oferece acervo de 500 títulos, prejudicado pela escassez de lançamentos da Fundação. A cidade também conta com boas lojas de livros usados, como a Sebinho (406 Norte) e a Pindorama (505 Sul), e infantis, com destaque para a Sabugosa (Brasília Shopping).

Para os leitores que se queixam da falta de diálogo literário entre Brasil e Portugal, Brasília tem uma loja especializada em livros d´além mar, com cerca de 11 mil títulos. É a Livraria Portugal, localizada na 708 Norte, que atende basicamente a professores universitários. Com matriz em São Paulo, vende livros das principais editoras portuguesas e trabalha com encomendas quando o cliente não encontra o que procura. 

Aberta há cinco meses, a Livraria Travessa é outro ponto de encontro para os bons leitores e apreciadores de livros de arte. Parte do acervo é uma extensão das exposições e eventos em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde se localiza. Também oferece livros de arte, arquitetura e cinema, além do catálogo de pequenas editoras. A loja é pequena e o acervo restrito a 2 mil títulos, mas a proprietária, Beatrice Correa do Lago, está tão entusiasmada que já pensa em abrir outra loja, nos moldes da matriz carioca.

O mercado de livros parece viver um bom momento em Brasília, quando tanto se fala na importância da leitura para a construção de um país melhor. O sinal disso é a ampliação recente de algumas lojas — Musimed, Cotidiano e Esquina da Palavra — e a promessa da abertura de novas. A que desperta maior expectativa é a Fnac, rede francesa que chega a Brasília em julho. A assessoria da rede não informa o número de títulos disponíveis, mas sabe-se que a livraria, que é apenas um dos setores da loja, especializada também em CDs e eletrônicos, costuma trabalhar com uma média de 100 mil títulos. A Fnac será uma das principais lojas da expansão do ParkShopping, que já está em fase de acabamento.

Como se vê, o leitor brasiliense tem boas perspectivas para saciar a sede de leitura. E que não falte sede!
(julho/2004)


Briquet de Lemos – Livraria de arte – SRTVS quadra 701, bloco K, sala 831 – Ed. Embassy Tower – (61) 3322-9806 – De segunda a sexta, das 9h às 19h.
Café com Letras – CLS 203, bloco C, loja 19 – (61) 3322-4070, 3322-5070. De segunda a sábado, livraria abre às 10h30 e o café às 17h. Fecham às 2h. Aos domingos, das 16h à meia-noite.
Cotidiano Livraria de Conveniência – CLS 201, bloco C, lj 15/19 – (61) 3322-8221, 3224-3439. Segunda a sábado das 8h30 às 24h, domingos das 11h às 17h.
Esquina da Palavra – CLN 406, bloco D, loja 4 – (61) 3039-7979. Segunda a sexta das 8h30 às 22h e sábados das 10h às 22h.
Maria Clara Machado – Edições da Funarte - Complexo Cultural da Funarte – Setor de Divulgação Cultural, Eixo Monumental, lote 2.Entre a Torre de TV e o Centro de Convenções. - 2a. e 3a.feira, das 10h às 14h; 4a. a 6a.feira, 10h às 22h; sábados e domingos, 14h às 22h.
Musimed – Especializada em música - SCRS 505, bloco A, loja 65 – (61) 3226-0478, 244-9799 – Segunda a sexta das 9h às 19h, sábado das 9h às 18h.
Sabugosa – Literatura infanto-juvenil - SCN quadra 5, bloco A, loja 36W – Brasília Shopping – (61) 3425-1578. – De segunda a sábado, 10h às 22h
Saraiva – SCS quadra 1, bloco H – (61) 3323-4115, 3323-5281 – De segunda a sexta, das 9h às 18h, sábado de 9h às 13h.
Sebinho – Livros usados - CLN 406, bloco C, lojas 30/72 – (61) 3447-4444
Pindorama – Livros usados - CRS 505, bloco A, loja 41 – (61) 443-3425
Siciliano – Shoppings Conjunto Nacional, Pátio Brasil, Brasília Shopping, ParkShopping – (61) 3326-6946, 3326-6932
Sodiler – Conjunto Nacional – (61) 3326-2022
Leitura – Shopping Pier 21 – (61) 3223-0077 – De segunda a quinta, das 11h às 23h, sextas e sábados das 11h às 23h30 e domingos das 12h às 22h.
Nobel – Shoppings Pátio Brasil e Terraço e Conjunto Gilberto Salomão – (61) 3321-0019, 3234-3646, 3364-5457

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A universidade quer se mostrar

Em cinco minutos, é possível se deslocar de carro da Esplanada dos Ministérios ao campus da Universidade de Brasília (UnB), no cerrado que se estende entre a Asa Norte e o Lago Paranoá. Tão perto do Poder, a UnB nasceu em 1962, dois anos depois da nova capital do País, com uma espécie de blindagem política, assegurando-lhe autonomia orçamentária, administrativa e acadêmica. O privilégio foi insuficiente para fazer frente ao Regime Militar que se instalou no País em 1964. Mas a liberdade original deu a marca da resistência: em 1965, 209 professores pediram demissão coletiva.

Desde a redemocratização do Brasil, a UnB esforça-se para reconstruir o projeto original, que além da autonomia inclui a missão de estabelecer laços estreitos com a sociedade. Um dos maiores passos nessa direção está prestes a se consumar: a instalação do Museu Universitário. A idéia remonta à fundação da própria universidade e finalmente deverá incluir o campus no roteiro de quem visita Brasília. Ao mesmo tempo em que abrigará um acervo de 1.700 obras de arte, o museu deverá contar a rica, ainda que recente, história da universidade. 

No plano da década de 60, o museu seria três instituições em uma só: o Museu da Ciência, o Instituto das Artes e o Museu da Civilização Brasileira. A idéia que deve ser posta em prática não tem esses compartimentos, segundo o professor José Carlos Andreoli, diretor do Centro de Documentação (Cedoc) da universidade. “O Museu Universitário deverá interagir com as atividades acadêmicas, englobando ciência, artes e tecnologia, assim como incentivar a comunidade externa a participar de suas atividades”, explica. Andreoli é o presidente da Comissão constituída pelo reitor Lauro Morhy em agosto do ano passado para apresentar pré-projeto de criação do Museu. Morhy quer tornar o museu irreversível antes do final do mandato, em 2006.Andreoli e a Comissão defendem a idéia de um museu-escola, “um centro dinâmico de produção e difusão do conhecimento”, que, além de responsabilizar-se pela preservação da memória da Universidade, promova atividades de pesquisa e extensão, cursos acadêmicos e técnicos, e seja dinâmica o bastante  para estimular o público externo a participar de suas atividades.  

Outra idéia no projeto original na UnB são as Casas de Cultura. Apenas  uma foi criada de fato, a Casa da América Latina, que hoje tem sede no Setor Comercial Sul, centro da cidade e  deverá agora ser integrada ao Museu. É também o caso do próprio Cedoc, que Andreoli dirige. Os dois órgãos são os que  mais se aproximam hoje na UnB às atribuições do futuro  museu. Criado em 1986, o Cedoc é  encarregado de organizar, preservar e divulgar o acervo cultural da UnB, o que engloba a pesquisa de novas tecnologias nas áreas de microfilmagem e restauração de documentos e obras de arte  - em breve, um novo laboratório para essa tarefa estará em funcionadmento. . Além de pôr a mão na massa, professores, estudantes e funcionários  da  área de conservação  catalogaram as obras de arte da Universidade em 1996, O acervo do Cedoc é composto de atos administrativos, cartas, discursos, jornais e outros periódicos, relatórios, cartazes, fotografias, tudo isso referente ao período que tem início com a criação da própria universidade, em 1960, além de fitas de vídeo sobre fatos históricos mais recentes. O centro  presta serviços para outras instituições, como o diagnóstico do acervo de 3.800 exemplares de Obras Raras da Biblioteca do Senado Federal e a higienização emergencial do acervo da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Além dessas atividades, ministra cursos de conservação e preservação de documentos. 

A Casa de Cultura da América Latina (CAL) foi criada em 1988, durante o Festival de Cultura Latino-Americana, como instrumento para discutir a questão dos países do continente. Tem sede no Setor Comercial Sul, Centro de Brasília, onde, além das dependências administrativas, mantém duas galerias de arte, um auditório, uma biblioteca e um espaço que abriga o seu acervo. É, hoje, órgão do Decanato de Extensão da Universidade, e está localizada intencionalmente fora do campus como uma forma de aproximar-se da comunidade externa.

“Voltar para o campus não seria uma contradição”, explica a coordenadora de Acervo da CAL, Anelise Ferreira. “A cidade cresceu ao redor do campus, já incorporou a universidade.” Onde está localizada, cercada de prédios comerciais e de escritórios, a CAL acaba se isolando mais, em conseqüência do trânsito caótico e o eterno problema da falta de estacionamentos. 

A maior parte das 1.700 obras de arte da Universidade está sob a guarda da CAL, especialmente algumas das mais importantes, como pinturas, serigrafias, esculturas e outras técnicas de artistas como Tarsila do Amaral, Fayga Ostrower, Ruben Grilo, Aldemir Martins, Glênio Bianchetti, Volpi, Lívio Abramo, Cícero Dias, Maciej Babinski, entre muitos outros. Há peças de arte popular de Cuba, peças de artesanato indígena brasileiro e colombiano, e uma coleção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com peças indígenas do Tocantins. 

A CAL não tem espaço adequado para expor tantas obras, que ficam guardadas em locais a que  o público não tem acesso, a não ser quando eventualmente cedidas para exposições em outras entidades. “Não temos a intenção de fazer da CAL um depósito, por isso sempre cedemos obras”, explica a diretora da Casa, professora Geralda Dias, da Comissão que estuda o projeto do Museu. 

Outro setor que poderia ser incorporado ao Museu é a Seção de Obras Raras da Biblioteca Central, com três mil títulos, entre os quais relíquias como os Códices Medievais, livros manuscritos portugueses do século XIV; cartas de escritores como Ruy Barbosa, Carlos Drummond de Andrade, Camilo Castelo Branco, entre outros; originais manuscritos como “As razões do coração”, de Afrânio Peixoto, e “Água-Mãe”, de José Lins do Rego, além de obras únicas, como a coleção “100 bibliófilos do Brasil”, com edições personalizadas e ilustradas de livros de Castro Alves e Machado de Assis, entre outros.

Andreoli explica que ainda é cedo para definir o que seria incorporado pelo acervo do futuro museu, mas observa que reunir bens de grande valor em um único local evitaria o risco de perda ou dispersão. Por isso, algumas das obras sob a guarda da Seção de Obras Raras da Biblioteca Central, como o óleo sobre tela “Agripino Grieco e amigos”, de Galdino Guttman Bicho, e uma coleção de serigrafias de Fayga Ostrower, deverão ser transferidas para o Museu. 

Parte do acervo da UnB está distribuída em diversos locais do campus. É o caso do busto de Simon Bolívar, ao ar livre, em frente à Biblioteca Central; a escultura Índia Potira, de Brecheret, na entrada do Auditório Dois Candangos; a escultura Sem Título, de Ceschiati, na Casa de Oscar Niemeyer, localizada no bairro Park Way e adquirida pela Universidade, e a deusa Minerva, na entrada da Biblioteca Central. O Monumento à Cultura, de Bruno Giorgi, fica em frente ao prédio conhecido como Oca, o mais antigo do campus, construído em madeira segundo o modelo do Catetinho, antigo palácio improvisado que abrigou o ex-presidente Juscelino Kubitschek durante a construção da capital e hoje tombado pelo Patrimônio Histórico. 

A Oca, no estudo original do Museu Universitário, deveria passar por uma adaptação para servir-lhe de sede. Mas o professor Andreoli descarta essa possibilidade. “A Oca precisaria de uma grande restauração, o que ficaria mais caro que a construção de um edifício novo, já voltado para essa destinação”, afirma. 

Apesar da indefinição do local onde ficará o museu, já se tem alguma idéia de como será o novo prédio:  deverá ocupar uma área de cerca de 6 mil metros quadrados. O projeto arquitetônico deverá surgir de um concurso interno na universidade. A Comissão tem se reunido freqüentemente para discutir o assunto, mas o processo é reconhecidamente lento. “Temos muitos detalhes a estudar, mas tudo andará mais rápido a partir de um seminário que faremos para envolver a comunidade universitária e o público externo nessa discussão”, promete Andreoli. O Seminário deverá acontecer ainda no primeiro semestre deste ano. 
(Abril/2004)

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A viagem dos livros

 Quatrocentos camelos, treinados para andar em ordem alfabética, conduziam os 117 mil volumes da biblioteca do grão-vizir da Pérsia, Abdul Kassem Ismael, para que não se separasse dos livros quando viajava. Isso aconteceu no século X; hoje os livros estão por toda parte. Em Brasília, a cidade brasileira onde mais se lê, segundo pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL), há pelo menos 900 mil livros disponíveis para consulta, nas bibliotecas públicas mais importantes. 

Parece muito? A Biblioteca Nacional, sediada no Rio de Janeiro, possui 8,5 milhões de volumes. Seu acervo teve origem em Portugal e chegou ao Brasil em 1807, com a família real que fugia das tropas de Napoleão. Brasília, que não é desse tempo, já sonha com sua própria Biblioteca Nacional, que terá cinco andares, com área total de 11.500 metros quadrados, a ser construída entre a Catedral e a Rodoviária. 

Parte do Conjunto Cultural da República, a Biblioteca Nacional de Brasília deverá estar pronta em 2006, segundo o cronograma do governo do DF. Até lá, consumirá R$ 33 milhões, pelos cálculos iniciais. O secretário de Cultura, Pedro Henrique Bório, prevê participação da iniciativa privada e do governo federal para torná-la “ponto de referência para pesquisadores e estudiosos”, mas ninguém tem ainda idéia clara sobre a composição ou administração do acervo.

OFICIAL

Por enquanto, a biblioteca oficial da capital é a Biblioteca Pública de Brasília, vinculada à Secretaria de Cultura. Com um acervo de 60 mil livros, ocupa um antigo micromercado da Sociedade de Abastecimento de Brasília (SAB), na entrequadra 512/513 Sul. Foi criada em 1990, graças às doações da comunidade e às viaturas das Rondas Ostensivas Candangas (ROCAM), que recolhiam os livros. Apesar do pouco espaço para consultas, que obriga parte dos leitores a se acomodar em mesas ao ar livre, a Biblioteca Pública atende a uma média mensal de 16 mil usuários, com cerca de 7 mil empréstimos.

A Diretoria de Bibliotecas Públicas do DF administra 20 bibliotecas, das quais a maior é a da Ceilândia. De lá veio Maria das Graças Pimentel, recentemente nomeada Diretora de Bibliotecas. Uma de suas propostas é promover a total integração da rede até o final deste ano. Maria das Graças também pretende intensificar as atividades culturais, como encontros com escritores e contação de histórias, para movimentar as bibliotecas e integrá-las à comunidade.

 As doações da comunidade são responsáveis por 80% do acervo das bibliotecas do GDF,  segundo Graça Pimentel. Na Biblioteca Pública de Brasília, esse percentual chega a 98%, informa o gerente Marcelo Santana. “Temos um acervo de grande qualidade”, observa, citando, entre as principais coleções, a Estante do Escritor Brasiliense, a Coleção Brasília, sobre a história da cidade, e as obras de referência.

AMIGOS

A falta de recursos para atualização dos acervos é o maior problema de algumas bibliotecas, especialmente aquelas subordinadas ao Governo Federal e GDF. A Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB), vinculada à Biblioteca Nacional e ao Ministério da Cultura, encontrou um paliativo: a criação da Sociedade dos Amigos. Seus pouco mais de 1 mil sócios pagam semestralidades de R$ 20,00 ou R$ 10,00 (estudantes), em troca de algumas vantagens ao fazer empréstimos ou cursos. Verbas oficiais para aquisição de livros não chegam há quatro anos, e o cofrinho da Sociedade dos Amigos de vez em quando é aberto para fins menos nobres, como o reparo de um computador ou de um bebedouro.

Localizada na entrequadra 506/507 Sul, a BDB atende cerca de 1.500 usuários por dia. Seu acervo é de 80 mil livros, dos quais mais de 500 de escritores de Brasília. De acordo com sua coordenadora, Maria da Conceição Moreira Salles, muitos livros do acervo são cedidos pela Biblioteca Nacional, depositária legal de todos os títulos publicados no País. A Biblioteca mantém intensa programação de cursos, exposições e outras atividades, mas Conceição, há 20 anos na coordenação da BDB, lamenta a falta de bibliotecários e outros funcionários.

HISTÓRIA

A história de Brasília se confunde com a de suas bibliotecas. A primeira da cidade, ainda durante a construção, foi a Biblioteca de Obras Raras do Palácio da Alvorada, montada pelo livreiro carioca Carlos Ribeiro a pedido do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Com a mudança da capital, vieram as da Câmara dos Deputados, do Senado e do Supremo Tribunal Federal (STF), abertas ao público, porém com restrições. Hoje, quase todos os ministérios possuem suas próprias bibliotecas. 

A Biblioteca Pedro Aleixo, da Câmara, possui publicações em todas as áreas do conhecimento, com ênfase em Ciências Sociais, especialmente Direito, Economia e Ciência Política. São 300 mil livros, incluindo 4 mil volumes de obras raras. A consulta é aberta a todos os interessados, mas o empréstimo domiciliar é restrito a parlamentares, funcionários e consultores do Senado, além de 14 outras bibliotecas da esfera federal e órgãos do Distrito Federal, integrantes da Rede Virtual de Bibliotecas Congresso Nacional (RVBI).

A Biblioteca do Senado também é aberta ao público para consultas, mas empréstimos são restritos a parlamentares e funcionários, além das bibliotecas da RVBI. São 150 mil livros, 6 mil dos quais acrescidos no ano passado, sendo 4 mil por aquisição. Em 1997, foi adquirida a coleção particular do senador Luiz Viana Filho, com 10 mil volumes, incluindo obras raras. 

Universitárias 

Também com empréstimo restrito, há a opção das bibliotecas universitárias. As mais importantes são a da UnB e a do UNICEUB. A da UnB tem 306 mil livros. A Seção de Obras Raras, com três mil títulos, possui relíquias como os manuscritos portugueses do século XIV, guardados num cofre. Naquela seção estão ainda os originais do romance “Água-Mãe”, de José Lins do Rego, edições autografadas por Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e outros autores, além das primeiras edições do Correio Braziliense, publicadas em Londres, e coleções completas de periódicos que fizeram história, como Careta, Pasquim e Opinião.

A Biblioteca da UnB foi enriquecida pela aquisição de coleções importantes, como as do ex-governador Carlos Lacerda e do crítico literário Agripino Greco. Já o acervo geral padece de problemas como furto ou vandalismo, de difícil dimensionamento, porém constatável no movimento do Setor de Restauração. Ali, cinco funcionários recuperam uma média diária de cinco a oito livros rasgados ou mutilados, além daqueles desgastados pelo uso. 

O problema é bem menor no UNICEUB, cuja biblioteca possui moderno sistema de controle, incluindo a magnetização de todos os 170 mil livros do acervo. A entrada e saída do público também é controlada. São 5 mil pessoas por dia, sendo 90 visitantes. Os empréstimos, a exemplo da UnB, são restritos a professores, estudantes e funcionários, e há a possibilidade até do auto-empréstimo, por meio de um sistema recém-implantado. A tecnologia também permite a consulta, via internet, de textos de 7.800 periódicos internacionais, de 1990 até hoje. 

Embora ainda não possua uma biblioteca de grande dimensão, Brasília tem centenas de milhares de livros disponíveis à população, espalhados em órgãos públicos, embaixadas e outras instituições. Apesar dos altos preços e da falta de compromissos do poder público, o brasiliense tem tudo para manter o status de melhor leitor do Brasil. 
(Setembro/2003)

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