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O começo de tudo, lá no interior do Brasil
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Antônio Barreto,
Alexandre Marino e Carlos Parada realizam a primeira reunião da revista Protótipo no Bar do Décio, em Passos, em agosto de 1972. |
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Em 1972, com o país sufocado por uma ditadura militar mas buliçoso de criatividade e utopias, a literatura tornava-se nosso instrumento de rebeldia, nossa borduna. Adolescentes, ou melhor, mutantes, passávamos da fase de alunos-bons-de-redação para a de escritores-em-início-de-carreira, com um estágio no jornal da Upes, que apelidamos de Liba por não suportar seu horrível nome de batismo, O Liberal. Naquele ano, eu, Antonio Barreto, Marco Túlio Costa e vários outros aprendizes de escritores fundamos a revista Protótipo, como veículo de expressão independente. O grupo aprendera a se manifestar nas páginas dO Liberal, jornalzinho de adivinhações, fofoquinhas, aniversariantes-do-mês e outras abobrinhas, que transformamos numa publicação de pretensões literárias que deixou perplexos os professores, anunciantes, artistas e os próprios estudantes da cidade. Conscientes da efemeridade de sua permanência na diretoria da Upes e do jornal, aquele grupo de aprendizes de escritores decidiu criar a sua revista, movida apenas pela necessidade vital de expressão, de trabalho com as palavras. Protótipo era alimentada pelos conselhos de alguns professores e escritores, pelo material doado pelas papelarias da cidade e por contribuições financeiras de comerciantes, não raro nossos parentes, e, acima de tudo, pela nossa viagem pessoal. MONGES ZEN O processo de edição dos primeiros números não podia ser mais rudimentar: datilografávamos nossos textos sobre estênceis, finas e frágeis folhas de papel que depois serviam de matriz no mimeógrafo a tinta, onde rodávamos manualmente página por página, para depois encadernar e grampear. As ilustrações, também feitas por nós, exigiam uma paciência de monge zen, porque os desenhos sobre o estêncil eram feitos ponto a ponto com um instrumento ponteagudo como uma agulha. Assim trabalhávamos, assim nos divertíamos. A província não era pródiga em lazer para a juventude, mas isso não era problema: na verdade, criávamos nossas próprias opções de atividade, e o lazer era apenas acessório. Não tínhamos computadores, video-games e detestávamos televisão, aquela máquina-de-fazer-doido. Promovíamos festinhas, namorávamos, brigávamos; depois, todas as nossas aventuras e frustrações se transformavam em peças literárias, debatidas em reuniões e publicadas no Liba, que tinha como segundo apelido "o pasquim da Praça da Matriz". Nesses debates, descobrimos que para praticar a literatura deveríamos romper as fronteiras da vivência pessoal. Poesia para as namoradas? Podia até ser, desde que os versos trouxessem na essência aquela dose de inventividade que os diferenciasse dos rabiscados em cadernos infantis. Quando lançamos Protótipo, tínhamos uma proposta mais avançada do que a poesia-piada, descartável, cópia malfeita de Oswald de Andrade, que ampla parcela do chamado movimento marginal, em gestação, começava a promover, e estávamos distantes das poesias-de-dor-de-cotovelo. ROMPER AS ESTRUTURAS Queríamos ser vanguarda, romper as estruturas, misturando influências que iam do realismo mágico hispano-americano à linguagem jornalística do O Pasquim, passando pela releitura de Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa, Murilo Rubião... Tateávamos em busca de uma literatura de imagens fortes, uma reunião inusitada de palavras, versos lisérgicos como os de The Dark Side of the Moon, de Pink Floyd, textos que chocassem as pessoas. O peiote de que Carlos Castañeda falava nos deixava curiosos, mas era a literatura que nos abria as portas da percepção. Estávamos preocupados em desempenhar um papel social que não se restringisse a farras memoráveis. Está certo que nos divertíamos apostando corrida pelados na Praça da Matriz de madrugada, dormíamos bêbados na escada do altar da igreja durante a missa do galo, tocávamos no serviço de alto-falantes o rock-rural Ama teu vizinho como a ti mesmo, de Sá, Rodrix & Guarabyra, só para enervar os vizinhos, quebrávamos o silêncio noturno tocando o sino do cemitério. Mas fazíamos essas coisas nos momentos de lazer; éramos, na verdade, pessoas sérias, preocupadas com os destinos da humanidade. E que destinos. O mundo vivia pelo menos uma guerra, estúpida como todas as guerras, e brasileiros eram torturados, exilados, assassinados por uma ditadura militar cuja meta era destruir a inteligência no país. Tínhamos a pretensão do cosmopolitismo, da universalidade. Todos éramos escritores, e por meio da literatura procurávamos nosso lugar no mundo. Naturalmente, a maior parte do grupo acabou encontrando sua identidade em outros campos de atividade, mas se a literatura permaneceu na alma de alguns de nós, tudo o que vivemos naquela época se salvou do naufrágio da adolescência: é parte de nosso presente. Essa vivência foi das poucas coisas que cada um de nós levou ao deixar Passos em busca de novos rumos. Barreto para Belo Horizonte, Túlio para Brasília, Rio de Janeiro e, novamente, Passos; eu para Belo Horizonte, depois Brasília. OUTRAS VIAGENS Em Belo Horizonte, publiquei dois livros de poesia Os Operários da Palavra, em 1979, e Todas as Tempestades, em 1981 co-editei outras publicações literárias, ganhei vários prêmios e participei de outra rica experiência no campo da literatura, que começou de forma semelhante à Protótipo, com a reunião gradual de vários jovens em torno de um interesse comum. Eram os poetas "independentes", que se encontravam durante peregrinações pelos bares em busca de consumidores para seus livros. Outra conjunção de fatores propiciada por aquele mesmo momento histórico passou a nos reunir, todos os fins de semana, no alojamento universitário Borges da Costa, um hospital desativado tomado às forças pelos estudantes da Universidade Federal de Minas Gerais que não tinham lugar para morar. Ali, aconteciam os ensaios dos recitais poéticos que promovíamos em bares, festas, lançamentos de livros, eventos culturais, "calouradas" ou onde houvesse gente para nos ouvir. Aquele grupo de poetas Sérgio Fantini, Avanilton, Almir Rosa, Rita Espeschit, Marcos Gerion, Li Egg, entre muitos outros resgatava, assim, o poder sonoro da poesia. As palavras que pronunciávamos, a altas vozes ou sussurradas, eram a metáfora dos estudantes reunidos em atos públicos enfrentando a polícia. A prática nos remetia aos saraus dos tempos de Castro Alves, poeta que nos inspirou a adotar o 14 de março, data de seu nascimento, como Dia Nacional da Poesia, quando realizávamos as memoráveis passeatas poéticas, distribuindo versos à população nas ruas de Belo Horizonte. Também lançamos as guerrilhas poéticas, que tomavam de assalto lugares públicos para recitais relâmpagos, tudo isso planejado durante os encontros dominicais promovidos pelo pessoal do Poesia Livre, de Ouro Preto, na Feira de Artesanato da Praça da Liberdade, próximo ao coreto, onde vendíamos livros e expúnhamos versos em folhas de papel penduradas em varais. A poesia era, enfim, uma atividade visceral. JORNALISMO Paralelamente às atividades poéticas, eu estudava jornalismo na Universidade Católica. A opção pelo jornalismo era totalmente influenciada pela minha paixão pela literatura. Formado, passei a identificar no meio profissional o preconceito contra os jornalistas que não abandonavam a poesia ou a ficção, ainda hoje consideradas mero "arroubo de juventude", precursoras de atividades "mais sérias". Por ironia, muitos desses jornalistas que torcem o nariz para escritores estão correndo como cães famintos atrás das migalhas declaratórias dos políticos nos corredores do Congresso Nacional, como se a História pudesse ser construída sobre um pedestal de cinismo. A História, na verdade, é contada com muito maior substância nas páginas de alguns clássicos da literatura, por personagens cujos registros de nascimento jamais serão encontrados em qualquer cartório, porém mais verdadeiros do que muitas pessoas de carne, osso e vácuo que freqüentam os palcos coloridos dos horários nobres. O melhor do jornalismo é aquele que se faz nas ruas, onde reside o ponto de maior aproximação entre as duas atividades. A literatura pode ser recolhida em qualquer lugar onde exista um ser humano ou sinais de sua passagem. Seus elementos vêm do interior da alma, e o caminho para esse mergulho não são necessariamente palavras. Pode ser um simples olhar. A literatura conta verdades captadas pelas lentes da observação e da invenção, independente de "checagens", "ganchos", "apurações". O que me fascina na literatura é a liberdade de criação de um mundo e uma lógica próprias, com a consciência, ou não, de que dentro desse mundo nascerão seres à imagem e semelhança dos humanos, porque frutos de sua mente, de suas emoções, de sua experiência vital, o que a torna uma maravilhosa fonte de informações sobre a humanidade. MERGULHO Alguém que não compreende muito bem essa atividade poderia perguntar a um escritor por que tanta dedicação a um ofício que não se encaixa em definições como profissão, meio de vida, lazer, passatempo, hobby. Eis talvez a pergunta mais ouvida pelos escritores por que escrever. Muitos a repetem infinitamente a si próprios, e mais ainda num país como o Brasil, onde são altos os índices de analfabetismo, e a fascinação pela mídia visual antecedeu irreversivelmente a formação de uma população alfabetizada, leitora e pensante. A resposta, a que não se chega antes de muitos conflitos interiores, frustrações e questionamentos, é talvez mais simples do que imaginamos escreve-se pela necessidade de fazer esse mergulho para dentro de si mesmo, não como indivíduo, mas como ser humano, e para contribuir com sua própria experiência para um acervo composto por grandes descobertas. Sim, mas isso ainda é viável nestes tempos de pós-modernagens, em meio a globalizações, TVs a cabo, Internet, multimídias, interatividades, efeitos especiais, telefones celulares, tamagoshis? Para responder, lembremo-nos também de que estes são também tempos de superpopulação, fome, contaminação, desigualdades, chuva ácida, McDonalds, massacres, medo, narcotráfico, catástrofes nucleares, seqüestros. Tempos de saturação e banalização do terror. Mais do que lutar contra governos, é importante agora o homem lutar contra si mesmo, contra a sua porção menos nobre a ganância, o egoísmo, a ostentação, a opulência. Disse Raduan Nassar, um escritor que abandonou a literatura: "As futuras gerações não conseguirão compreender o significado da palavra solidariedade." A literatura é a ferramenta que me ajuda a encontrar o meu espaço dentro desse tempo que, por mal ou por bem, é o meu tempo. Como na época de Protótipo, creio que escrever tem algo de transgressão. Cada um transgride de acordo com suas crenças ou falta delas; para uns, transgredir é fazer uso de drogas, para outros é atear fogo ao corpo de quem dorme nas ruas, para alguns é cumprir rigorosamente as leis, na contramão da transgressão generalizada. ESTADO DE ESPÍRITO A escrita é conseqüência, acima de tudo, de um estado de espírito é preciso, portanto, coragem e convicção para se dizer "escritor", mesmo que não se possa definir com precisão que tipo de atividade é essa. Esqueçamos as estatísticas que apontam para a redução do número de leitores, para o fim do livro, e outros dados que variam de acordo com os modismos, as tendências do consumo e as fórmulas da economia. A arte, no geral, e a literatura, no particular, apontam o caminho para que a humanidade mantenha a fé em si mesma e não retorne ao caos. É razão suficiente para que, quase três décadas depois do início dessa aventura, longe de almejar os píncaros de qualquer olimpo, assumamos definitivamente o prazer de gerar criaturas tão estranhas, e continuemos fabricando versos tão surpreendentes como as manifestações de nossa alma, e prossigamos nessa busca que, geração após geração, não se encerrará jamais: a revelação do mistério humano. (Este texto foi redigido em 1997, para a edição de um livro comemorativo dos 25 anos de lançamento da revista Protótipo. Embora o livro não tenha sido publicado, o depoimento permanece.) |
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