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Comentários de Alexandre Marino sobre diversos livros.

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Comentários sem qualquer pretensão crítica, 
movidos apenas pelo prazer de rever o que foi visto.

 



Livros

Ficção e memória na marcenaria de José Luis Peixoto

Os personagens caóticos de David Toscana

Atrás das linhas inimigas de meu amor, poesia de Leonard Cohen 

As crônicas de viagem de Luís Giffoni  

Trigal com corvos, de J. W. Solha  

Todas as Gerações

Estão todos aqui, Alexandre Brandão  

O Livro de Zenóbia, Maria Esther Maciel  

A razão selvagem, Francisco de Morais Mendes  

Outras resenhas de livros

 


A jornada de Lázaro
 

Cemitério de Pianos
De José Luís Peixoto.
Editora Record, 304 páginas.
R$ 40.

 

Com refinamento de ourives, o escritor português José Luís Peixoto recria a história trágica de um esquecido herói olímpico de seu país

 

O maratonista Francisco Lázaro entrou duas vezes para a história das Olimpíadas. Ele fez parte da primeira delegação portuguesa a participar dos jogos, em 1912, na Suécia, e foi o primeiro atleta a morrer durante uma prova, a 14 de julho daquele ano, depois de correr 30 quilômetros. Lenda do esporte luso, Francisco Lázaro agora é também personagem de um romance surpreendente, publicado pela Editora Record: Cemitério de pianos, do português José Luís Peixoto.

Lázaro é o personagem central de uma narrativa repleta de dramas, tragédias, pequenas alegrias e aqueles segredos que as famílias costumam ocultar sob o manto das aparências. Mas não se trata de uma biografia. Peixoto inspirou-se nesse personagem denso, mas do qual pouco se sabe, para criar um outro personagem, fruto das circunstâncias da ficção. Manejando as ferramentas da literatura com enorme precisão, Peixoto se dá essa e outras liberdades e revela que a sedução do texto não está necessariamente na economia de palavras, mas no bom uso delas.

Cemitério de pianos é resultado de uma refinada ourivesaria. O romance é narrado por três homens da família, de três gerações diferentes, cujas vozes eventualmente se confundem ou se cruzam. Embora falem em primeira pessoa, às vezes adquirem onisciência, relatando o que não presenciam, e nem a morte é capaz de calá-los. Suas falas se misturam às de personagens solitários e ecoam em ambientes escuros, eventualmente iluminados por um sorriso tímido. O texto é dividido em blocos, e as vozes se alternam entre um bloco e outro, de forma que o leitor precisa ficar atento aos pequenos detalhes, que Peixoto lhe oferece, pouco a pouco, no interior das frases. A história ganha sentido à medida que as peças se encaixam. Montar esse quebra-cabeças é um dos fascínios da leitura.

A maior parte dos personagens não tem nome, mas apenas caracterização — são referidos como "meu tio", "minha mulher", "o marido de minha filha", etc. Oito personagens são nomeados, os quatro filhos e os quatro netos do primeiro narrador, núcleo da família e do próprio romance. Um dos filhos, e também um dos narradores, é Francisco Lázaro. Os personagens-narradores são marceneiros, e a oficina onde exercem sua atividade passa de pai para filho, o que confere uma aura de imutabilidade ao fluxo da história, a não ser quando um fato trágico ocorre e quebra o clima.

Técnica apurada

Dentro da marcenaria fica o cemitério de pianos do título, e em torno dele e dos mistérios que o envolvem a família se pereniza. É como se houvesse uma melodia conduzindo e embalando história e linguagem, feita de música e poesia. Além de romancista, José Luís Peixoto é poeta, o que se revela na forma como constrói a narrativa, palavra a palavra. Os recursos de linguagem evidenciam uma técnica apurada, e dificilmente funcionariam na mão de artesão menos talentoso. O texto ganha dramaticidade com a repetição de frases e expressões, e o farto uso de dois pontos em alguns trechos traz fluência e emoção.

Peixoto nasceu em Galveias, norte alentejano, em 1974. Seus romances foram publicados na França, Itália, Bulgária, Turquia, Finlândia, Holanda, Espanha, República Checa, Croácia e Bielo-Rússia, além do Brasil. Ele já esteve por duas vezes na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e costuma incluir elementos da cultura brasileira nos livros que escreve.

O escritor já publicou sete livros de ficção e três de poesia. No Brasil, a editora Agir lançou, em 2001, Nenhum Olhar, prêmio Literário José Saramago, instituído em 1998 pela Fundação Círculo de Leitores, de Portugal, e destinado a autores com idade inferior a 35 anos. Cemitério de pianos oferece ao leitor brasileiro a oportunidade de contato com um dos mais talentosos nomes da nova geração da literatura portuguesa. Não seria má idéia publicar aqui também seus livros de poesia.

 

Cemitério de Pianos

trecho

"Foi no sótão já quase vazio que a minha mulher encontrou a caixa de sapatos que me estendeu. Pousei a caixa sobre a mesa. O rosto da minha mulher esperava uma reacção. Com a ponta dos dedos, levantei a tampa. Enfiei a mão dentro da caixa e tirei-a cheia de medalhas. Eram medalhas de cobre, presas a fitas desbotadas, enxovalhadas, gastas: trapos a perderem a cor. Eram medalhas com imagens de pequenos homens a correrem dentro de círculos feitos com folhas de louro esculpidas com pormenor. Na parte de trás, havia letras gravadas, onde estava escrito: 1º. lugar, maratona. Mais tarde, haveria de encontrar algumas de segundo e de terceiro lugar. Eu não tinha respostas. Ergui o olhar na direcção do rosto da minha mulher e, sem palavras, mostrei-lhe que também eu não sabia que medalhas eram aquelas e o que faziam no sótão. Durante esse serão, ao jantar, e depois do jantar, e ao adormecer, tentamos inventar explicações para aquela caixa cheia de medalhas: se calhar, se calhar, se calhar. Em momentos de silêncio, tentava lembrar-me de alguma coisa que a minha mãe tivesse dito, alguma coisa que tivesse visto e me ajudasse a entender. Mas nada do que me lembrava ou nada do que conseguíamos inventar parecia explicar aquela caixa de sapatos cheia de vitórias em maratonas."


Arsenal de sonhos

 

O Exército Iluminado
David Toscana
Ed. Casa da Palavra
168 páginas
R$ 36,00
 

Em seu novo romance, David Toscana recruta crianças deficientes para combater o conformismo e a máscara social

 

O Exército Iluminado, de David ToscanaO escritor mexicano David Toscana tem fascínio por indivíduos imprevisíveis, de mente caótica, que ele transforma em personagens de seus romances. Em seu mais recente livro, O Exército Iluminado, lançado no Brasil pela Editora Casa da Palavra, o leitor vai conhecer o General Ignácio Matus e seus bravos soldados, que promovem uma inusitada tentativa de recuperação do Estado do Texas, que os Estados Unidos conquistaram ao México no século 19.

Não se trata de uma tropa qualquer, assim como não é uma guerra comum. O grupo é formado por cinco crianças que sofrem de retardo mental, seduzidas por um professor que guarda duas frustrações na vida: ver o mapa do México limitado ao norte pelo Rio Bravo e não ter conquistado uma medalha na Maratona de Paris de 1924. Assim como a narrativa de Toscana, as aulas de História do professor Matus são um delirante discurso contra o conformismo. Ele é quase um alter-ego do escritor, que, nascido em Monterrey, um dos cenários do romance, também é ex-maratonista e um eterno inconformado com a perda do território.

Matus comanda seus alunos nessa guerra cheia de lirismo, apesar de alguns elementos comuns a qualquer guerra. Com esperança e coragem, eles acreditam que vencerão o poderoso império bélico-tecnológico. Levam um arsenal de sonhos e mochilas onde guardam caixas de gelatina, pepinos, estojos de maquiagem, pastas de dente, talco de bebê, estilingues, saca-rolhas e outros objetos igualmente imprevisíveis. General e comandados são indivíduos limitados que se superam, adormecidos que se transformam em sonhadores, párias que reescrevem a História. Sob seu manto de fantasias, Matus abarca o que pode haver de lírico numa guerra que não chega a ser declarada, mas que será, ainda assim, um símbolo de redenção, como também o que pode haver de bélico numa disputa esportiva, que muitas décadas depois torna-se mais uma de suas lutas solitárias.

Ao manipular esses bravos guerreiros e criar espaço e sentido à sua ação, Toscana exerce o poder da literatura para manter vivos os sonhos impossíveis e dar voz a personagens fora da normalidade. Ele maneja uma linguagem sem fronteiras entre descrições, diálogos, tempos passados ou futuros, pensamentos ou ações, conduzindo o leitor pelas mesmas estradas ilusórias de seus personagens e tornando-o cúmplice onisciente, com quem partilha razões e erros. Assim, tendo a escrita como arma e fazendo cair a máscara dos padrões sociais, o escritor vence a sua guerra pessoal.

David Toscana tem ultrapassado as fronteiras de seu país, com obras traduzidas para o alemão, árabe, grego, inglês, sérvio e sueco, além do português. Os rotuladores de plantão já criaram para ele a marca do “realismo desvairado”, depois de tentar incluí-lo na corrente da moda, a dos críticos do realismo mágico. Mas Toscana não assume essa identidade, apesar de ter participado da antologia de contos McCondo, um trocadilho infame que tenta vincular o rico universo da cidade imaginária Macondo, dos romances de García Márquez, à pobreza mental da padronização pós-moderna simbolizada pela rede de lanchonetes McDonalds.

O Último Leitor, de David ToscanaDesde seus primórdios, a literatura sempre exerceu fascínio por romper os limites da lógica e da precisão histórica. Toscana afirma que não se interessa por tipos normais e que sua luta é pela liberdade de imaginação. Mas, se seus romances são alegorias, os personagens são próprios do mundo real, de onde o escritor os retira em estado bruto. Tomem-se como exemplo outros livros do autor, como O Último Leitor (Casa da Palavra, 2005) ou Santa Maria do Circo (Casa da Palavra, 2006). Neste, a trupe de um circo decadente cria uma comunidade utópica no meio do deserto, ambiente que remete a Juan Rulfo, um dos maiores nomes da literatura mexicana do século 20.

Em O Último Leitor, Toscana faz uma declaração de amor à literatura, inserindo-a como personagem nobre entre tantos malfadados. A história de Lúcio, o bibliotecário de uma biblioteca sem leitores, é uma parábola sobre o conhecimento e a capacidade de refletir e fazer escolhas, proporcionados pelo hábito de ler, e também uma aclamação da leitura como prazer. Uma característica comum aos personagens de Toscana é a tentativa de reescrever a História e estabelecer uma nova escala de valores, ainda que apenas para si mesmos.

Toscana tem se saído bem na tarefa de criar uma linguagem própria, que retrata a tragédia do continente, com sensibilidade e ironia. Depois de séculos de opressão econômica e cultural, o homem latino-americano ainda luta pela reconquista de sua dignidade, com todos os erros e acertos a que tem – ou não – direito. O que há em comum entre esses povos, além do atraso, do poder opressor, dos seus “ridículos tiranos”, como disse Caetano Veloso numa canção dos anos 80, é a predestinação de ser sempre a terra dos absurdos, prato cheio para a literatura e o que há de mágico e fantástico na criação artística.

 

O Exército Iluminado

(trecho)

 

“A caminho da sala resolve dizer à mulher que sua missão não é um absurdo e que se envolver nela é uma opção. A mulher pega o copo e começa a beber. É algo voluntário, diz Matus, se você não quer... Sou a mãe de Cerillo, interrompe a mulher, e ainda que as pessoas o julguem incapaz eu o amo mais que aos meus outros filhos. As professoras do instituto são boas pessoas, mas contam histórias para crianças, falam com eles como se fossem bichinhos de pelúcia, organizam jogos sem desafios, pedem que imitem sons de animais de granja, em vez de poesia lhes ensinam a mugir; eu não sei se são elas que atrofiam meu filho e o fazem babar. As professoras não lhe permitiriam trocar uma lâmpada porque dizem que iria se eletrocutar e agora fico sabendo que você quer dar armas de fogo e ordens militares a ele e a possibilidade de matar o inimigo; um plano de ataque em vez de livros para colorir, uma trincheira no lugar de travesseiros. A mulher se agacha em frente a Matus e pega sua mão esquerda. Você pode transformá-lo num herói? Você pode fazer com que em alguma praça de Monterrey um dia levantem uma estátua de bronze ou de mármore ou de qualquer material incapaz de babar? Matus também se agacha e abraça a senhora. Seu filho é um herói desde o momento em que decidiu se recrutar, mas eu não tenho poder sobre as estátuas nem sobre as praças nem sobre os nomes das ruas; eu nem sequer posso lhe garantir que voltaremos com vida, e em todo o caso você sabe que os heróis mortos são maiores que os feridos e os feridos maiores que os salvos e os salvos maiores que os que ficaram em casa.”

(pág 30/31)

Caderno Pensar, Correio Braziliense, 8 de dezembro de 2007


O poeta dos amores e da escuridão

 

Primeiro livro de Leonard Cohen lançado no Brasil
é uma boa amostra de sua poesia

 

Sem respostas para as dúvidas que o sufocam, o poeta se salva ao dar vazão às palavras, como um grito ou sangramento que não se pode estancar. Quando as palavras certas se encontram, criando imagens que dão cor e alma à sua leitura do mundo, nasce o poema. No caso do canadense Leonard Cohen, a poesia é um mergulho desesperado e corajoso na escuridão interior, onde se escondem os horrores da História, os desejos e fracassos individuais, as dores das perdas irreparáveis. Os versos de Cohen emocionam pelo que têm de intimista e autobiográfico e, ao mesmo tempo, universal.

O poeta nasceu em Montreal em 1934, de tradicional família judaica, que preferia vê-lo desenvolver o talento para os negócios. Mas sua arte sempre foi a poesia. Aos 32 anos, insatisfeito com a pouca vendagem dos quatro livros que publicara, decidiu dedicar-se à música, tornando-se um compositor cultuado em todo o mundo, ainda que pouco conhecido no Brasil, e levando seus versos a um público de mesma dimensão.

Hoje, Leonard Cohen tem 17 CDs gravados, entre originais e coletâneas, e 11 livros, dos quais seis de poesia, todos contemplados na antologia “Atrás das linhas inimigas de meu amor”, que a Editora 7 Letras, do Rio de Janeiro, acaba de lançar, com tradução de Fernando Koproski. É um belo presente para os leitores brasileiros, especialmente os que já cultuam o Leonard Cohen cantor e compositor. Se seus discos, embora raros, sempre são lançados no Brasil, os livros nunca haviam aportado por aqui.

Para os neófitos, é preciso lembrar que Cohen é, acima de tudo, um poeta. Mais que isso, é o poeta dos amores, das paixões, do desejo e suas impossibilidades. “Libertino encantador”, como o definiu o escritor Nelson de Oliveira na orelha do livro, Cohen é também o poeta do amor físico. “Entendo aquelas garotas romanas / dançando ao redor de uma coluna de pedra / beijando-a até a pedra ficar cálida. / Ajoelhe-se, amor, mil pés abaixo de mim, / tão longe que mal perceba tua boca e mãos / efetuando a cerimônia”, escreveu em “Celebração”.

É, também, o poeta da inútil busca da felicidade, do inconformismo, da melancolia, da insatisfação com o mundo – e tudo aquilo que ele oferece e nega. “O que posso te dizer de migrações / se nesse céu esvaziado / nítidos fantasmas de pássaros do verão passado / ainda deixam sinais; / ou dos vôos desesperados / se o mais leve esvoaçar de uma asa colorida / leva todas as nossas ruas preferidas / a suspirar pela primavera sonhada” (“Os pardais”).

A poesia de Leonard Cohen aborda também suas raízes histórico-religiosas e a procura por uma verdade pessoal nesse campo. Se na juventude foi um estudioso do Judaísmo, na maturidade ele ensaiou um rompimento, o que não o livrou da sombra do holocausto, que persegue todos os judeus e é tema recorrente em seus poemas. Em seu caminho, Cohen foi até o Zen Budismo, vivendo cinco anos como monge no Mosteiro de Mounty Baldy, nos arredores de Los Angeles.

“Atrás das linhas inimigas de meu amor” reúne 50 poemas, selecionados pelo tradutor Fernando Koproski. Destacam-se “Suzanne” e “Dance-me até o fim do amor”, sucessos na sua carreira de músico. Sente-se falta, assim, do poema veiculado em sua mais emblemática canção, “Bird on the wire”. É o mais perfeito auto-retrato do poeta: “Como um pássaro no fio, como um bêbado numa cantoria noturna, eu vou buscando o meu jeito de ser livre”, diz a primeira estrofe.

Outra falha é não constar, em cada poema, o título do livro em que foi originalmente publicado. Isso permitiria ao leitor contextualizar melhor sua poesia, feita de vários livros – do amor, do tempo, do horror, da beleza, do desejo, de perdas e permanências, do sagrado e do profano, como define o próprio Koproski na apresentação.

Como o objeto desta reflexão é a poesia de Leonard Cohen, e não sua tradução, evita-se aprofundar nesse tema, até mesmo porque toda tradução é questionável. Os versos livres de Cohen facilitam a tarefa, mas algumas das belas imagens originais se perdem em versões infelizes. Exemplo: o verso “Show me slowly what I only / know the limits of” (literalmente “mostre-me devagar aquilo de que só conheço os limites”) foi traduzido por “Leve-me onde mora com demora / o que eu só sei a se pôr” (“Dance-me até o fim do amor”).

O trabalho de Koproski, independente de erros ou acertos, é o trabalho de um fã, o que se evidencia no poema, inserido no texto de apresentação, com que homenageia o ídolo. Seu maior mérito foi a dedicação com que mergulhou na obra escrita do bardo canadense para dividi-la com uma suposta platéia. Se o leitor tiver bons conhecimentos de inglês, o proveito será maior, pois a edição é bilíngüe. Leia o original, imaginando ouvi-los na voz grave e sepulcral do poeta. Assim como a música de Cohen, sua poesia é uma experiência singular.

Correio Braziliense, 3 de janeiro de 2008


Viagem a um planeta exótico

 

Os relatos de viagem de Luís Giffoni descrevem um mundo diferente e, ao mesmo tempo, real

Apenas cinco pilotos em todo o mundo são capazes de fazer aterrissar um Boeing 737 no aeroporto de Leh, principal cidade do Ladakh, na Caxemira Oriental. Eram seis, mas um deles vacilou na quase impossível tarefa, que consiste em manobrar entre picos nevados, deixar a aeronave despencar e, pouco antes de espatifar-se, erguer novamente o nariz, tocando a pista curta com os freios travados, e terminar o pouso com um cavalo-de-pau. A aventura é descrita em detalhes no livro “Retalhos do Mundo”, de Luís Giffoni, que leva o leitor a lugares exóticos em várias partes do globo, onde os seres humanos teimam em se estabelecer, pagando pela sobrevivência o preço que for necessário.

Giffoni publicou 17 livros em 19 anos. Entre romances, volumes de contos e literatura infanto-juvenil, dois se destacam por representar um filão pouco explorado na literatura brasileira – as crônicas de viagem. Além de “Retalhos do Mundo”, publicado em 2005, Giffoni lançou, em dezembro do ano passado, “O Reino dos Puxões de Orelha e Outras Viagens”, que revela curiosidades sobre os costumes de países tão diferentes como Nepal, Estados Unidos, Chile ou Indonésia, reflete sobre a História e analisa mitos, crenças e cultura desses e outros povos.

As crônicas de viagem são fruto de um amplo projeto literário que o escritor vem desenvolvendo desde seu primeiro livro, “A Jaula Inquieta”, publicado em 1988. Para Giffoni, o conhecimento é um só; não há separação entre arte, ciência, filosofia, mitologia, história. Ele busca a imersão no mundo para compreender a cultura, e viaja para mergulhar nos mistérios da humanidade, numa tentativa de desvendá-los. O resultado é literatura.

E que mistérios... Em sua trajetória na Terra, o ser humano construiu civilizações sustentadas pelo conhecimento acumulado, e autonomeou-se animal racional para distinguir-se de todas as demais espécies. No entanto, cada povo desenvolveu suas próprias estranhezas, que parecem negar qualquer racionalidade. Em 1991, conta o escritor em um relato sobre a Indonésia, o vulcão Pinatubo recusou-se a atender as orações das tribos que viviam em suas encostas e o adoravam como a um deus. A erupção não deixou sobreviventes.

A humanidade, lembra Giffoni, é feita de personagens que vivem em lugares inóspitos, entre pedras e poeira, ao pé de vulcões furiosos. O mundo é diferente daquele que se imagina – ou é, na verdade, resultado do cruzamento das diferenças. Como diz o escritor, o fim do mundo está em todo lugar, assim como o paraíso. Num desses fins de mundo, o vilarejo de Phyang, na Índia, abrir inadvertidamente a porta do templo da deusa Khali, fora da data estabelecida (uma vez a cada 100 anos), pode liberar a fúria da sanguinária divindade, e trazer toda sorte de desgraça para o povo.

Com o olhar arguto do ficcionista experiente e do viajante que conhece mais de 50 países, Giffoni convida o leitor a assumir diante do mundo uma postura de humildade. A leitura de suas crônicas de viagem deixa a impressão de que o ser humano não é apenas o criador de tecnologias avançadas, mas também o humilde habitante de um planeta muito maior que sua soberba. Pode-se percebê-lo ao contemplar as sequóias gigantes, árvores com mais de 80 metros de altura, nascidas antes do faraó egípcio Tutancâmon; o Grand Canyon, fenda de 300 quilômetros de extensão escavada pelo rio Colorado, nos Estados Unidos, ou simplesmente convivendo com as baratas que infestam a ilha de Fernando de Noronha.
Esse humilde habitante do planeta aprendeu a conviver com a instabilidade da natureza e ergueu obras gigantescas, como Taj Majal, na Índia, Macchu Picchu, no Peru, e a cidade sagrada de Teotihuacán (México). Essas maravilhas da engenharia têm em comum, além do fato de sobreviver às civilizações que as construíram, o de simbolizar contextos culturais complexos e histórias de guerras, massacres e assassinatos.

Giffoni, escritor de vasta cultura e linguagem ágil, enriquece seus relatos com dados históricos e geográficos e transforma o habitante dos lugares que visita em personagem quase de ficção. Leva inexplicáveis puxões de orelha nas ruas da Tailândia, testemunha a morte de alpinistas canadenses sob uma avalanche no Nepal, joga pôquer com um general chileno e um argentino, enquanto os dois países se preparam para entrar em guerra. Na Índia, visita o templo Pashupatinath, para onde os moribundos se dirigem na busca de melhor lugar para aguardar a cremação do próprio corpo. E, no interior da Amazônia, participa do primeiro contato de uma tribo de índios gigantes com a civilização e com o letal vírus da gripe.

Os relatos de Giffoni podem ser úteis para quem se aventurar a conhecer os lugares por onde ele passou. Mas não são guias de viagem. Podem ser lidos como ficção ou história. Mas não são compêndios para ensinar o leitor. As crônicas são conseqüência natural do hábito de tomar notas durante as viagens, desde que passou alguns meses nos Estados Unidos fazendo um intercâmbio estudantil, ainda na adolescência. Sua pena de ficcionista só se manifesta com toda a força em um dos relatos do livro “O Reino dos Puxões de Orelha”. Giffoni não resistiu e criou um país imaginário, Manatu Bakara, numa ilha paradisíaca do Pacífico Sul, embasado na mitologia dos povos da região.

Luís Giffoni, mineiro de Baependi, 57 anos, recebeu importantes prêmios literários, como o Jabuti, Bienal Nestlé, Minas de Cultura, além de indicações da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). É engenheiro civil por formação, mas desde a publicação do primeiro livro, em 1988, fez uma lenta transição entre essa atividade e a de escritor, a ponto de dizer-se, hoje, ex-engenheiro. Pós-graduado em astrofísica e literatura norte-americana, sempre foi leitor voraz dos mais variados gêneros, de literatura a livros científicos, de mitologia a filosofia, o que gerou uma bagagem de conhecimentos que confere à sua ficção algumas características bastante peculiares. O leitor saberá identificá-las.

Caderno Pensar, Correio Braziliense, 7 de julho de 2007


A poesia de J.W. Solha deve ser lida em voz alta

 

“Minha arte é bruta”, avisa um dos primeiros versos de Trigal com Corvos, livro de poemas do multiartista J.W. Solha. Mas é uma brutalidade serena, embora incontida; a brutalidade dos inconformados. São 110 páginas, ao longo das quais ele desfila um rosário de inconformismos, em versos que evocam desde a Rainha Má da história da Branca de Neve até Hitler, Gengis Khan, passando por Fellini e Jimmy Hendrix e, acima de todos, Deus.

Solha escreveu romances e peças de teatro, atuou no cinema e fez exposições de pintura. Trigal com Corvos, seu único livro de poesia, foi lançado em co-edição entre a Imprell, de João Pessoa, onde ele vive, e a Palimage, de Portugal, depois de classificar-se entre os finalistas da Bienal Nestlé de Literatura, em 1991.

Trigal com Corvos é um grande poema cujos versos vão trocando de temas e abordagens com a velocidade de um caleidoscópio. Parece veicular a ansiedade do autor, que derrama suas angústias acumuladas e não perdoa nada nem ninguém. “O que existe é um frio programa que usa sofrimentos como esporas que / estuguem nosso esforço pela Evolução / e onde o que importa é o superorganismo chamado Homem / não cada uma das milhões ou bilhões de céulas ambulantes que somos dele / salvaguardada entre nós a preservação de uma média permanentemente ativa / sempre renovada / que garanta a marcha ao ponto para onde convergem ou de onde partem / todas as nossas perspectivas”.

A lógica da poesia de Solha – se é que poesia e poeta devem seguir alguma lógica – é a do alienígena que testemunha absurdos e não consegue compreender a docilidade de seus agentes e vítimas. É a lógica da criança que aponta o dedo e pergunta: “Por que – se existe um Deus – não me fez melhor? / Imagino que teria sido mais fácil do que planejar / sincronizar / e programar o lépido movimento octópode das aranhas e o do exército de pernas das centopéias!”

Solha começa o livro questionando a si próprio – ou, para ser exato, o ato de escrever. Passa, em seguida, a tentar compreender, ou incompreender, o tempo e o envelhecer, inútil atividade sem fim da literatura. E, ao final, desmascara Deus: “se houvesse realmente acontecido algum momento / na História / em que alguém tivesse encravado uma coroa de espinhos em Deus / e lhe tivesse metido umas porradas na cabeça / cuspido na cara dele / despejando-lhe uma carrada de desaforos / mereceria de mim o perdão / pois o que o homem sofre neste mundo / criado por tal personagem criado por nós / ...é de um sadismo que chega a ser... torpe.”

O livro de W. J. Solha não é daqueles que o leitor esquece na estante e na memória. Sua poesia é de uma aspereza que incomoda o leitor – e ele se põe de pé, para ler em voz alta.

(dezembro/2007)


 

Todas as gerações

Está saindo do forno mais um belo trabalho de garimpagem e documentação sobre a literatura feita em Brasília. Mais uma vez, quem está à frente da empreitada é o escritor Ronaldo Cagiano. Neste livro, Todas as Gerações - o conto brasiliense contemporâneo, ele reuniu 102 autores para mostrar a vitalidade da arte da escrita na capital brasileira.

Cagiano já organizou antologias semelhantes. O que distingue esta das demais é que aí estão apenas, como o título diz, escritores vivos, em plena atividade. Há um ou outro caso de autores que se mudaram recentemente, mas neste caso são brasilienses e criados na cidade.

Pode-se dirigir a esta antologia as mesmas críticas que usualmente se fazem a qualquer antologia. Mas é interessante observar que se trata de um importante documento, e mais ainda para uma cidade que ainda está com seu universo cultural em formação. Cagiano observa que reuniu no livro escritores de três gerações: a pioneira, que são aqueles que para cá vieram nos anos de inauguração da capital; uma já estabelecida, representada por escritores que aqui vivem há muito tempo e já se estabeleceram, embora não tenham raízes brasilienses; e uma nova, formada por autores aqui nascidos e criados, e que já incorporaram Brasília no seu universo ficcional.

Todas as Gerações é editada pela LGE e terá lançamento na cidade muito em breve. Este escriba, como um dos antologiados, sugere aos internautas que estejam atentos, e que se considerem convidados.

 


Histórias sem piedade

Estão todos aqui
Alexandre Brandão
Ed. Bom Texto, RJ, 136 pp.

Estão todos aqui, Alexandre BrandãoSeres humanos acuados entre o tempo e a morte, as grandes dores e as pequenas alegrias, os sonhos inconfessáveis e o fracasso. Com essa fauna, o escritor Alexandre Brandão povoa o universo de sua literatura, especialmente seu mais recente lançamento, o livro de contos Estão Todos Aqui (Ed. Bom Texto, RJ, 2005). A leitura de seus textos provoca um inevitável desassossego, e a expectativa de que a linha, o parágrafo ou a página seguintes sejam brandas nas surpresas que guardam.

É o caso, por exemplo, do conto que abre o livro, O que vai dentro da caixa, cuja principal personagem não chega a ser apresentada ao leitor, mas gravita ao redor dele e perturba. O texto trata de uma caixa de pandora sem esperança, uma história de amor que se transformou em restos, ruínas, e sobrevive apenas na memória de um homem que vaga pela cidade tentando assimilar o inevitável.

Ao abrir o livro com um conto sufocante, Alexandre Brandão já avisa que seu trato com a arte é sério, e o leitor que se cuide. O volume tem outros três contos e uma novela, Todas as fichas, dividida em capítulos que funcionam quase como se fossem contos avulsos. O ponto alto é A cidade na espera, onde o autor volta a criar o clima de sufocamento para falar das tensões urbanas que cercam os personagens, vítimas e agentes de um mundo que não admite a ingenuidade. 

Entre os contos, outro destaque é Domingo cuidamos dos filhos, que coloca frente a frente o erotismo sem culpa das crianças e a culpa sem erotismo dos adultos. Alexandre Brandão revela a inversão de valores na mente de adultos sufocados pelas frustrações e crianças ainda imunes ao medo.

Estão todos aqui é o segundo livro do autor, publicado 10 anos depois de sua estréia, com Contos de homem (Ed. Aldebarã). Mesmo que em alguns momentos ele resvale perigosamente em alguns clichês, sua literatura não se desequilibra, pois se apóia numa atividade artesanal que lhe permite a cuidadosa lapidação das palavras e o aprisionamento do leitor no mesmo turbilhão onde se debatem os personagens. O incômodo é sempre um ponto a favor. 

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A delicadeza das palavras


O Livro de Zenóbia
Maria Esther Maciel
Ed. Lamparina (RJ)
160 páginas.

O livro de Zenóbia, Maria Esther MacielPoesia em prosa, ou prosa poética, não importa. Importam as palavras e o fino lavor de escolhê-las, lapidá-las e colocá-las cada uma em seu lugar. É assim que se produz um texto cuja leitura é puro prazer. Enquanto olhos e imaginação passeiam pelas palavras, a história flui como água, e os personagens brotam das páginas para a memória do leitor.

O objeto da descrição acima é O Livro de Zenóbia, de Maria Esther Maciel, publicado pela Editora Lamparina (RJ). O volume é enriquecido pelas bonitas e delicadas ilustrações de Elvira Vigna e pelo projeto visual de Sebastião Nunes, que, além de poeta que dispensa apresentações, é artista gráfico de alto quilate. Maria Esther Maciel já publicou vários outros livros, entre os quais Triz (poesia, Oboró, 1998) e A Memória das Coisas (ensaios, Lamparina, 2004).

O livro da autora mineira, professora de Teoria da Literatura da UFMG, serve as palavras como a avó serve as guloseimas, e dá a impressão de que escrevê-las é tão fácil e natural como preparar biscoitos e brevidades. O mundo de Zenóbia é esse mundo belo e estranho, triste e digno, comum e surpreendente, povoado de amigos sinceros, móveis raros, mulheres santas, porcelanas finas, fantasmas e quitandas. 

Cada frase é artesanalmente construída e lapidada, mas fluente como se nem tivesse sido pensada, dita durante um sonho bom que dura para sempre. É assim que, além de nos oferecer personagens e histórias, O Livro de Zenóbia nos fornece sua coleção de livros de cabeceira, de palavras preferidas, de aves em perigo, de temperos e ervas de cheiro, de cidades raras (você já pensou em visitar Olho d´água das Cunhãs? Carrasco Bonito? Venha-Ver? Canafístula?). 

E há também as receitas de Zenóbia: salada de melancia gelada com hortelã e queijo de cabra, sopa de cenoura e maçã ao açafrão para as noites insossas, torta de abóbora com canela e gengibre contra tristeza... Aliás, contra esse mal outro bom remédio é o próprio Livro de Zenóbia. 

 

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Afogados em quimeras

 

A razão selvagem
Francisco de Morais Mendes 
Ciência do Acidente (SP)
144 páginas

A razão selvagem, Francisco de Morais MendesEscritores são criaturas estranhas, que despendem energia na construção de mundos imaginários e seres às vezes mais reais, ou realistas, que seus próprios modelos. E para que serve esse exercício? Para fazer um retrato sem retoques de seu tempo, de maneira ainda mais precisa que o jornalismo, porque só à literatura é facultado penetrar nas entranhas da alma de seus personagens, colher o sangue que jorra de seu coração, dissecar mentes doentias em sua aparente normalidade. 

Antes de prosseguir nessa inócua discussão, interrompamos o curso da conversa para falar de um desses criadores que moldam mundos e personagens com esmero de paciente artesão. Em seu segundo livro, A razão selvagem (Ciência do Acidente, São Paulo, 2003), Francisco de Morais Mendes prossegue e evolui na tarefa a que já se propusera quando lançou Escreva, Querida (Mazza Edições, Belo Horizonte, 1996): fotografar caóticos cenários das grandes cidades e seus não menos loucos habitantes, travestidos de cidadãos inofensivos e normais. 

A razão selvagem reúne sete contos, e começa brando e sutil em sua primeira página, onde o autor descreve o comportamento rotineiro de um senhor no aconchego de seu lar, depois de um dia cansativo de trabalho. Nada de anormal: a televisão, uma partida de futebol, uma limonada. O que se desenrola no conto, que vai ganhando em densidade e força a cada linha, é um diálogo telefônico entre um médico legista e uma voluntária que presta serviços a uma entidade filantrópica. O conto — Você ainda está aí? — é uma homenagem ao escritor Luís Vilela, como o bom leitor poderá perceber ao longo do relato. 

O que vem pela frente é essa narração angustiante proporcionada pela pena de Francisco de Morais Mendes, que vai construindo seus personagens a partir de detalhes psicológicos que, ao serem montados como um quebra-cabeças pelos olhos do leitor, dão origem a criaturas ao mesmo tempo normais e monstruosas — seres assim que a gente vê todos os dias através da janela, da televisão ou do espelho. 

Em Redes, Mendes monta um complexo diálogo/monólogo entre moradores de um hospital psiquiátrico, em que supostos loucos dissecam as sujeiras e loucuras do mundo normal. Apartamentos relata as andanças de um fotógrafo que disseca a cidade por meio de fotos de apartamentos vazios, que visita sob o pretexto de alugá-los. O personagem, Homero, convive superficialmente com pessoas que cruzam seu caminho de potencial inquilino — um pedreiro, um funcionário da imobiliária, um vizinho meio louco. Para depois desvanecer-se, na própria história, como as fotografias que coleciona, mas não servem para nada. 

Em Quimeras, um professor universitário que só vê com nitidez até “a quinta fileira” — o resto é penumbra — tenta entender suas ilusões, entre elas uma aluna misteriosa que vive nessa zona de sombra e talvez nem exista. O velho professor reflete com seus alunos sobre o escritor John Cheever, e com um colega sobre o compositor Van den Budenmayer, autor de um concerto da trilha sonora do filme As duas vidas de Veronique, de Krzysztof Kieslowski. 

A crítica da razão selvagem nos revela o lado escuro da alma de uma classe média egoísta, fechada em suas próprias neuroses, na pessoa de uma advogada criminalista, que diz defender bandidos da fúria da sociedade. O leitor que decida, ouvindo os argumentos dela, quem é ou não digno de defesa.

São personagens complexos e ao mesmo tempo simplórios na sua pequenez, esses com os quais se identificam os leitores, pequena parcela de um país mergulhado na tragédia. Um país onde poucos, muito poucos podem viver nas condições desses personagens, com emprego, lazer, academia, carro próprio, tempo para fazer compras ou simplesmente filosofar diante de um copo de uísque. 

É uma literatura para poucos, como qualquer literatura de qualidade feita no Brasil. Um país que finge ser grande, que finge ser erudito, que finge ser o que não é. No livro de Francisco de Morais Mendes, há sempre alguém fingindo ser o que não é, ou simplesmente criando ilusões que aos poucos se desfazem. Sintomas de uma sociedade que se esconde por trás de aparências, que mantém vivas suas esperanças apenas pelo prazer masoquista de vê-las agonizar, e tenta salvar-se do naufrágio agarrando-se a quimeras.

 

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OUTRAS RESENHAS

As resenhas que se seguem foram publicadas no jornal Correio Braziliense entre 1995 e 1998. 

 

A chuva amarela, Julio Llamazares

Um crime delicado, Sérgio Sant´Anna 

Da mão para a boca, Paul Auster 

Mande beijos a Gardel, Gilberto Abreu   

Escreva, querida, Francisco de Morais Mendes   

Memórias da chuva,  Ruy Espinheira Filho    

Ponto pé de flor, Clara Pinto Correia    

 


 

A Chuva Amarela
Julio Llamazares
Tradução de Monica Stahel
Editora Martins Fontes
150 páginas

 

Prazer sufocante

 

Um homem está morrendo. Com suas últimas forças, ele cava a própria sepultura num cemitério tomado pelo mato e volta para casa, onde aguarda com impaciência o irremediável. É um homem de 60 anos, que levará consigo a lembrança dos momentos finais de um povoado, que vai morrer junto com ele. O romance A Chuva Amarela, do espanhol Júlio Llamazares, lançado no Brasil pela Editora Martins Fontes, é o monólogo desse homem, que usa as palavras para dar ordem a suas recordações e sentimentos.

É um livro sobre a solidão, uma solidão tão imensa que os personagens parecem recusar-se a entrar em suas páginas. O narrador vaga pelas ruas de Ainielle, entre musgos, sarças e árvores que tomam conta das casas em ruínas, enquanto evoca antigos moradores que morreram ou partiram. Em breve, o povoado será um deserto completo, e nem a fiel cadela sem nome que lhe faz companhia poderá sobreviver. 

O autor, nascido em 1955, abandonou a advocacia para dedicar-se ao jornalismo, mas foi na literatura que se consagrou. Depois de dois livros de poemas e cinco romances, tornou-se uma das figuras de maior destaque da atual narrativa espanhola. La lluvia amarilla, publicado originalmente em 1988, é um livro especial. Afinal, o povoado onde Llamazares nasceu, Vagamián, desapareceu da mesma forma.

Portanto, tema e cenário do romance não são produtos da fantasia. Nem mesmo o nome. Llamazares adverte, no início do livro, que Ainielle, povoado situado nos Pireneus, a cadeia de montanhas que separa a Espanha da França, ficou completamente abandonado em 1970, e suas casas apodrecem em meio à neve. Embora os personagens sejam fictícios, estão de tal forma inseridos na realidade que bem poderiam ser verdadeiros, como admite o escritor.

Nesses últimos dias de Ainielle, os personagens mais densos são a neve que cobre os restos das ruas e casas, a igreja, o moinho, o rio. O fogão da casa do narrador e o fogo que nele queima ganham força nas páginas finais. As casas abandonadas têm até nomes - os de seus antigos moradores. A cadela, mesmo sem ter sido "batizada", é a única criatura capaz de dirigir ao dono alguma coisa próxima de um olhar humano.
A ausência de acontecimentos é ritmada pela neve que cai, pelo vento que assovia no telhado, pelo silêncio da noite, pela chuva. O eterno ciclo da natureza. E, se não há viva alma nessa paisagem, lá estão os fantasmas dos antigos habitantes, que um dia deram vida a esse amontoado de pedras em meio ao verde da montanha. 

"E, para mim, já cansado de tudo, cansado, sozinho e sem nenhuma necessidade ou desejo, com a caça e a colheita dos quintais - de que eu era o único dono - teria o suficiente." O homem se reduz a sua porção animal. Vivendo uma solidão irremediável, nela mergulha por sua própria vontade. Por quê? É um mistério para o leitor descobrir, página após página, ao invadir a alma do personagem.

Dificilmente alguém permanecerá indiferente à leitura de A Chuva Amarela. Haverá o impulso de ler em voz alta. Ao obedecê-lo, o leitor será capturado pelo texto poético e melancólico de Llamazares e não conseguirá parar. A sonoridade da narrativa o conduzirá a um sufocamento, e algumas frases poderão umedecer-lhe os olhos. Mas será um sufocamento prazeroso, aquele da leitura que nos deixa sem fôlego.

O que pode haver de atraente num livro que é triste pela sua própria essência? E por que esse livro, sendo triste, é também belo? Não será fácil esgotar as respostas. Para começar, talvez seja o caso de se dizer que aquele homem, na pequenez de sua solidão, revela uma certa grandeza inerente à própria condição humana. A de um personagem ainda senhor de sua vontade e de seu destino, capaz até mesmo de deter o tempo e fazê-lo correr no sentido contrário, como ao virar um relógio de areia. É a única diferença entre o homem e as cobras, javalis, lagartos e o matagal que o cercam. 

 

A Chuva Amarela
trecho

"Tudo começou com a descoberta daquele velho retrato de Sabina. Estivera sempre ali, na parede da cozinha, bem em cima do escano em cuja ponta ela sempre se sentava e que agora permanecia vazio e imensamente só à minha frente. Era uma antiga fotografia amarelada - Sabina com a roupa de domingo: aquele vestido pobre e preto, aquele xale de linha cinza sobre os ombros, os mesmos brincos do casamento desempoeirados para a ocasião - que um fotógrafo de Huesca havia tirado quando descemos para nos despedir de Camilo na estação. Eu mesmo lhe colocara uma moldura de madeira e o pregara na parede. Desde então - havia vinte e três anos -, sempre estivera ali. Mas os olhos habituam-se a uma paisagem, incorporam-na pouco a pouco a seus costumes e a suas formas cotidianas e acabam por transformá-la numa lembrança do que o olhar, certa vez, aprendeu a ver. Por isso, aquela noite, quando de repente reparei na presença amarelada do retrato, os olhos de Sabina cravaram-se nos meus como se, naquele instante, ambos se tivessem visto pela primeira vez. "

 

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Um Crime Delicado
Sérgio Sant'Anna
Editora Companhia das Letras
132 páginas

 

Duelo de ambigüidades

 

O escritor Sérgio Sant'Anna leva para um tribunal o conflito entre a obra de arte e a crítica. Seu novo romance, Um Crime Delicado, injeta complexidade às discussões estéticas e exercícios metalinguísticos que caracterizam o conjunto de sua obra.

O personagem principal e narrador é o crítico de teatro profissional Antônio Martins. Suspeito de haver cometido um crime, ele "escreve" o livro, pelas mãos de Sant'Anna, para dar sua versão da história. 

No tribunal, Martins trava um duelo verbal contra o artista plástico Vitório Brancatti, tentando provar que a arte deste não passa de uma farsa. Já o artista, ao criar o mundo ficcional que serve de cenário para o suposto crime, tenta impor às consciências a verdade da obra, e delas obter o reconhecimento de sua arte. Quem sai vencedor? Só ao leitor cabe responder. 

Uma obra de arte, qualquer que seja, carrega dentro de si um pacto de cumplicidade estabelecido entre o artista e o receptor. Apesar de criada com elementos do mundo real, essa obra é sempre ficcional, mesmo que se proponha a representar fielmente a realidade. Para que possa entendê-la, interpretá-la e emocionar-se, o espectador deve aceitá-la como verdadeira - eis os termos do pacto. 

E o que faz a crítica? Enquanto uma obra de arte encerra boa dose de emoção, a crítica a interpreta utilizando-se de instrumentos como razão e teoria. O crítico teoriza sobre a obra e desnuda o pacto entre artista e receptor, quebrando o encanto. 

"Costumo comparecer aos espetáculos somente alguns dias depois de sua estréia, protegendo-me do clima artificioso e acumpliciador dos lançamentos", explica o personagem Antônio Martins, que procura despir suas matérias de qualquer emoção.

Em Um Crime Delicado, Antônio Martins é um personagem dúbio. Apresenta-se como crítico, mas se considera parte da obra de arte de Vitório Brancatti. Além disso, como virtual autor da narrativa, utiliza-se dos mecanismos da arte literária para se comunicar. "Percebo como a escrita nos distancia, quase sempre, das coisas reais, se é que existe uma realidade humana que não seja a sua representação", escreve ele.

O pivô da trama é Inês, uma mulher manca, um tanto misteriosa, que mantém um obscuro relacionamento com Brancatti e vive com Martins um caso igualmente ambíguo. Enganos, acasos e armadilhas aos poucos intensificam o conflito entre eles.

Com esses elementos, Sérgio Sant'Anna atira o leitor num labirinto em constante mutação. A literatura se transforma em ensaio, a pintura se torna teatro; o teatro se metamorfoseia em literatura, que se faz de linguagem jurídica, e esta numa grande encenação teatral. E o leitor acompanha tudo isso com a mesma ansiedade com que tenta desvendar um crime num romance policial.

Os personagens de Um Crime Delicado carregam sempre uma dose de mistério e ambigüidade, podendo parecer um tanto amorfos ao leitor desatento. Apenas Antônio Martins, que narra a história com gana e até um certo desespero, se expõe de corpo e alma, com descrições derramadas de suas fraquezas, neuroses e cafonices. 

Nesse ponto se evidencia outro aspecto do talento do escritor - a capacidade de colocar dentro do texto a sua própria crítica, antecipando-se ao leitor mais exigente. Quanto aos ansiosos, que se impacientarão pelo demorado adiamento das discussões que realmente importam, Sant'Anna os incita à leitura com uma seqüência de enigmas, soluções e novos enigmas, enquanto se diverte com digressões sobre os rumos da arte. E o leitor, à mercê desse turbilhão, não chega indiferente ao final. 

 

Um Crime Delicado
Trecho

Que grande sensação de Poder, quando emolduro aqui não apenas o corpo de uma mulher dentro de um cenário íntimo e crepuscular, mas a própria emoção de ter esse corpo nos braços. Que força poderia ser maior do que essa, não houvesse também o conhecimento de que, nesta obra, sou tanto autor quanto mero ator, tendo em vista a presença nos bastidores de Vitório Brancatti e outros obscuros personagens que sinto como diretores dentro e fora de mim. De todo modo, assumo com fervor a minha parte.

Nos acontecimentos reais, porém, uma sensação é escrava do tempo, ainda quando envolvida por uma instalação de Vitório Brancatti. Mal acabava eu de voltar a mim, depois da consumação daquele enlevo amoroso, percebi que Inês chorava. Saí de cima dela, sentei-me na borda do divã e tentei acariciar Inês. Ela se fechou como uma concha, como se minhas mãos estivessem em brasa. (Bah, comparações, metáforas, quão ridícula pode ser também a escrita.)

- Me deixa - ela disse, soluçando.
- Não posso deixá-la assim, sem mais nem menos.
- Eles estão para chegar - Inês falou, quase ameaçadora. 

 

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Da mão para a boca
Paul Auster
Tradução de Paulo Henriques Britto
Companhia das Letras
398 páginas

 

Um fracassado rumo ao sucesso

O escritor norte-americano Paul Auster, nascido em Newark, Nova Jersey, em 1947, ainda não é um best-seller no Brasil, mas caminha com firmeza nesse sentido. Tido nos Estados Unidos como um dos autores mais criativos de sua geração, ele já atingiu o estágio de midas literário - aquele em que tudo o que toca transforma-se em literatura.

O volume recém-lançado pela Companhia das Letras, Da mão para a boca, mostra é fruto dessa liberdade de criação que só se conquista depois de um público cativo. Divide-se em quatro partes. A primeira, que lhe dá o título, é uma curiosa narrativa autobiográfica, que recorda, acima de tudo, os fracassos desse bem-sucedido escritor. A segunda reúne três peças de teatro; a terceira é uma espécie de manual de instruções de um jogo de cartas que o autor inventou, e a última é um romance policial que segue o modelo clássico do gênero. Todos esses textos pertencem à fase "fracassada". 

"Dos vinte e muitos aos trinta e poucos anos de idade, passei por um longo período em que tudo que eu tocava dava em fracasso." Assim Auster começa a contar a sua história. Mesmo que desde os 16 ele já tivesse a literatura como sua grande e única ambição, só consegue publicar o primeiro romance em 1982, aos 35 anos, sob o pseudônimo de Paul Benjamin. É nesse ponto que termina sua história de fracassos. 

As peças de teatro incluídas em Da mão para a boca valem como curiosidade. Revelam apenas um autor ainda em busca de uma linguagem própria. De menor interesse é o apêndice 2, Action Baseball. É improvável que um leitor brasileiro vá se interessar pelas complicadas regras desse esporte praticamente desconhecido deste lado do equador, e muito menos por um jogo de cartas que copia tais regras. O terceiro apêndice é A estratégia do sacrifício, o romance policial publicado em 1982.

Alguns elementos desses textos pré-históricos de Auster foram aproveitados em sua obra madura, em livros como A música do acaso ou Trilogia de Nova York, publicados no Brasil pela Editora Best-Seller. Quando fez o roteiro para o filme Cortina de fumaça, dirigido por Wayne Wang, Auster deu ao personagem principal, o escritor interpretado por William Hurt, o mesmo nome com que assinou seu primeiro romance. 

A estratégia do sacrifício já possui algumas qualidades que o escritor aperfeiçoaria em livros futuros. É um texto fluente, que segura o leitor da primeira à última linha, levado com humor, suspense e mistério, como convém a um bom romance policial. Mas sofre por excessos, como a composição caricatural de alguns personagens, além de eventuais inverossimilhanças, que não comprometem o resultado final.

O ensaio que ocupa as primeiras 109 páginas deveria ser lido em seguida a O inventor da solidão, de 1982, que a Editora Best-Seller publicou no Brasil no ano passado. Nesse livro, o primeiro que Auster assinou com seu verdadeiro nome e que, curiosamente, é também um relato autobiográfico, ele conta de forma emocionada sua história pessoal e familiar. Revela, por exemplo, por que a figura paterna é sempre tão crucial em sua literatura. Em quase todos os livros que escreveu, há uma relação neurótica entre um filho e um pai, o que também acontece no filme Cortina de fumaça. 

Em Da mão para a boca, esses elementos praticamente não aparecem, a não ser no final do relato, quando a morte do pai interfere em sua trajetória. De onde se deduz que a literatura apareceu em sua vida antes de tais neuroses, só vindo a misturar-se posteriormente. O que Auster revela nesse texto é o fascínio pela própria literatura. Como acontece com muitos escritores, ele passou parte da vida tentando adaptar-se à necessidade vital de escrever, e isso implicava sacrifícios profissionais e financeiros. Estudou na Columbia University, trabalhou como faxineiro em um navio, mudou-se para a França em busca de experiência semelhante à de vários escritores americanos, e conheceu personagens que posteriormente o ajudariam a compor aqueles que criou. 

A certa altura do relato, Paul Auster deixa claro um certo fascínio pelo fracasso. Conta que chegou a promover um concurso, ainda nos tempos da universidade, para premiar um grande fracassado que tivesse a coragem de contar a sua história. 

Talvez esse ensaio fosse um sério candidato a vencer, se ele não tivesse se tornado o escritor que é hoje. Da mão para a boca, que tem como subtítulo "Crônica de um fracasso inicial", é, portanto, um livro paradoxal. É a história verídica de um artista fracassado, escrita por um homem que, aos 50 anos e nove livros editados (sem contar aquele sob pseudônimo e outros de poesia), já foi traduzido para 16 idiomas, recebeu vários prêmios importantes e hoje pode se dar ao luxo de publicar as primeiras experiências narrativas apenas como curiosidade para seus leitores cativos. 

 

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Mande beijos a Gardel
Romance de Gilberto Abreu. 
Prêmio Guimarães Rosa 1990. 
Editora Iluminuras (SP). 
88 páginas. 

 

Homenagem confessa 

 

O inspetor de polícia Pablo Gonzales entrou no Bar Rio de Oro, centro de Buenos Aires, com um livro na mão. De lá saiu transformado em personagem do escritor argentino Jorge Luis Borges, autor do livro que carregava - Ficções. Não é este o enredo de Mande Beijos a Gardel, romance de Gilberto Abreu recém-publicado pela Iluminuras, mas poderia ser. É um pequeno romance policial, que em homenagem confessa utiliza como matéria-prima um conto de Borges - A Morte e a Bússola. 

Gilberto Abreu, professor de literatura em Ribeirão Preto (SP), obteve o Prêmio Guimarães Rosa de 1990, conferido pelo governo de Minas Gerais, por este romance. Ao contrário do que diz a contracapa, não se trata de seu livro de estréia - mas assim pode ser considerado. Ousado e denso, o romance representa uma ruptura do autor com o universo literário em que desenvolveu seus primeiros textos. E Gilberto se deu bem. 

A ousadia deste escritor de 42 anos começou pela ambientação. Admirador da literatura argentina, ele viajou a Buenos Aires, onde, ao contrário de qualquer turista comum, preferiu conhecer as regiões da cidade que serviram de ambientação para o conto A Morte e a Bússola, de Borges. A partir daí, ele desenvolveu o seu romance. Gilberto escreve como se fosse argentino, tal a intimidade que alcançou com a cidade. Faz citações de vários autores que admira - Julio Cortázar, Garcia Lorca, Jean-Paul Sartre, Robert Arlt - e deixa transparecer certa influência de Ricardo Piglia, um dos mais importantes escritores argentinos de hoje. 

O leitor menos familiarizado com esse universo, no entanto, não precisa se assustar. O personagem central do livro, o policial Gonzales, foi "sonhado com integridade minuciosa e imposto à realidade" (para usar as palavras de Borges em outra de suas obras-primas, o conto As Ruínas Circulares, outra fonte de inspiração de Gilberto). Assim, não é preciso conhecer a fundo este mundo mágico para gostar do romance. Com uma única exceção: É importante a leitura prévia do conto A Morte e a Bússola, de Borges, parte do volume Ficções. É lá que tudo começa.

É bom lembrar, no entanto, que Mande Beijos a Gardel é um livro preferencialmente para os que amam a literatura e a têm Não apenas como um passatempo, uma fonte de prazer, mas também como objeto de estudo - Não necessariamente escritores, mas também leitores. Com "L" maiúsculo. 

O personagem central é um policial cerebral, à maneira dos personagens dos grandes romances policiais. É fã ardoroso de Carlos Gardel e tem uma relação traumática, neurótica, com o Charlie Brown dos quadrinhos. Com justa razão, perceberá o leitor. Como o Erik Lönnrot do conto de Borges, prefere as hipóteses interessantes, ao tentar elucidar um crime, àquelas simplesmente possíveis. Não é à toa que ele descobre em Borges a solução para os misteriosos crimes da Rua Libertad. 

Ao lado de Pablo Gonzales, circulam pelo romance personagens instigantes, como o joalheiro judeu Jacob Sobel, a atriz de teatro Estela Boner, o engenheiro dinamarquês Bernhard Ingemann (não confundir com o escritor homônimo) e especialmente Gastão Nepomuceno, um brasileiro esotérico fascinado pelo mundo dos sonhos. Assim como Borges, é bom lembrar. 

Autor de dois livros de poemas e um de contos, Gilberto Abreu obteve sucesso ao arriscar um vôo além do universo ficcional onde já havia se aventurado - o do interior de Minas e sua gente. Ao partir para uma ambientação aparentemente estranha, Gilberto Abreu se expõe a um universo de leitores mais amplo. Que continue com a admiração de seus conterrâneos do interior mineiro e paulista, mas a sua obra merece uma atenção maior. E agora está à disposição de todos, distribuída nacionalmente. 

 

Mande beijos a Gardel 

trecho

 

"A cena era horripilante. Um corpo jovem, bem torneado, jazia de bruços na cama desarrumada. Completamente nu. Seus punhos tinham sido amordaçados nas extremidades da cabeceira. Vários hematomas denunciavam ter sido vítima de castigos torturantes. Muito provavelmente sofreu violências sexuais. Os olhos saltados das órbitas, numa expressão de terror, além das marcas em sua nuca, pareciam indicar um estrangulamento. Manchas de sangue coagulado espalhavam-se pelos lençóis. (...) Gonzales sentiu revirar suas entranhas. A custo conteve seguidas ânsias de vômito, segurando o lenço junto à boca e nariz. Estava aparvalhado. Mal conseguia progredir no primeiro assassinato e ocorre outro. A repercussão seria, fatalmente, explorada e amplificada pela imprensa. Ao recompor-se, negou qualquer resposta aos jornalistas, com um simples, mas incisivo aceno com a mão direita. Ao sentar-se na banqueta da penteadeira, nem pôde completar o gesto de acender outro cigarro. Um entorpecimento o acometeu, ficando como que paralisado. No espelho, a mesma caligrafia sinuosa como que o ironizava. Escrita num batom carmim vivíssimo: MANDE BEIJOS A GARDEL..." 

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Escreva, querida
Francisco de Morais Mendes
Mazza Edições
Belo Horizonte 
128 páginas

 

A arte de contar histórias

 

A arte de contar histórias tem suas origens nos primórdios da humanidade e é uma das virtudes do ser humano. Mas o progresso trazido pelo conhecimento estabeleceu um paradoxo: as facilidades tecnológicas estimularam a preguiça de pensar. Com a imaginação em baixa, é mais fácil entregar o cérebro em oferenda a Gugu Liberato do que estimulá-lo nas páginas de um bom livro. Entramos na idade da techno-barbárie. 

Felizmente, também é próprio do ser humano reagir diante do caos e por isso os contadores de histórias continuam firmes e fortes. Apesar das dificuldades, a literatura brasileira se renova, e periodicamente podemos conhecer novos autores e suas propostas. A editora Mazza, de Belo Horizonte, oferece a estréia literária de Francisco de Morais Mendes, com o volume de contos Escreva, querida.

Autor estreante? Não é bem o caso. Aos 40 anos, o escritor e jornalista, com mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Minas, obteve em 1992 alguns dos mais importantes prêmios nacionais para este livro: o Guimarães Rosa, do governo de Minas; o Cidade de Belo Horizonte, da Prefeitura da capital mineira, e o da Fundação Luiz Vilela, de Ituiutaba (MG). Vários periódicos publicaram contos seus.

Uma leitura atenta do livro revelará que os contos interessantes e provocativos de Francisco Mendes formam uma espécie de catálogo de experiências de narrar. Cada narrador conta, por exemplo, a construção de uma história (Escreva, querida), a própria morte (Confraria) ou dialoga com um caderno de notas (Os cadernos de Samuel, inspirado no romance Malone morre, de Samuel Beckett). 

Algumas das narrativas mais interessantes são Álbum de família, em que a história é contada de dentro de um retrato, invertendo o sentido da arte fotográfica; Matias, em que a lógica do ponto de vista é totalmente subvertida, e O renegado, sobre uma troca de identidades. 

A linguagem de Francisco Mendes é concisa e cheia de cortes cinematográficos, mas não nega espaço para reflexões sobre a vida e a morte, o amor, a passagem do tempo, a velhice, o acaso; enfim, nossas perplexidades cotidianas. 

Escreva, querida traz 11 histórias em que há espaço também para as formas mais tradicionais de narrar. Mas a base das experiências narrativas de Francisco Mendes é uma só. Ele reúne o completo domínio da linguagem, a arte de colher na multidão anônima personagens instigantes e a dosagem perfeita de referências artísticas e literárias. Leiam, queridos leitores. 

 

Escreva, querida
Trecho

 

"Os fatos se precipitaram há duas semanas, quando César propôs provarmos a carne humana. Um calafrio percorreu minha recusa; jamais tal ato me passara pela cabeça. Embora tenha cometido inúmeros erros, não sou um homem tolo. No entanto, vi a foça de meus argumentos esvanecer-se ante a surpresa de deparar com Alberto e Lázaro aceitando as ponderações do César.

Trouxeram uma moça, dessas que vão para a seção de 'desaparecidos' dos jornais e das quais depois as pessoas se esquecem. Entretanto, eu não estava derrotado ainda: sem sangue, exigi. O corpo foi deixado de cabeça para baixo, para descerem à terra os poucos litros de sua fragilidade. Nem de longe foi a melhor carne que já provamos, mas, admitimos todos, não era de se desprezar. O seio foi nossa decepção, massa gordurosa e sem sabor. Depois da ceia, incinerados os despojos, a crueza da realidade se abateu sobre mim: César estava indo longe demais. Creio ter sido o último dos meus erros, e agora preciso falar alto, por causa da chuva no telhado." 

 

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Memória da Chuva
Ruy Espinheira Filho
Poesia
108 pp.
Ed. Nova Fronteira

 

Memória, a prisão que liberta

 

Ruy Espinheira Filho parece ter se trancado num porão para escrever Memória da Chuva. Num daqueles porões esquecidos, onde a poeira intocada e a chuva que penetrou por alguma fresta tenham criado o ambiente favorável para o tempo não se lembrar de passar, reunindo (e confundindo) num mesmo espaço o passado e o presente.

O tom nostálgico do livro gera bons poemas, que giram em torno de temas que se repetem como ondas concêntricas. O centro de tudo é o inexorável - o tempo e o que ele determina, do princípio à morte. Como no poema que fecha o livro, Despedidas: "Despedimo-nos do amigo/no azul da tarde. E, uns nos outros,/ fitamos os rostos que/o tempo moldou sobre os/rostos suaves, aqueles/que nos fitam da memória." 

Como num círculo, nada mais parecido com o fim do que o início. O primeiro poema, Depois, diz: "Alguém cantava, longe, acalentando/os escombros do ocaso. E até onde/ele chegara se chamava vida/(...)/O que restava? Aquilo. As tantas horas/mortas, mortas palavras, morto chão/do amor, dispersos hálitos de alma".

O poeta fala nitidamente de si mesmo ("Nesta tarde há outra tarde/sem este quarto tão cheio/de livros:/sem este homem/quase velho, que escreve/estas palavras"), uma tentação às vezes obsessiva. A memória é a permanência, a reflexão, o assimilar da experiência. A chuva é o que vai, o que leva, o que transforma. De um lado, a natureza, o lugar, as fotografias que aprisionaram o tempo - "Como é bela, ele diz, soprando/a poeira do papel/(como não pode soprar a que pousou/sobre sua própria/alma)" - de outro lado, o sonho, as mutações.

Para haver vida a memória é ingrediente essencial, assim como a capacidade de fazer/refazer esses momentos. Diz o poema-título: "Talvez o espírito de Deus pairasse/sobre a face das águas./mas só o que ele,/o menino insone,/viu/foi o escuro e as gotas que caíam/num murmúrio./(...) e na imaginação o açude/ solto nas águas,/na praça,/subindo até tanger o sino da igreja/do Divino."

Ele se utiliza do soneto e do verso livre para refletir sobre a existência, e parece concluir que a vida é um vazio cercado de nadas. Suas poesias transbordantes de lirismo, um pouco fora dos padrões poéticos atuais - se é que se pode falar em padrões para uma atividade cuja essência é a liberdade - contesta essa conclusão e provoca a sensação de que a arte dá um sentido à vida. A poesia não precisa servir para mais nada. 

 

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Ponto Pé de Flor
Clara Pinto Correia
Editora Rocco
204 páginas

 

A mulher no espelho

 

Uma laçada à frente, meia atrás. É assim que se tece o ponto pé de flor, que as bordadeiras usam para tornar o fio mais espesso no final do bordado. Está certo que bordar não é mais um hobby muito comum entre as mulheres, mas ainda há avós que ensinam esses e outros pontos a suas netinhas - ou ao menos bordam para elas delicados presentes.

Foi com essa delicadeza que a escritora portuguesa Clara Pinto Correia escreveu seu primeiro romance, sintomaticamente intitulado Ponto pé de flor, que a Editora Rocco acaba de lançar no Brasil. Como se pode perceber, é um livro que aborda o universo feminino, com todas as suas nuanças, sutilezas e temas comuns. Os homens são meros figurantes, nas raras vezes em que aparecem por entre uma longa lista de personagens femininas.

"Talvez elas próprias nunca o tenham suspeitado, mas o que as professoras de Lavores estavam a ensinar-nos era o código cósmico de leitura do mundo no alfabeto das mulheres", ensina uma das personagens, sobre o ponto pé de flor. Da mesma forma se pode falar sobre Ponto pé de flor, o romance. 

O universo por onde o romance navega é o da alma feminina portuguesa, o que pode causar algum estranhamento aos leitores brasileiros, apesar de algumas heranças culturais comuns. Há passagens em que temos a nítida impressão de estar a ouvir um fado, daqueles que narram desamores de fazer chorar. Por sinal, é assim que Clara constrói um dos melhores momentos do romance, quando descreve a personagem Joana cantando durante um jantar - misturando a seu texto versos de fados tradicionais.

Ponto pé de flor é formado por capítulos curtos, cada um com um nome de mulher como título, contos quase independentes que vão tecendo o romance como pontos de bordado. As personagens são mulheres absolutamente comuns, que vão ao supermercado e ao cabeleireiro, brigam com os namorados, conversam sobre lingerie e vestidos de noiva e têm suas vidinhas preenchidas com pequenos incidentes domésticos, alegrias e tragédias. 

O romance, portanto, é uma história banal, que nem daria um romance não fosse o belíssimo texto de Clara Pinto Correia e sua sensibilidade para tratar dessa que talvez seja uma das matérias-primas de mais difícil lapidação da literatura - justamente a vidinha comum. Com um vocabulário às vezes pesado para o leitor brasileiro, pouco familiarizado com palavras e expressões de uso comum em Portugal, Clara constrói um texto poético e vigoroso, que, em alguns momentos, faz arrepiar pela beleza. 

Está certo que o ideal é ler com um dicionário ao lado, atento para expressões como "dia de São Valentim", que é o dia dos namorados, ou uma frase assim: "Margarida estava sozinha na paragem do autocarro e o meu instinto foi ir lá dar-lhe boléia." Como se pode deduzir, a moça estava sozinha na parada de ônibus e a narradora foi dar-lhe carona. Mas Clara não tem culpa se o brasileiro fala uma língua cada vez mais distante do português de Portugal, por mais que se façam acordos ortográficos, já que não se pode aprisionar numa camisa de força duas culturas distintas.
A narradora e personagem central, apelidada de Biscoito, é bióloga como a própria Clara Correia. Uma de suas atividades profissionais é escrever artigos sobre métodos de avaliação da qualidade do esperma - de boi. Clara, que fez doutorado em biologia defendendo tese sobre o polêmico tema da clonagem de seres vivos, tem 37 anos, vive nos Estados Unidos, é fã do escritor brasileiro Dalton Trevisan e tem outros três livros lançados em Portugal. Esperemos que sejam publicados em breve também por aqui.

 

Ponto pé de flor
Trecho

 

Uma vez amava um homem, e, como ia ser Dia de São Valentim, comprei-lhe um sabonete Cacharel e escondi-o no móvel das coisas sem uso, no fundo de uma gaveta atulhada de contas velhas da eletricidade, certificados de garantia, rascunhos de relatórios e revistas de outros anos, à espera de tempo e oportunidade para o embrulhar devidamente e o completar com um cartão adequado. No dia seguinte ele entrou numa grande agitação por causa de qualquer documento importantíssimo que não aparecia em parte nenhuma, ouvi-o praguejar e remexer e atirar com portas enquanto tentava concentrar-me nas estatísticas das cooperativas de laticínios da região Centro, e de repente apareceu-me à frente a imagem do orgulho masculino ferido a mostrar-me o dito sabonete, um desprezo maior que a razão a desabar sobre mim do alto do seu imenso nojo.

- Ao menos arranjasses um namorado secreto que tivesse o bom gosto de não te oferecer sabonetes de homem - cuspiu.

Foi quando descobri como nos sentimos quando um culpa repulsiva nos é atribuída por alguém que amamos, e sabemos que estamos inocentes mas não conseguiremos nunca prová-lo com a esponja radical que numa só passagem elimina calmamente o sujo e as nódoas, purifica as dúvidas e acalma as águas.

 

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