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Ao abrir a porta de um velho armário abandonado num porão, o poeta Alexandre Marino encontrou o que restou de um grande companheiro de infância: um palhaço, que ele chamava simplesmente de "Aço". Ao reaparecer, o palhaço viveu outra vez. Não se tratava de um mero objeto empoeirado, comido pelas traças, mas de uma figura real que voltava de uma longa viagem. "Aço" é um dos personagens do novo livro de poemas de Alexandre Marino, Arqueolhar, lançamento da editora brasiliense LGE, numa parceria com a Varanda Edições. Ao lado do palhaço, outros seres inanimados retornaram à vida a partir daquele reencontro: pedras, frascos vazios, relógios, brinquedos, objetos perdidos. Durante quatro anos, Alexandre Marino deu vida àqueles ícones de sua infância, transformando-os em poesia. Espalhou-os por um quintal do interior de Minas, e com eles percorreu ruas de uma cidade ao mesmo tempo fictícia e real. O homem quarentão reencontrou personagens que o marcaram, convocou o menino e retomou com eles um diálogo interrompido pelo tempo. Arqueolhar não é um livro de memórias e não foi escrito com intenções nostálgicas, o autor faz questão de esclarecer. Ele descreve a experiência como uma espécie de "arqueologia da infância", de escavação no fundo do quintal, como fazem as crianças com o objetivo de encontrar, de repente, o esqueleto de um dinossauro. Ao mesmo tempo, trata-se de um gesto maduro, do homem que investiga seus porões em busca da compreensão daquilo que, desde sempre, o move. Para Alexandre Marino, a poesia tem esse poder mágico de dar vida a objetos inanimados e promover reencontros fora dos limites do tempo. Os 40 poemas de Arqueolhar são fruto dessa releitura do universo da infância com um olhar maduro - ou, como prefere o autor, "arqueológico". O poeta "desenterra traços, imagens, sensações, experiências de uma infância perdida mas que, reimaginada, se justapõe ao mundo presente, reconfigurando-o", como bem descreveu a escritora e crítica literária mineira Maria Esther Maciel, que assina a quatro mãos com o também escritor e crítico cearense Floriano Martins o prefácio de Arqueolhar. "Apenas aparentemente o livro se organiza dentro do olhar, pois o faz com todos os sentidos", completa Martins. Arqueolhar está sendo lançado numa parceria entre o selo do autor, Varanda Edições, e a editora brasiliense LGE, que lançou mais de 300 títulos de literatura nos últimos três anos e tem levado alguns dos escritores de Brasília às livrarias das principais cidades brasileiras. Com capa de Rômulo Geraldino e texto de orelha do jornalista e professor Sérgio de Sá, Arqueolhar deve chegar às livrarias até o final de setembro. |
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Algumas informações sobre Alexandre Marino Alexandre Marino nasceu em Passos (MG), em 1956. Em 1972, na adolescência, foi um dos fundadores e editores da revista literária Protótipo, que despertou a simpatia dos professores e a implicância dos militares da cidade. Mudou-se aos 17 anos para Belo Horizonte e se formou em Comunicação Social pela Universidade Católica de MG. Vive desde 1982 em Brasília, onde trabalha com jornalismo, publicidade e assessoria de imprensa, depois de atuar durante 13 anos nas redações do Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo. Tem publicado contos e poemas em revistas e jornais de literatura de várias partes do País. Arqueolhar é seu quarto livro de poemas. Ele já havia publicado Os Operários da Palavra (Belo Horizonte, Editora Batangüera, 1979), Todas as Tempestades (edição do autor, 1981) e O Delírio dos Búzios (Brasília, Varanda Edições, 1999). Participou de várias antologias, entre as quais Poetas Mineiros em Brasília (Varanda, 2002) e Antologia do Conto Brasiliense (Brasília, 2004), ambas organizadas por Ronaldo Cagiano.
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Vazios invulneráveis na poesia de Alexandre Marino Maria Esther Maciel & Floriano Martins MEM - Na última parte do poema "Chuva Oblíqua", Fernando Pessoa conjuga presente e passado através da justaposição de dois espaços distintos: um teatro e um quintal. Na interseção de ambos, encontra-se um "eu" atravessado de sensações, que - no ato de ouvir a música de uma orquestra em apresentação no palco - é tomado por imagens da infância, num jogo aliciante de cores e sons. O passado se atualiza no presente da música, os espaços se fundem e as cenas da infância se reinventam à medida que se envolvem no ritmo, nas modulações da memória do poeta. Como este mesmo diz: "Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância / está em todos lugares...". Esse jogo de tempos e espaços, de memória e imaginação é também a linha de força do livro Arqueolhar, de Alexandre Marino. Nos 40 poemas que o integram o presente se espacializa em um "mundo inóspito", em escombros, que é revolvido, "escavado", pelo poeta que acaba por "desenterrar" dessa desolada paisagem os traços, imagens, sensações, experiências de uma infância perdida mas que, reimaginada, se justapõe ao mundo presente, transfigurando-o. O próprio título do livro já anuncia, de forma concisa e incisiva, esse trabalho de "escavação" poética. Vale lembrar que, nos dicionários, a palavra "arqueologia" significa o estudo do passado da humanidade mediante os testemunhos materiais que dele subsistem. Ao manter o prefixo "arqueo" (antigo) e substituir o "logos -(ia)" por "olhar", Marino desloca a palavra de seu território científico, racional, e a insere no espaço íntimo da subjetividade poética. A sondagem do passado torna-se, assim, um trabalho dos sentidos sobre os "testemunhos" ou resíduos não apenas materiais, mas sobretudo imateriais desse mesmo passado, uma vez que este também se faz de sua própria sombra.
FM - É ainda mais interessante este jogo entre espaço e tempo, ou teatralidade da memória, porque não reflete apenas um olhar o antigo, mas também uma entrevisão do futuro e o relato de vinculações entre o que se passa dentro e fora do mundo. No poema intitulado "Sucata" o poeta relata: "Duas crianças / miram o fotógrafo / e vêem até hoje / o que não aparece / no retrato". Logo em seguida, em outro poema ["Passeio"], encontramos esta imagem: "O menino em sua bicicleta / fecha os olhos / para não ser visto". Este menino, que por vezes se duplica ou multiplica, é o protagonista e também o narrador de um livro que possui um enredo de estimável conseqüência. E em seu ir-e-vir por ambientes assimétricos de tempo e espaço, os testemunhos que recolhe são estampas de vislumbres e experiências, onde a convicção mais judiciosa é a de que "este rosto / que seu duplo encara / não sabe o poder / que o espelho guarda", como vemos no poema "Reflexos". Trata-se de uma arqueologia do tempo vivido que não pode ser destacado do que está por vir ou do que não é senão desejo, vestígio, idealização. Como a poesia é essencialmente teatro, o poeta sabe por vezes encarnar o protagonista e deixar que ele lhe mostre alguns truques, ao levá-lo a caminhar por ruas onde as duas figuras se confundem. Agora, o que me desperta uma atenção neste livro, Esther, é o fato de que todo este ambiente ao qual me refiro se dá sem a obsessão ou imposição de uma ruptura de linguagem. Não há este encantamento pelo diferente que acaba por engessar ou diluir muita poesia que se tem publicado já de muito. Ao mesmo tempo, há um grande salto estilístico dentro do que vinha até então publicando o autor. Ao comparar este livro com os anteriores, Alexandre Marino rompe muito mais consigo mesmo do que propriamente com o que lhe é exterior. E por mais convulsiva que tenha sido tal transição a resultante evidencia uma serenidade, não há conflito algum no tratamento da linguagem, não se sente uma escrita a fórceps, nem artificialismo na construção do enredo do livro.
MEM - Sim, esse desvio do artificialismo da linguagem, aliado a uma narratividade oblíqua (o enredo se dá a ver nas entrevias do dizer poético) e ainda ao exercício não-constrangido de uma subjetividade que é una e múltipla ao mesmo tempo, confere aos poemas de Arqueolhar um traço diferencial, uma dicção singular. Ao invés de malabarismos verbais, Alexandre Marino opta por explorar as várias camadas de sentido da linguagem, como se nela sondasse o que, no poema "Arqueologia", ele chama de "as infinitas casas dentro de uma casa./ Incontáveis cômodos, entre corredores / e labirintos." A ausência de um formalismo explícito não significa, porém, uma recusa da forma. Percebe-se que o poeta urde a textura de seus poemas através de um trabalho intrínseco com o ritmo, extraindo da superfície e do interior das palavras o que ele mesmo nomeou de "música do tempo / nessas tardes de silêncio". A isso se soma ainda uma trama bem construída de imagens, que tendo por base a figura do labirinto, assegura o jogo crescente e vertiginoso de tempos divergentes, convergentes e paralelos que sustenta o conjunto. Um outro aspecto que me chama a atenção no livro é o inventário de coisas, de objetos, que se pode ver em alguns poemas. Por se ater ao trabalho de "escavação" da memória, em interseção com a construção de um devir, Alexandre Marino confere às coisas o papel de "testemunhos" do tempo, visto que elas são capazes de durar, como diria Jorge Luis Borges, "para além do nosso esquecimento". Relógios, frascos de perfume, instrumentos musicais, fotos, canetas, pentes, rosários, pregos, flores plásticas, dentre outros artefatos feitos para nosso uso/desuso ou nosso investimento afetivo, são tomados como parte da própria existência do "eu" poético, seja este "o menino em sua bicicleta" nos tempos de manga e jabuticaba, seja ele o José (desdobrado em vários outros de si mesmo) que se ocupa dos "ruídos do mundo" moderno no poema "Código Morse". As coisas - registros da exterioridade sensível do que já foi - integram-se à própria paisagem de alma do poeta e, misturadas com sombras, abismos, dores e falácias desse mesmo passado, sobrevivem "fora do tempo / sempre além do futuro".
FM - E aí estamos, neste mesmo poema a que te referes, às voltas com a previsão do passado, um dos talentos de José, o múltiplo protagonista que é - a um só tempo? - ator, telegrafista, seresteiro, artesão, pai, avô e nenhum - navegante aplicado à deriva dessa teatralidade que ele busca decifrar, entregue "aos ruídos do mundo". Ruídos que de maneira fascinante se corporificam no inventário de coisas em que aos objetos vêm se juntar reflexos, sensações, o hálito da memória e do desejo. Tudo é animação plena, um bulício mágico da existência em que "o fim de tarde arranha as gargantas" ["Paisagem doméstica"] e "a boca não descansa, / pensa nas palavras / a desdizer amanhã". ["A boca"] Ou seja, todos os aspectos aqui anotados - por mim e por ti - estão ao dispor não propriamente da memória, mas dessa articulação teatral com que o poeta investiga seu passado. Uma escavação, decerto, mas que não se limita à configuração de um discurso. Uma investigação que se expande a cada golpe do inesperado, onde o esquecimento influi no argumento tanto quanto a lembrança. Daí que se mesclem - que se confundam mesmo - tempos e personagens, e que todas essas vozes velejem "no limiar do silêncio". O livro - a rigor o palco onde se encena essa gestalt da escavação - não se descuida um só momento da forma, do esmero com a linguagem, de seu embate com os abismos rítmicos e o bailado da versificação. O que há de mais cativante neste teatro é que nenhum dos objetos de sua construção é refém dos demais, que não há um imperativo de destaque, seja do argumento, da forma, do ritmo, seja do passado, do presente, do futuro. Apenas aparentemente o livro se organiza dentro do olhar, pois o faz com todos os sentidos. Trata-se de um arqueolhar imagético porque é através da imagem que o teatro de sombras da memória se revela, porém seu grande foco imaginativo a todo instante nos diz que "o tempo é feito de destroços" e que "ninguém sabe a história inteira". Enfim, é uma delícia que Alexandre Marino dê a este poema-chave de sua poética o título de "Paisagem doméstica". O mundo todo ali à mão, onde a magia não pode se converter em vício ou ofício circense, a convicção não deve criar atritos com a imaginação, a alma não deve nunca se apequenar. Este Arqueolhar nos desvela uma estimável relação do poeta com seu quintal - recordando aqui o Pessoa de "Chuva oblíqua" com que tão bem iniciaste esta nossa conversa - e constato feliz que tanto se desfez de certo acanhamento que caracteriza aventuras anteriores quanto não incorre na conduta terminante de muitos de seus pares. Como encerra o poema "Estação fantasma": "o último trem esvai-se / sobre a História que resta". Não seremos os últimos, jamais.
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Orelha em pé, leitor, leitora. Porque o homem maduro e visível acompanha a lembrança do tempo do menino, o que passou pelo corpo agora envelhecido, à sombra, inquieto, saindo do silêncio. O poeta Alexandre Marino desperta os sentidos do leitor para os menores rumores e as grandes paisagens da infância: ainda à procura de literatura, já repleta de experiências. A gente escuta a poesia mineira, o interior de Minas Gerais. E o texto, sempre consciente de sua forma, nunca se deixa derramar pelo excesso de piedade por aquilo que foi e não voltará a ser. Há tristeza e felicidade na recordação, é bem verdade. O "arqueolhar" de Marino mira o corpo mais íntimo e lança em ficção a memória da infância - sem se perder, contudo, em qualquer tipo de tentativa tola de balbuciar o passado com a poesia da busca, da recuperação do "eu", tão comum e tão banal. Ao fazer isso, ao evitar o exílio da autocomplacência e as armadilhas da idealização, os poemas encontram o contraditório. Ótimo. Os "olhos cegos de pureza" ganham lanternas e bússolas literárias para ver com alguma nitidez o que era nuvem. A "mirada estrábica" de que fala o argentino Ricardo Piglia vale aqui: fritar o peixe da casa, olhar o gato da rua, permanecer na instabilidade da incerteza, e nem por isso ter medo de maravilhar-se. Do contrário, fantasmas virariam carne, heróis cinematográficos substituiriam dublês, a vida seria decifrável. O poeta não quer nada disso. Pretende desviar o olhar para a perplexidade e o espanto diante da surpresa, planeja abandonar a perfeição do espelho para encontrar o retrovisor que aumenta ou diminui tamanhos e distâncias, sonha viajar em direção às janelas ausentes para espiar por entre as fendas de sol e chuva. O poeta consegue fazer ver ao leitor que "o tempo é feito de destroços". Bendito, sábio e ambíguo tempo. Por que mais ler este Arqueolhar? Para identificar traços de identidade nos vestígios do olhar lançado sobre a história pessoal, para brincar com as coisas do mundo sob outros pontos de vista, para celebrar o hoje como uma criança comemora a chegada do circo (e percebe que o palhaço também chora), para sentir de novo o cheiro forte da infância vivida na província longe do mar, perto de todos os fogos. Olhar atento, leitor, leitora. No fim das cinzas das palavras, os ossos são devorados e resta a plena poesia. Para comprar e devorar com os olhos.
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