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A casa e o tempo
Séculos duram o tempo de um relâmpago
e as pedras se derretem
aos olhos fechados da memória.
A velha casa empedra-se no tempo
sobre a alma da terra
onde algum dia houve o nada,
o silêncio, desconhecidos elementos.
Algum deus inventou essas paragens
e houve de prever o que nem sabemos;
sobre o solo pousaram estas pedras
estáticas ao redor da viagem que invento.
Os séculos duram o tempo de um relâmpago
e relâmpagos cruzam o céu dos séculos.
Eis o espaço desta casa e seu espectro
e o espectro da criança senhora dos segredos
— uma e outra para sempre humanas.
Alexandre
Marino
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Paisagem doméstica
É inverno, não importa o tempo, as horas.
O inverno se esconde nos raios do sol.
O fim de tarde arranha as gargantas.
Seres invisíveis inventam a escuridão.
Fecham-se as portas, a gente desvaira.
Um cheiro de café aponta o horizonte.
Deus implora abrigo entre as cortinas.
Pássaros guardam os cantos no terraço.
Vozes velejam no limiar do silêncio.
Notícias antigas no rádio invisível.
Vestígios de velhas fábulas.
Ninguém sabe a história inteira.
Evocam-se vazios invulneráveis.
O tempo é feito de destroços.
Alexandre
Marino
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Senhor do terreiro
A casa de chocolate exala
um perfume de dama da noite.
Gotejam aventuras das roupas encharcadas
a secar ao sol.
Pequi ladra na madrugada
para os fantasmas que dormem.
Dragões devoram embarcações
e cospem fogo
sobre as naves espaciais.
O progresso chega à horta,
estradas serpenteiam entre roseiras
e pés de alface.
Heróis sobre cavalos-de-pau
descrevem terras inexploradas,
alertas aos gritos de socorro
vindos do fundo do quintal.
São indefesas as galinhas
diante da fúria dos galos,
ao herói cabe salvá-las.
À sombra das mamonas,
uma banda de música aclama
o senhor do terreiro,
magnata dos pedregulhos,
mágico inventor do mundo
e seus refúgios.
Alexandre
Marino
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Receita
No início, nada além de caos e fome
e uma rua que jorrava diante da janela.
Trouxeram farinha de trigo, açúcar, ovos,
que mãos remotas entornaram na gamela.
O mundo era um deserto sem destinos,
só um pouco de sal, bicarbonato, canela.
Havia ainda óleo de milho e margarina
para que a história se tornasse eterna.
Avó e tias trabalhavam com esmero
invocando o poder divino das essências
tempero do tempero de tantas iguarias;
O forno exalava calor e esperança,
que na mesa da cozinha se servia
para adoçar os abismos da infância.
Alexandre
Marino
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Carta a Mariazinha
Onde andará Mariazinha,
com seu triste olhar de susto
e rosas desamparadas?
Mariazinha fugiu pela estrada
levando uma bolsa
onde não cabe nada?
Mariazinha quer chorar, pois o mundo é grande,
tem a vida à espera, mas a vida
não é mais que fastios e enganos.
Mariazinha mira o desconhecido,
não sabe do efêmero e de infortúnios
nem conhece esperanças.
Mariazinha tem um sonho,
e só nesse instante
soube entendê-lo, e nunca mais.
Mariazinha, teu olhar de susto
mira essa avalanche
de neve, lavas, palavras,
varrendo entrelaçadas
montanhas e praças.
Mariazinha, não sei o que fazer por ti,
o meu olhar te acompanha
nesse não haver distante
Quando nem infância nem velhice
trouxerem fantasias ou respostas
também me perderei nesse semblante.
A única herança
que recebemos de mãos dadas
é esse encontro, essa despedida
e o mesmo olhar de espanto
com que miramos o mundo
ao soar a avalanche,
nossa volta ao ponto de partida.
Alexandre
Marino
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Bazar
Os lápis não escrevem,
apenas pensam.
E aguardam um chamamento
que desperte os objetos
no escuro do bazar.
A noturna reza dos santos de gesso
pela vida que se foi e permanece.
Correm as contas dos rosários
pelos pregos das paredes.
No canto, Tia Nezita borda um monograma
à espera do freguês e sua busca por um sonho,
um milagre, um pente,
uma escova de dentes, uma xícara,
um consolo.
O bazar vende crenças e milagres
ocultos no velho armário.
Estampas de São Pedro e São João
para seus dias de glória em junhos.
Entre prateleiras de madeira,
cartões de Natal,
votos de Feliz Ano Novo,
dormem os fantasmas que nenhum futuro,
nenhuma guerra planetária,
afastará daquele pequeno mundo a extinguir-se.
Alexandre
Marino
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A árvore
Algo humana, alimenta-se de almas.
Há um olhar em cada folha,
certo movimento solidário,
no caminho que seus galhos percorrem.
Há de ser centenária
para tanto poder
nesse silêncio,
na suave dança com o vento,
no aconchego de seu movimento.
Uma árvore não é uma árvore
se parece chorar,
ao se debruçar sobre a cidade
e proteger
a fragilidade dos homens.
Muito além de humana,
essa piedade vegetal, eterna rama,
dá sombra a gerações obscuras,
sem dor ou sorriso, sequer um sinal.
Ela expia pecados sem perdão
ao espelhar os olhares
adormecidos em seu colo.
Uma árvore é lição de vida
quando recolhe em seus braços
— como pássaros —
as almas que sorve pelas raízes;
E se acaricia o concreto,
parceiro de futuras batalhas,
faz feliz quem visita uma cidade.
Centenária,
conserva o sorriso de criança.
Alexandre
Marino
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Estação fantasma
O último trem esvai-se entre cães e formigas,
desfeito em fumaça, névoa de lágrimas,
não despedidas, mas desviagens.
Nada se move sobre os dormentes,
pássaros noturnos farejam a terra áspera.
O último trem é mera relva,
nem alimento, nem daninha, nem paisagem.
Destino perdido, futuro sem estradas.
Qual a direção do horizonte,
pergunta o condutor a seu fantasma.
Insepultos motores ardem
um país em pânico à espera.
Almas desnascidas repousam na estação
diante das sombras do sol entre as trevas.
Aqui plantaram a pedra que chora
e os deuses sobre a pedra outra selva.
A terra sangra.
O último trem esvai-se
sobre a História que resta.
Alexandre
Marino
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