Arqueolhar é o quarto livro de poemas de Alexandre Marino.

Pontos de venda do Arqueolhar

Leia a seguir o que disseram
sobre o livro de poemas de Alexandre Marino

Infância no tempo presente
Arlete Soares Porto, Folha da Manhã, Passos (MG), 20 de maio de 2006,
anunciando o lançamento do livro na cidade

O sereno domínio do verbo
Antonio Olinto, Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 2 de maio de 2006

Um estudo do escritor goiano Pedro Paulo Ernesto
Goiânia, agosto de 2005

"Arqueolhar" à memória e maturidade  
Entrevista a Alécio Cunha, Hoje em Dia, Belo Horizonte, 24 de outubro de 2005

Um poeta que crê na força da linguagem
Ronaldo Cagiano, Jornal do Brasil, Caderno B, 16 de outubro de 2005

Inventário afetivo das raízes
Ronaldo Cagiano, Estado de Minas, Caderno Pensar, 8 de outubro de 2005

Arqueologia poética
Uma inspirada viagem pelo tempo e pela memória
Ricardo Pedreira, Revista Roteiro Brasília, n. 82, segunda quinzena/setembro/2005

Capa de Arqueolhar, quarto livro de poemas de Alexandre Marino

Poemas do livro


Pontos de venda do Arqueolhar em Brasília

As livrarias listadas a seguir têm o livro Arqueolhar - de acordo com informações da editora e dos distribuidores. O autor sugere aos interessados que telefonem antes para se informar e solicita encarecidamente que qualquer dificuldade ou contratempo lhe seja comunicado imediatamente, pelo e-mail sitio[at]marino.jor.br

Arqueolhar também está disponível no site da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br), podendo ser adquirido via internet. Também pode ser encontrado em livrarias de outras localidades, assim como em lojas virtuais.  

Café com Letras / 203 Sul
3322-4070, 3322-5070

Cotidiano / 201 Sul
3224-3439

Cultura / Casa Park
3410-4033

Esquina da Palavra / 406 Norte
3039-7979

Livraria da Rodoviária
3224-9808, 3224-9850

Livraria do Chico / UnB-Minhocão
3307-3254

Nobel / Gilberto Salomão
3364-5457

Nobel / Pátio Brasil
3224-5294, 3321-9012

Quiosque do Ivan / Conic
3225-2832

 

volta ao topo


 

Infância no tempo presente

Arlete Soares Porto Costa

O que foi feito daquele menino de Passos que em sua casa - cenário e palco - inventou heróis para o cineminha, brinquedo guardião de idéias e fantasias? O que foi feito do sabor das frutas no quintal, das quitandas preparadas pelas tias em tardes mineiras? E o palhaço Aço, companheiro do menino, abandonado num velho armário de um porão? Imagens e objetos do tempo de infância são escavados pelo jornalista, escritor e poeta passense, Alexandre Marino, 49, em seu novo livro de poemas, Arqueolhar, lançamento da editora brasiliense LGE, numa parceria com a Varanda Edições. 

Lançado no segundo semestre de 2005 em Brasília, onde mora o poeta, este quarto livro de poemas já nasceu com a aprovação da crítica, o que se pode notar no prefácio dialogado, originalmente, entre Maria Esther Maciel e Floriano Martins. Ou na orelha do livro feita pelo jornalista e professor Sérgio Sá, além de outras tantas críticas que demonstram entusiasmo pela obra. 

Hoje, às 18h30, Alexandre estará na Casa da Cultura, para lançar o seu Arqueolhar, num encontro com os alunos da Faculdade de Comunicação de Passos e com o público que deseja compartilhar com ele, essa releitura do universo da infância, vivida em Passos. Antes, haverá um bate-papo com os presentes sobre jornalismo e literatura que permeiam a vida e a obra do autor. 

Haverá também uma leitura poética, de alguns fragmentos do Arqueolhar, por Gilda e Sandra Parenti, Graça Garcia, Arlete Porto, Clélia Monteiro, Gustavo José Lemos e Chiquinho Negrão - momento em que o público poderá conhecer e se sensibilizar pelos personagens e percepções do poeta, hoje homem maduro, que sabe ainda brincar e redescobrir a infância de uma forma original, mesmo que às vezes mais reflexiva e densa, mas sem nostalgias que se aproximem da dor ou solidão, comumente mostradas quando se volta ao tempo. Mais que isso, o Arqueolhar de Alexandre Marino - arque(antigo), olhar, mais no sentido de escavação, em busca de um tesouro - traz também cenas gostosas, algumas serenas e ternas, outras num clima de aventura ou de uma deliciosa brincadeira que dá mais sentido ao tempo presente. Não seria essa a essência do brincar, como sabem e podem quase todos os 
meninos? 

Redescobertas

Embora a maioria das cenas e sensações do poeta se esbarrem em situações universais da infância é certo também que outras serão melhor decodificadas e degustadas pelos passenses, caminhantes de um mesmo espaço, cúmplices de alguns personagens e lugares. Como por exemplo, no poema Bazar - em que o autor retrata o Bazar Magom, comércio da família, situado na rua Deputado Lourenço de Andrade, há cerca de meio século, ou um pouco mais : 

'O bazar vende crenças e milagres/ ocultos no velho armário./ Estampas de São Pedro e São João/ para seus dias de glória em junhos.'

Durante quatro anos, Alexandre Marino foi reedescobrindo e dando vida a vários ícones ou símbolos de sua infância, trazidos em cena como marionetes, num cenário onde povoam vários objetos e seres - pais, irmãos, avós, tias e amigos, como Marco Túlio Costa, companheiro de criação e aventuras, conforme o poema Heróis do cinema - 'O mundo precisa de heróis,/ cá estamos nós./Criadores de caubóis e seus cavalos,/ viajantes espaciais, avatares./Pintores do arco-íris, guerreiros de magias/ do lápis de cor e da caneta bic.' 

Nos quarenta poemas do livro, o leitor se adentra pelo universo de imagens, sons, cheiros e cores reproduzidos com a mesma emoção original redescoberta pelo autor, tamanha é a precisão da linguagem, a força e a verdade presentes em cada verso. 
Na adolescência, quando o autor vai embora em busca de outros sonhos, o poema Circo remói coração e mente de Alexandre, 'coração movido a espantos... e lá adiante, meu pai, um realejo, a sorte lançada, o dobre de um sino, a estrada'. 

Hoje, o espetáculo volta à cena, no livro que se torna palco, para o leitor/espectador fazer uma viagem ou, se preferir, aprender a importância de escavar a memória, daquilo que, um dia, foi ponto de partida da essência que se fez poesia. 

 

Folha da Manhã, Passos, 20 de maio de 2006

volta ao topo


 

O sereno domínio do verbo

Antonio Olinto

É na poesia principalmente que a literatura brasileira atinge seu ponto mais alto. O ponto em que estiveram Drummond, Jorge de Lima, Quintana, Cassiano, Cecília, Bandeira. Repito: poesia é, neste País, das coisas mais vivas e mais avançadas que existem. Volta e meia, poeta novo começa a fazer versos e a sacudir a mesmice dos estilos. Ou poetas já conhecidos alcançam pontos mais altos no exprimir o talvez inexprimível.

O mais evidente exemplo desse permanente renascer, de uma linha, e de outra, e de outra, é o do poeta Alexandre Marino, cujo livro "Arqueolhar" reúne poemas que, num desdobramento de temas, numa experimentação verbal própria, numa retração de sons e numa explosão silábica cheia de significados, atinge um nível de poesia que o situa entre o que de melhor tem o verso brasileiro do momento.

No livro de Alexandre Marino, predominam a rua, a árvore, a fruta, um pente, uma escova de dentes, uma xícara, a montanha, o quarto, a pedra, muitas vezes a pedra, que espera, contempla, acompanha tudo e aceita as mais diversas possibilidades nua verdadeira poesia do possível.

Veja-se de que maneira obriga o poeta a que a rua nos acompanhe, no belo poema "Esta rua", de que cito 11 versos: "Esta rua te percorre/ e faz de teus passos exílio./ Esta rua te caminha/ e vigia,/ define teus limites/ e espaços,/ e de tua saudade/ te alimenta."

Quase no final do poema, que é belamente longo, diz: "Vaga nesta rua a tua alma/ ao redor da fogueira/ que te devora os ossos".

Além de sabedoria vocabular, revela o estilo de Alexandre Marino uma extraordinária elasticidade rítmica. Alguns de seus versos dão a impressão de que podem ser lidos ao contrário ou tomados em qualquer ponto, pois o ritmo como que parte dali e se integra em nova unidade. Atente-se para o sereno domínio do poeta sobre seus símbolos, suas realidades, suas palavras. 

O poeta multiplica os lugares do mundo, já que dentro da casa há outra casa, e outra, e outra, com outros quartos e incontáveis cômodos, entre corredores e labirintos passagens subterrâneas numa completa reconstrução dos espaços de ontem, que ainda são os espaços de hoje. Os poemas são todos dedicados ao menino, o menino de ontem que não mudou e continua vivendo o momento. Assim:


"Lá vai o menino 
e o homem invisível
que o acompanha,
feito de sua própria sombra
a jorrar-lhe das entranhas."

Dois temas visíveis do poeta - o menino e o espanto - poderia ser fixado num "espanto do menino", diante das coisas todas, diante do preto velho mais feliz do mundo que um dia não mais se achava lá. Diz o verso: "Não imaginava que morrer fosse enorme."

Na realidade, "Arqueolhar" é uma história do Brasil, com suas jabuticabas, seus palhaços, seus circos, onde a trapezista flutua e os malabaristas fazem malabarismos - e é, assim, a historia do País, a história de uma infância, a história de um tempo, que o poeta levanta em versos, numa luta pelo aperfeiçoamento de uma capacidade de percepção. 

Para isto, precisa o poeta de uma entrega total, absoluta, de si mesmo às palavras que viram versos, uma entrega cromo a do sacerdote, como a do eremita. E precisa ser forte para enfrentar a pedra, que lá está sempre, medida tranqüila das coisas. 

Eis o final de seu poema "Pedra de amolar": "Um dia, nos escombros do futuro,/ em certo altar abandonado,/ com paredes e entulhos/ de um alpendre, um terraço/ ossos, restos, rastros sobre a terra,/ irremediavelmente oculta/ ou apenas insepulta,/ lá estará a pedra/ insone,/ a recordar, sem saudade,/ um regato, um leito de rio,/ uma borda de serra."

Não hesito em colocar Alexandre Marino, com este "Arqueolhar", entre os grandes poetas do Brasil. A originalidade de seus temas, o bom e forte equilíbrio de seus versos, seu grave e necessário respeito pelas suas memórias, por inventar uma literatura para cada poema. Há um tipo de poesia que é matéria verbal, vocal, oral, visível, signo, sinal, e é no ritmo que a matéria se forma e ganha contorno. Fazendo poesia com palavras, conscientemente com palavras, o bojo vocabular de Alexandre Marino é de extraordinária riqueza.

 

Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 2 de maio de 2006

 

volta ao topo


Um estudo sobre "Arqueolhar"

Pedro Paulo Ernesto

Dos poemas de "O estranho" a "Circo" selecionei, em cada um deles, o conjunto de versos que me pareceu a expressão do espírito do autor. Mostram a individualidade do poeta porquê:
a)são próprios ou particulares neste estado de vivência real quando os evoca e os reencontra;
b)são líricos ou elegíacos, gotejam o suor ou a lágrima do esforço do poeta sobre si mesmo;
c)têm forma substancial, que distingo da forma instrumental (a da construção ou da arquitetura do poema ou verso).

Estas características permeia-os e estabelece a unidade de vivência interiorizada que pretendo grifar melhor adiante, quando tentarei exprimir o sentido que tem na minha percepção.

A qualidade formal do instrumento poético, o que forjou Alexandre Marino, foi sintetizada pelos dois poetas que o prefaciaram. Reconheço a superioridade de suas averiguações e não desejo perturbar a harmonia do diálogo platônico que introduziram na apreciação da poesia nossa.

Aqui, em Arqueolhar, se serviu de uma técnica dominada para se apropriar de sua interioridade. De um modo geral é a introspecção dos poetas ou dos artistas. Mas da interioridade no seu campo ao mesmo tempo o mais instintivo e dos mais impressionantes, que é o dos anos iniciais da infância. O que se passou aí, apoderar-se dele através da subjetividade. Já é uma ousadia mais do que psicológica. Como se essa interioridade se visse a si mesma. Para a expressar em estado puro. Entretanto evocador não é mais a criança. A vivência não é mais a pura vivência do infante. É a vivência que se interiorizou na consciência que transforma, a da subjetividade que capta e ordena.

Compreender-se-á, talvez, o que pensa quando referir fator de sentido que, a meu ver, unifica a seleção de trechos que elaborei.

Para entrar em sua sensibilidade tem a sua linguagem e a sua música. Com as quais busca o primeiro dia de sua criação, a que é exclusivamente e irrevogavelmente sua. A busca é uma busca de interiorização. Nesta ânsia do humano que existe, também exclusiva e irrevogável, na consciência da história individual do homem.

No poema "Reflexos" o poeta atravessou a infância e encontrou apenas "pedaços de beleza", aqui e ali, dispersos e erradios, a sinalizar uma perfeição ou uma pureza que não se configuraria.

Deste toque estético no verso referido tiro a metáfora que servirá para a consideração que se segue.

Os trechos destacados se articulam numa difusa diluição: a) nos flagrantes gratuitos; b) nos pressentimentos fortuitos; c) nas intuições apenas imaginadas; d) por cenas ao acaso da memória.

Fundiu na dimensão da infância o plano do "homem lançado no mundo".

Naquela cidade menor a rua pequena, o cinema do "cowboy", o quintal fechado, o circo nômade ali de passagem, o seu estreito e limitado cenário.

O menino que vê e mira de debaixo ou de fora o telegrafista, as Tias, Mariazinha com seus "tristes olhos de susto" e espelhações semelhantes.

Uma aturdida consciência do mundo em que os deuses silenciaram e não respondem suas indecisões.

Um mal estar de frustração existencial vindo da atmosfera em que respira e, às vezes, brinca, inclusive frente ao Deus da Igreja em que entra o Padre com meia lilás, aliás um fantasma.

Repor-se no tempo criança como o menino totalmente menino somente se fosse demiurgo (ente mitológico) ou, se resguardasse, intocada, a pureza fetal. A do chegar ao tempo aquele na cidadezinha aquela, embora de longa ancestralidade.

Observação que respeita, como válida, a confissão de Alexandre Marino no preâmbulo:
-"Sem nostalgia e sem saudade; apenas um jogo de escavação".

Ao se referir à realização estética do artista literário é inevitável que se aborde o "susto" ou "espanto" que lhe causa o seu "sentimento do mundo" (Drummond). Ou a sua auto-consciência da vida (perdoe-me o lapso hegeliano).

Os "elementos imateriais, etéreos e mágicos" da infância (dentro da consciência do escavador como da sensibilidade espontânea do escavado) se estendem do desencanto a uma difusão ótica que seria mágica se os "pedaços de beleza" ofuscassem o desconforto do espetáculo em que se viu personagem.

Descaracteriza qualquer viés de cunho ideológico ou ideologizante, em qualquer direção. A difundir, contudo, a amargura, o desconsolo, até o tédio da inutilidade.
Toda criança é ser em embrião.

O que se acabou de anotar quer dizer que se velou qualquer impulso do embrião para alguma forma do que poderia vir a ser como sonho ou lenda.

 

Goiânia, agosto de 2005

volta ao topo


"Arqueolhar", à memória e maturidade 

ENTREVISTA: ALEXANDRE MARINO 

Alécio Cunha 

Mineiro de Passos, morando em Brasília há 23 anos, o poeta e jornalista Alexandre Marino lança hoje, a partir de 19h30, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes, seu quarto livro de poemas, Arqueolhar. E participa, ao lado do poeta Luiz Turiba, de um recital. 

Turiba, que é assessor de imprensa do ministro da Cultura, Gilberto Gil, por sua vez aproveita para autografar seu mais recente livro, Bala

Marino comenta a gênese de Arqueolhar e discorre sobre o extrato poético. 

 

Que diferenças estabelece entre este livro e seus trabalhos anteriores? Houve alguma mudança de foco? Que elementos apareceram, em sua poesia, que não estavam presentes antes? 
Arqueolhar é meu quarto livro de poesia. Cada um destes livros surgiu em uma circunstância diferente. Os Operários da Palavra, de 1979, reuniu os primeiros poemas que considerei publicáveis em livro, e foi feito por sugestão de um amigo, que tinha uma gráfica e pretendia editá-lo. Todas as Tempestades, de 1981, eu escrevi em dois anos, com a intenção de publicá-lo por minha conta e vendê-lo de mão em mão. Depois mudei-me para Brasília, fui trabalhar em jornal, e a poesia virou uma coisa meio escondida. Continuei escrevendo, com menor freqüência, de forma irregular e indisciplinada, sem intenção de publicar. Só em 1999, quando minha vida profissional já tomara novos rumos e mudanças em minha vida pessoal me permitiram mensurar a importância da poesia para mim, publiquei O Delírio dos Búzios. Era uma reunião da produção desse período, com alguns pontos em comum, o mais importante, acho, era o ceticismo. Arqueolhar é completamente diferente, por duas razões principais: a primeira é que nasceu de um projeto muito bem pensado, ambicioso, que, na minha opinião, poderia ser um excelente livro ou um livro medíocre, e estou convencido de que foi bem realizado. Em segundo lugar, é o livro que marca minha maturidade como poeta, como criador, e a visão clara da minha proposta estética, do caminho que pretendo seguir. Tive a coragem de fazer um livro que viaja pela minha infância, mas, ao mesmo tempo, não é nostálgico nem melancólico. Eu me diverti muito escrevendo esses poemas. O Sérgio de Sá, autor do texto da orelha, identificou nele alegria e tristeza. É possível que haja uma certa tristeza em alguns poemas ou imagens, advinda, talvez, de questões fundamentais do ser humano, aquelas velhas perguntas que sempre faremos e nunca serão respondidas. E também de certo ceticismo, característica já presente no livro anterior. Mas creio que, na essência, a tudo isto se mistura uma inevitável alegria de viver. 

Um dos aspectos que mais me chama a atenção neste seu novo trabalho é justamente a questão do ritmo, a criação de um respirar poético original, só seu, um exercício de subjetividades, alinhado com o mais denso lirismo, “as várias camadas se sentido de linguagem", como bem coloca Maria Esther Maciel no posfácio. Como é seu envolvimento com esta questão? Existe uma busca natural desse ritmo? Qual seria sua origem, inconsciente ou elaborada, ou, então, uma mescla das duas coisas juntas? 
O projeto de Arqueolhar fez surgir uma conjunção de fatores, de elementos, de emoções que abriram os meus sentidos e me fizeram dar um salto nessa busca de um sentido original para minha poesia, de uma estética pessoal. Eu sou um leitor voraz de poesia. Admiro esta linguagem pelo seu poder mágico de dizer não o que as palavras descrevem, como signos, mas sim aquilo que despertam dentro do leitor, transformando-se na voz que vem de dentro dele. É o que a Maria Esther chama de "as várias camadas de sentido de linguagem", e é essa a minha obsessão na poesia, como autor e como leitor. Trabalho com a subjetividade, mas procuro uma espécie de subjetividade coletiva, de forma que meu lirismo seja também o lirismo do leitor que não conhece minha história, mas, fatalmente, tem a sua história pessoal. Para atingir o coração do leitor eu devo atingir o meu, o que exige um pulsar de palavras, sons, imagens, ritmos. Acho que minha busca por esta tão poderosa linguagem abstrata começou no dia em que tomei consciência de sua existência, de sua possibilidade. 

Seu livro é uma delicada exegese da memória. Como o poeta absorve o extrato biográfico? Até que ponto a biografia nada mais é do que o ponto zero do poema? 
Creio que o escritor, e muito mais o poeta, tem na memória a sua matéria-prima. A literatura é, acima de tudo, produto de uma experiência de vida, fruto da vivência, da observação, da capacidade de questionar, de se indignar, é sempre um exercício de liberdade. Decidi usar esta liberdade para recriar minha infância, como se o homem maduro decidisse fazer uma visita ao menino que foi um dia, reencontrá-lo, ter uma boa conversa e brincar, é claro, criando histórias, fazendo um teatro, com toda a liberdade que a poesia me concede. Nenhum rigor histórico, apenas sensações. Este é o meu livro mais mineiro, mineiro até os ossos. E, ao mesmo tempo, é onde consegui avançar mais além de meu quintal. Ele é a cidade de Passos, onde nasci, é Minas Gerais, é Brasília, onde vivo há 23 anos, mas acima de tudo é a minha visão de mundo, de mim mesmo, na condição de indivíduo e de ser social. 

O que representa o lançamento ao lado de um companheiro de geração como Luiz Turiba? Como vai ser a leitura poética de vocês? 
O Turiba, além de bom amigo, é um poeta que admiro. A linguagem poética dele não tem nada a ver com a minha, e acho que isso vai enriquecer o encontro. Turiba faz uma poesia mais vinculada ao cotidiano, e explora muito bem as possibilidades sonoras das palavras. É um ótimo criador de neologismos, a partir de uma língua portuguesa absolutamente brasileira, culturalmente brasileira. Já a minha poesia é mais reflexiva, introspectiva, voltada para as perplexidades do ser humano, e exploro a linguagem das imagens. Mas temos em comum o fato de que a poesia é uma atividade crucial em nossas vidas. Somos jornalistas e poetas. Não traçamos nenhum roteiro rígido, mas será uma ótima conversa, ambientada com muita poesia. 

 

Hoje em Dia, Belo Horizonte, 24 de outubro de 2005

volta ao topo


 

Um poeta que crê na força da linguagem 

Ronaldo Cagiano

Na direção oposta à de alguns escritores que têm decretado a demolição das estruturas poéticas e a agonia do verbo em nome de uma pretensa inovação, como se a transgressão e as rupturas revelassem um salto qualitativo ou dialético na construção literária, surge a poesia de Alexandre Marino, um autor que acredita na força da linguagem, sem desprezar as inovações das vanguardas ou da experimentação. 

Seu novo livro, Arqueolhar (LGE/Varanda), é resultado do amadurecimento de um processo criativo que começou aos 15 anos, quando fundou em Passos (MG), em 1972, o jornal Protótipo, junto com Antônio Barreto e Carlos Parada. Radicado em Brasília há 20 anos, formado em Comunicação, trabalhou em vários jornais e é autor de Os operários da palavra (1979), Todas as tempestades (1981) e O delírio dos búzios (1999). 

A poesia de Alexandre Marino não impressiona pelos espasmos formais, truques e invenções/inversões textuais, tendência de uma poética de diluição, superficial e artificial que viceja. A ousadia em Arqueolhar não é jogo arquitetônico ou visual, mas o poder de transfiguração da palavra a partir de antigos referenciais, voltados para a verdadeira comunicação da arte, permitindo inovar e renovar dentro da própria tradição. 

Nas escavações desse mundo que ficou para trás e se insinua como um ricochete no inconsciente - e aqui reside o sentido arqueológico de seu olhar -, o autor não postula uma reverberação saudosista ou um refluxo nostálgico, mas tematiza poeticamente experiências importantes para sua formação humana e intelectual, encetando um diálogo entre tempos e espaços distintos. 

O mergulho nesse ''oceano de fantasias'' transforma-se em catarse e oferece momentos de verdadeira epifania, ao mesmo tempo em que a evocação do passado constitui-se em pano de fundo para uma leitura existencial e a compreensão da relação do homem com o seu meio e sua gente. Administrando com sobriedade esse espólio afetivo, Marino se identifica, percebe a verdadeira grandeza dos pequenos gestos e a natureza indivisível de outros valores. E sua poesia, com inegável sopro de humanidade, fala, sem mistificação, do que nos toca, do que é essencial e profundo na vida.

 

Jornal do Brasil, Caderno B, 16/10/2005 

volta ao topo


Inventário afetivo das raízes

Ronaldo Cagiano

No momento em que certos escritores têm proclamado a demolição das estruturas poéticas e a agonia do verbo em nome de uma pretensa inovação, como se a transgressão e as rupturas revelassem um salto qualitativo ou dialético na construção literária, é alentador perceber que ainda há os que acreditam na força da linguagem, sem que essa opção represente desprezo pelas conquistas das vanguardas ou da experimentação. É o caso de Alexandre Marino, que acaba de lançar Arqueolhar (LGE/Varanda Editora, 102 pgs., R$20).

Nesse novo livro, constata-se um seguro processo criativo, sem apelo a vertentes que impressionam pelos espasmos formais ou truques/invenções/inversões textuais, algo que tem proliferado com certa freqüência numa estranha poética de diluição e superficialidade que circula por aí, a que denominam equivocadamente ousadia. Ousadia em Arqueolhar não é mero jogo arquitetônico, mas o poder de transfiguração da palavra a partir de antigos referenciais. Palavra que se volta para o essencial, permitindo inovar ou renovar, sem artificialismos, dentro da própria tradição. A poesia de Marino remete o leitor a uma fruição estética, tanto pelo farol de um olhar crítico, quanto pelo influxo lírico, a partir do mergulho na sua própria ancestralidade. Imagens recorrentes em sua poesia, o passado e a infância transformam-se num fluxo vertiginoso, mas delicado, de lembranças e memórias, território para incursões oníricas.

Ao escavar no mundo que ficou para trás e subsiste no inconsciente pessoal ou coletivo - e aqui reside o sentido arqueológico de sua poesia -, o faz não como reverberação saudosista ou refluxo nostálgico, mas como captura de experiências importantes. E nesse diálogo entre tempos e espaços distintos, esboça-se uma relação espiritual, afetiva e psicológica com as origens: a cidade natal, os amigos, os amores, os quintais, na linha daquela perspectiva tolstoiana de se reconhecer ou buscar o universal a partir da própria aldeia, seu "oceano de fantasias". Essa viagem, necessária e catártica, escarafunchando palimpsestos da alma, transporta para esses poemas - de coerente organização, harmonia e ritmo - toda a carga metafórica da própria vida.

A infância retratada não funciona apenas como representação lúdica, nem a reprodução de ambientes ou cenas do interior como simples evocação bucólica. O retorno às raízes constitui pano de fundo para uma leitura existencial e a compreensão do próprio homem exilado em suas contradições e escravo das engrenagens quotidianas. No reencontro com a patriamada da meninice, da família, dos amigos, dos objetos, do espaço urbano de sua convivência social, o autor guia-nos para um mergulho na sua identidade e a percepção do verdadeiro sentido da vida. 

Alexandre construiu uma poesia que não se envergonha do sopro humano, ao falar de sentimentos e valores, forças primitivas e harmônicas na literatura de qualquer tempo e geografia, mas tão ausentes nessa época veloz, isolacionista e fascinada pelo imediatismo que corporifica uma arte utilitária e pop. E sua força reside justamente na visão universal que empreende, a partir da concretude que há nos pequenos gestos, coisas, sentimentos e relações, num singelo painel de um mundo ainda possível de ser vivido e amado, porque visto pelos olhos da criança, que traz do passado o substrato para o embate com a realidade. Essa poesia límpida, cuja originalidade não nasce da contorção da forma, tem no ato criativo um compromisso ético e estético de reflexão e comunicação.

 

Estado de Minas, Caderno Pensar, sábado, 08/10/2005

volta ao topo


Arqueologia poética 
Uma inspirada viagem pelo tempo e pela memória

Ricardo Pedreira

O jornalista e poeta Alexandre Marino conta que seu quarto livro de poesias, Arqueolhar, começou a surgir numa viagem que fez à cidade natal, Passos, em Minas Gerais. Ele resolveu fotografar pessoas, objetos, ruas, casas - tudo o que lhe lembrava a infância e a adolescência. Veio então idéia de juntar essas imagens e poemas num livro em que faria uma espécie de "arqueologia poética". Mas depois, numa sábia decisão, entendeu que devia publicar apenas os poemas. 

Poderia ser um livro muito bonito, com poemas e fotos dialogando entre si. Mas as imagens acabariam por "contaminar" os poemas, influenciando e - quem sabe - empobrecendo sua leitura. É que a poesia de Alexandre é tão vigorosa e rica que merece ser lida apenas dessa forma - como poesia. 

Para muita gente, literatura é a mais nobre das artes por ser aquela que melhor instiga a imaginação, que abre um campo de possibilidades, que mais nos leva a criar junto com o autor. E a poesia seria o supra-sumo da literatura, por dar às palavras significados infinitamente mágicos, de riquíssima diversidade, que potencializam sua beleza. 

Assim, mais do que qualquer outra manifestação artística, cada poema é uma experiência única para cada pessoa. Isso, naturalmente, só acontece com poesia de qualidade, aquela em que as palavras, o ritmo e a sonoridade se somam num conjunto a serviço da emoção, que estabelece um fio encantado com o leitor.

É o que faz o Arqueolhar de Alexandre Marino. 

A arqueologia trabalha nas várias camadas do solo para investigar o passado. A arqueologia poética de Alexandre não olha apenas o passado, mas busca nas várias camadas e dimensões da memória a percepção que ele tem do mundo. É uma viagem muito pessoal em que o leitor embarca levado pela emoção que transborda das palavras.

A passagem do tempo - intangível e misterioso - e a força imaginativa da memória são a matéria prima do livro. Diz ele num poema: "Diante do espelho, o reflexo/do relógio da sala:/o tempo corre inverso/e a si mesmo devora./Digere meu pensamento/e o que resta é memória".

Quando olhou no espelho, Alexandre não buscou o reflexo, mas a reflexão. Neste seu quarto livro, o poeta está maduro, no pleno domínio da técnica a serviço da emoção. As lembranças da cidade, da família e da infância são elementos para uma tentativa de entendimento da vida e do mundo.

Arqueolhar é poesia na veia e chega rápido ao coração. Será lançado no dia 27 de setembro, a partir das 19h, no Café Martinica. Chegue lá e veja o que nos diz o poeta: "Ninguém sabe a história inteira./Evocam-se vazios invulneráveis./O tempo é feito de destroços". 

 

Revista Roteiro Brasília, n. 82, segunda quinzena/setembro/2005

volta ao topo

 


contatos:
sitio[at]marino.jor.br

Voltar à Página Principal