Comentários
sem qualquer pretensão crítica,
movidos apenas pelo prazer de rever o que foi visto.
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Os cones de chocolate de Octávio Scapin A bolachinha de Sá, Rodrix e Guarabyra Mônica Salmaso, Hamilton de Holanda, Alma Brasileira Trio
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Os cones de chocolate de Octávio Scapin Vamos tomar um banho de música
Ao enriquecer meus poemas com suas melodias, ele desde o início tem demonstrado rara habilidade não apenas como criador, mas também como leitor e intérprete de todo o universo guardado pelas palavras. A poesia é uma visão pessoal de mundo, e precisa de um parceiro sensível que a decodifique, compreenda e se deixe levar por suas sutilezas. Octávio Scapin abre-se a esse diálogo sujeito a dificuldades, mas gratificante e enriquecedor, e transpõe esse universo a uma outra linguagem, que o reinterpreta e complementa. Antes de chegar aos 20 anos, Octávio Scapin já deixa aflorar uma personalidade de artista curioso, sensível e criativo. Para os que o conhecem mais de perto, é evidente sua busca pela harmonia entre o conhecimento e a intuição, técnica e sensibilidade. Ninguém precisa ser especialista para perceber-lhe o talento para compor e refletir sobre o próprio trabalho. Dessa forma, ele vem formando um acervo musical em constante evolução, feito de peças únicas e unas, que revelam o início de uma trajetória além dos limites de mera aventura musical. O CD Cones de Chocolate, uma pequena, porém significativa, coletânea de canções indica novas surpresas para o futuro, assim como nos surpreende desde já. Por isso, o melhor a fazer é embarcar com ele para esta viagem aqui e agora, através de cenários repletos de imagens e cores, e ouvir a sua leitura pessoal de uma urbanidade ao mesmo tempo comum e estranha. Estamos todos em boa companhia. Os músicos que o acompanham nessa tarefa enriquecem ainda mais essa experiência. Palavra de parceiro e admirador. (Alexandre Marino)
ANIVERSÁRIO
Lá se vão 25 anos. E 2004 valeu para a música de Brasília pelo primeiro quarto de século de vida do Liga Tripa, a mais típica manifestação musical da cidade. A data foi comemorada em outubro, com uma grande "ligada" no Bar da Praia da Asbac, às margens do Lago Paranoá. Para quem não é de Brasília ou está chegando, explico: eis aí uma trupe que só poderia ter se formado na capital federal, sob medida para seus gramados e amplos espaços vazios, monumentos, blocos residenciais e quadras comerciais. O Liga Tripa formou-se nos idos de 1979, graças à afinidade de alguns forasteiros fascinados pelas perspectivas oferecidas por uma cidade em formação, em meio à poeira, à lama, aos monumentos projetados por um dos mais importantes arquitetos do mundo, por uma proposta de fazer uma cidade diferente de todas as outras. Aldo Justo, Ita Catta Preta (já falecido), Nonato Veras e Sérgio Duboc criaram um som tipicamente brasiliense, característico das caminhadas do grupo pelas quadras e gramados, cantando e arrastando a moçada, "ligando" os que os ouviam das janelas dos apartamentos ou dos bares estabelecidos nas comerciais. Outros músicos chegaram e se foram, ou permaneceram na órbita do grupo, assim como poetas e outros artistas que se deixaram envolver pela música, pela poesia, pelo astral do Liga. Sem falar nas "liguetes", as meninas que ao longo desses 25 anos fazem a animação da turma... Aldo Justo, Toninho Alves, Sérgio
Duboc, Fino, Carrapa, André Arraes, a formação atual, e outros como
Caloro, Paulo Biko, fizeram a festa dos 25 anos e continuam fazendo. O disco "Liga Tripa Informal", lançado em 1987, foi transformado em preciosíssimas 50 cópias de um CD que já virou relíquia, onde podem ser ouvidas suas mais emblemáticas canções, como "Juriti" (Paulo Tovar e Aldo Justo), Nossa Senhora do Cerrado (Nonato Veras e Nicholas
Behr), "Cores" (Aldo Justo e Carlos Ceará), "Feiticeira Louca" (Caloro), "Qual é Brasília" (Paulo
Tovar). Mas o Liga Tripa promete novidades sempre, e quando reaparece é para mostrar que a Brasília, apesar de tantas mudanças pelas quais vem passando, ainda é a cidade do Liga Tripa.
RARIDADE
Compacto simples, para quem não viveu aqueles tempos, eram disquinhos analógicos com apenas duas faixas, uma de cada lado, coisa que hoje chamamos carinhosamente de "bolachinha", em oposição aos "bolachões" ou LPs da época. Os
autores das canções, o trio Sá, Rodrix e Guarabyra, que permanecem na
estrada e mantêm sua criatividade e energia, ficaram espantados com o
achado. A bolachinha está guardada na coleção particular deste escriba. Detalhe: em perfeito estado, como se tivesse acabado de sair da fábrica, sem um
arranhãozinho, sem uma "pipoca" sequer. Até a capinha está intacta.
Iaiá, Mônica Salmaso - Enquanto os críticos discutem qual é a melhor cantora do Brasil, eu peço silêncio e ouço Mônica Salmaso. Com sua voz afinadíssima, cantando simplesmente sem precisar gritar, ela ainda é acompanhada por um time de instrumentistas de dar inveja. Esse, aliás, é seu segredo: fez de sua voz um instrumento musical e foi dividi-la com quem sabe. Este disco, assim como os anteriores, traz uma caprichadíssima seleção de repertório, escolhido com a sensibilidade de quem conhece a fundo a verdadeira música brasileira.
Música das nuvens e do chão, Hamilton de Holanda - Instrumentista genial, Hamilton de Holanda começou a tocar no Clube do Choro de Brasília, e aos 26 anos já é músico reconhecido internacionalmente. O som de seu bandolim tem surpreendido as platéias da Europa e dos Estados Unidos. Quem quiser saber por quê, ouça este CD, em que ele faz um som inclassificável, tocando do tango ao jazz.
Alma Brasileira Trio - Beleza e sensibilidade transbordantes. Toninho Alves (flauta), Celso Bastos (violão) e Ocelo Mendonça (violoncelo e violão de aço) abrem com "Passarim", de Tom Jobim, e vão até Villa-Lobos, passando por Egberto Gislmonti, Wagner Tiso e Toninho Horta, entre outros. Um dos destaques é "Clubes das Esquinas", arranjo genial em que unem "Clube da Esquina 1" e "Clube da Esquina 2", de Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges, como se fosse uma única canção. Não é à toa que Egberto Gismonti encheu de elogios este primeiro CD, independente, do grupo.
Leonard Cohen: lirismo e estranheza
Um disco belo e estranho, como vários de seus mais importantes álbuns. A faixa de abertura é "Go no more a-roving", um poema do inglês Lord Byron (1788/1824), musicado por Cohen. A partir daí, a voz de Leonard, cada vez mais grave, áspera e paradoxalmente suave, canta e eventualmente apenas declama poemas carregados de lirismo e observações surpreendentes.
As canções são emolduradas por sutis arranjos instrumentais, especialmente de piano, harpa judaica, violino, piano e sopros. Estão presentes o sax tenor de Bob Sheppard, o violino de Raffi Hakopian, a flauta de Paul Ostermayer, músicos que já o acompanharam em outros discos memoráveis. A interpretação de Cohen é apoiada pelos delicados vocais femininos de Sharon Robinson e Anjani Thomas, que no entanto às vezes sufocam a sua voz, que poderia aparecer mais em algumas faixas. Leonard Cohen lançou "Dear heather" um mês depois de completar 70 anos. Desde seus primeiros poemas, publicados a partir dos 22 anos, ele vem tentando compreender o absurdo de viver e os mistérios dos relacionamentos - para ser mais explícito, os mistérios das mulheres. Depois que começou a enriquecer a música pop com suas melodias suaves e seus poemas profundos, a partir de 1968, os diálogos travados com essas mulheres enigmáticas, complexas, estranhas, tornaram-se emblemáticos. Ninguém faz canções como Leonard Cohen. "Dear heather" dá prosseguimento a essa obra especialíssima. Fala de amor, solidão, abandono, e também de coisas que o poeta jamais entenderá, como o ataque de 11 de setembro a Nova York. E o encarte do CD é ilustrado com desenhos do poeta, revelando assim mais um de seus grandes talentos.
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