Navegue para conhecer o trabalho do poeta e jornalista Alexandre Marino.

Leia alguns poemas de meus primeiros três livros publicados...

Ou clique aqui para ler alguns poemas do mais recente, Arqueolhar.

O delírio dos búzios, terceiro livro de Alexandre Marino

Todas as tempestades, segundo livro de Alexandre Marino

Os operários da palavra, primeiro livro de Alexandre Marino

O DELÍRIO DOS BÚZIOS
1999

Cenas & cenários
Nosso herói
As cinco estações

TODAS AS TEMPESTADES
1981

A lua cheia quer se banhar no rio
Paródia  
Amor lunático

OS OPERÁRIOS DA PALAVRA
1979

Avoagem 
Na praça do mundo 
São João Batista do Glória 


  CENAS & CENÁRIOS

(versos para (in)compreender a solidão humana)

Fogem da lua os cavalos brancos de Dali
e vêm pastar na rua
os restos de fondue.

Rompem os círculos os relógios na primavera.
A consciência humana se desfaz
sob o sol de outras eras.

Há sinais de vida nos objetos.
Um homem invisível
vive na alma de um castelo.

Os mistérios perdem-se no karma.
Dali retorna insone
à noite de Gala.

A solidão é azul e secreta
como olhos fechados.
Um corpo feminino se desnuda e mira
o infinito
que penetra pelas frestas
das janelas.
O silêncio é branco e dói.
Uma estrela subverte a solidão.

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NOSSO HERÓI

 Pisa a sujeira das ruas
como quem passa o mundo
a limpo

No elevador
é quem mais pensa
na vida

E ao ter o mundo a seus pés
atira-se do último andar
e realiza
o nosso sonho de voar

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AS CINCO ESTAÇÕES

1. Deslumbramento

Guarda as surpresas em becos escuros,
enterra sorrisos à sombra das andrômedas,
foge para a terra plana, que a história espera;

a cidade se oferece sensual aos suicidas,
reminiscência de um tempo natimorto
na dispersão veloz das avenidas;

devora a rosa dos ventos, perde o norte,
ancora teus passos erradios na chegada
a esse mar de sal nas encostas do nada.

2. Desengano

Aqui vivem as distâncias, o êxtase aziago,
o destino que acatas, sonhos e epitáfios,
tempestades de areia sob tapetes persas;

Vieste por insônia, insolência ou loucura,
um olhar sedutor da criatura de pedra,
o sorriso derramado sobre a terra seca;

Encantam-te a prostituta que se faz de casta,
olhares desamparados de mercadores de almas,
simulacros de deuses que suplicam oferendas.

3. Desespero

Sob suas bênçãos, a virgem acalenta
o sonho dos filhos da pátria adormecida,
e acorda cega ao primeiro estupro;

ela se cobre com um véu sem nuvens,
viagem de pássaros incultos
que defecam sobre formas eternas;

o desespero, esse abismo noturno,
alvora o deus informe, que te arrefece
à sombra das árvores paraplégicas.

4. Demência

Cá’stou, senhora, submisso aos enganos,
conduzo tesouros em malas vazias,
leso soberano de extintas aldeias;

envenenado pelas flores do mal,
adorno da vagina devoradora de almas,
que expele crianças sobre o asfalto;

inóspito futuro de miragens de pedra,
cumpre a meretriz seu destino e demência,
de atirar sementes sobre a terra seca.

5. Despedida

Criatura pérfida, de olhos vermelhos,
arquipélago de areia e totens ególatras,
que gargalham vomitando gravatas;

a vida acontece ao redor de uma cruz,
morrem os náufragos de saudades do mar,
mirando horizontes traçados a régua;

deuses entorpecidos no pecado original
revelam a fórmula da felicidade
a economistas que tramam o juízo final.

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A LUA CHEIA QUER SE BANHAR NO RIO

(Ao povo de Groaíras, Ceará)

todo dia
o sol morre vermelho de sede
no leito seco do Rio Groaíras
e se sepulta entre as carnaúbas

todo dia
os homens plantam a esperança
às margens da poeira do rio
e tentam desenterrar
de suas cacimbas
algo além da fome e da fé

todo dia
os homens levantam o rosto
para o céu
e tentam encontrar algo mais
que nuvens de chuva ou a lua cheia

quando, enfim, um dia
o inverno as águas semeia
os homens assistem à terra molhada
fertilizando a fome
ou tristes colheitas
que se esgotarão à primeira festa

todos os dias e todas as noites
os homens aguardam idas e vindas
pelos campos e pomares
constatando após muitas esperas
que a chuva não engorda seus salários

todo o tempo
por mais que o tempo mude
todos continuam famintos e distantes
e a lua cheia segue a procurar
um leito de rio onde possa se banhar

por que durante todo esse tempo
as coisas continuam sem mudar
como o curso de um rio eterno
que constrói açudes e desertos?

Por mais que a chuva chova
e a terra a sugue
não secará a apreensão da volta
desse rio minguante
por onde a água escorra
até que o sol a mate.

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PARÓDIA

as flores de nosso jardim
foram implantadas à sombra
para não perderem a cor

ainda que plásticas
sugaram da terra a seiva
natural
e morreram todas de saudade
do sol.

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AMOR LUNÁTICO

Lua, lua
Hoje tu serás a minha musa
na falta de outra mais completa
ou complexa
e emocionantemente distante

Lua te recordo quando em antigo tempo
- estavas nova -
eu te olhava e assim me seduzias
enquanto eu buscava os reflexos
de um amor perdido
em outra parte do planeta
ou do universo

Lua te desejo porque és todos os espelhos
e tuas curvas me cativam e castigam
és um apelo exótico em solitárias noites
e o lençol negro que te envolve
me acalma de todos os açoites

Lua macia
me sufocas a cada chuva
em que me gotejas suor
e eu morro à míngua
ante tuas viagens ao meu redor

Triste me fazes diante da eterna agonia
de percorreres espaço tão gigante
sem passar por onde te espero
hei de ser sempre dúvidas e desejos
pois sem saber se há deus ou astronautas
nem ganhar-te um beijo
o que mais fazer eu poderia?

Mantenho o noturno sonho
de temperar-te com estrelas
e lamber-te o dorso
em imortal orgia.

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AVOAGEM

O velho guerreiro avoava sobre a vida
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava

Ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro

Ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza

E quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.

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NA PRAÇA DO MUNDO

(à turma da UPES)

Era um bando de meninos velhos
que percorria o mundo numa bicicleta
sem freios

e toda vez a gente suspirava
era porque naquela hora se lembrava
com medo

de que num tempo antigo
a gente cresceria bem depressa
sem tempo

e pedalava sobre a ponte da barrinha
tropeçando na lama
ficada da enchente
no chão

e se de repente
se arrebentava num buraco
na estrada

gargalhava de medo
do tempo parar

mas é inútil pensar que não fosse bom
jogar sinuca babando de medo
que um soldado nos enxergasse do balcão

e a gente metia o pé na bola sete
em direção ao gol do mundo
escondido atrás do horizonte

era muito de raiva que a gente se ria
ao cuspir nas caras caladas
de pavor detrás da cortina

e hoje a gente se escondia naquele tempo
debaixo da sai da revolução que fizemos

e tudo isso era no tempo hoje chegado
que antigamente a gente se alastrava

entre essas montanhas que nos isolavam
e tendo as nuvens como pára-sol
nossas mãos se davam pelos ares
e nos conduzem até onde nos estarão

agora em silêncio nos ruidamos
mesmo que pedindo licença
e em terra firme nos debruçamos

pois viemos dela, de rios e de voar
esses pobres meninos de Minas
que não se esqueceram
de que lado fica o mar.

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SÃO JOÃO BATISTA DO GLÓRIA

são joão batista do glória
é mais que a margem do rio
é menos que um domingo vazio
é mais que a margem da história

são joão batista da usina
transformando os homens em açúcar
sem contudo se adoçarem nunca
porém sempre engrossando a vinha

são joão batista, operária
do pó da terra, sem asfalto
mesmo que os aviões, lá do alto
a violentem e maltratem

são joão batista, rancheira
só o rio grande confidencia
aquilo que em segredo se cria
em sua vida usineira

são joão batista existe
mesmo que em silêncio, isolada,
não seja a história contada
de seus homens loucos e tristes

são joão batista, anônima
é mais que a morte aparente
que leva os homens em corrente
para seu estado de coma.

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