Alexandre Marino reflete sobre imprensa e mídia. Navegue nesta página.
A imprensa perdeu o que a poesia tem de melhor
A leitura libertária e a
ilusão da objetividade
(dezembro / 2008)
O homem das cavernas e a caverna dos homens
Reflexões sobre o jornalismo
(dezembro/2003)
Jornalismo:
a agonia de uma profissão
É imprescindível resgatar o
sentido humanista para uma atividade mercantilizada
(texto editado em maio de 2002)
Os pecados da mídia
A imprensa brasileira inventa um novo personagem para justificar seus
erros
(texto editado em abril de 2000)
Missão jornalística
Repórter que se preza tem sempre uma boa fonte sussurrando "as últimas".
(Texto publicado no O Estado de S. Paulo a 7 de dezembro de 1987.)
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Enquanto a poesia procura refletir
sobre o mundo de forma subjetiva e libertária,
A literatura e a imprensa vivem uma relação de amor e de ódio, enquanto caminham juntas na tentativa de interpretar a realidade. Mas o real oferece uma infinidade de leituras, e ambas se distanciam, ao apresentar interpretações distintas e às vezes conflitantes. A imprensa pretende fazer uma leitura objetiva, racional e realista do mundo, movida pela ilusão da objetividade e da imparcialidade. A literatura reflete o mundo criando seus próprios espelhos, nos quais se refletem imagens isoladas, que guardam o mesmo DNA. Sua leitura é subjetiva e ficcional, e no entanto às vezes mais verdadeira que a leitura objetiva da imprensa. A poesia se interessa pelo interior, não pela superfície; subverte o sentido das palavras para explorar todas as suas possibilidades. Mergulha no individual para atingir o cerne do mundo. Rejeita a redundância, a obviedade, o clichê. A poesia é essência. Ao contrário da imprensa, a poesia dispensa o olhar racional. Poesia é contemplação. O que há de melhor na paisagem? O gesto de contemplar, mergulhar no espírito daquilo que se esparrama perante nossos olhos. É integrar-se à beleza. A poesia é um derrame de imagens ativadas por nossa imaginação e memória, quando uma sonoridade, que pode ser gráfica, imagética ou auditiva, faz mover-se esse mecanismo do despertar. O poema é a janela. A transição dos sinais gráficos da escrita para particulares paisagens se faz enquanto nossos olhos percorrem os versos, ou enquanto a voz amiga os decodifica em sons e palavras. Aqui, a palavra não se restringe ao significado dicionarizado; ela é um horizonte aberto de possibilidades imagéticas. A interação das palavras cuidadosamente dispostas sobre o papel cria uma poção mágica, que provoca um movimento imprevisível nas profundezas de dois indivíduos que interagem: o poeta e o leitor. O primeiro traduz para o papel a sua emoção, a imagem despertada por sua observação. O segundo recria o poema a partir de sua sensibilidade. A poesia é esse jogo de cumplicidade e afinidade, ainda que momentâneas, entre o criador-poeta e o criador-leitor. Ambos atuam em sintonia e, assim, completa-se o poema. O mergulho do leitor na poesia que o envolve e lhe desperta os sentidos é um momento extremamente feliz. Alcançar a poesia é gratificante, mas é atividade que exige talento, sensibilidade e sabedoria, virtudes freqüentemente presentes no interior do indivíduo, mas nem sempre disponíveis para aflorar. Essa interação entre dois universos distintos é fruto de um diálogo atemporal e silencioso. Nenhum poeta é grande sem um grande leitor, assim como nenhuma paisagem será bela se não houver quem saiba contemplá-la. Na poesia, as palavras têm outros sentidos, e não apenas aquele guardado nos dicionários. Isso lhe confere uma certa aura misteriosa, que às vezes assusta o leitor comum e a converte em forma elevada de leitura. Ler um poema é ler não apenas as sílabas e palavras, mas os silêncios, o ritmo, a sonoridade, as imagens. A capacidade de decodificar sinais não é suficiente, também é preciso ser capaz de colocar a emoção a serviço da leitura. Há leitores que se julgam incapazes de ler um poema, até que abrem o coração e desvendam o mistério. A poesia não é para poucos; o problema é que muitos não sabem disso. Essas peculiaridades afastam a poesia do mercado, que prefere o preto no branco. O mercado rejeita o mistério. E assim, à medida que a imprensa se envolveu com o mercado, em relação cada vez mais promíscua, também rejeitou a poesia. Foi um processo claramente perceptível. No tempo do que chamamos “jornalismo romântico”, os jornalistas se esmeravam em escrever de forma a enriquecer culturalmente o leitor. Os textos eram mais prolixos, mas os leitores tinham tempo, que na verdade é um conceito abstrato e imensurável. Nas redações havia maior erudição, a formação dos profissionais era mais humanista, e a literatura era uma paixão generalizada. A televisão ainda não exigia tantos espaços nos jornais e nas mentes. Os jornais abriam espaços generosos para críticas, resenhas e reflexões sobre literatura. Os livros analisados não eram impostos pelo marketing das editoras. E as editoras também não eram movidas pelo mercado, e sim pela intenção de publicar livros que de fato engrandecessem o cenário cultural brasileiro. Era, de fato, uma outra realidade. Com as novas tecnologias, a modernização industrial e a economia de mercado, a imprensa escrita se viu ameaçada pela televisão. O jornalismo virou indústria, a concorrência entre os grandes jornais aumentou, e criaram-se estratégias para conquistar maior público leitor, ainda que às custas do nivelamento por baixo e da maior atenção à banalidade. As celebridades, antes confinadas às colunas sociais, pularam para as manchetes dos cadernos culturais, cada vez menos culturais, e a arte cedeu lugar ao entretenimento. A fofoca sobre a vida privada das pessoas famosas foi incorporada à pauta jornalística, despertando interesse cada vez maior dos leitores médios. A fama tornou-se objeto de desejo. Aparecer na mídia, especialmente na televisão, é o sonho de muitas pessoas comuns, movidas pela vontade de perder o anonimato e se destacar na multidão, ainda que lhes falte um dom qualquer que o justifique. Surgiram revistas dedicadas a revelar detalhes banais da vida pessoal de indivíduos que, se não têm nada a dizer, têm muitas posses a ostentar. E uma horda de leitores sedentos por informações absolutamente desimportantes tornou-se o público-alvo da mídia. Jornalistas, ou escrevinhadores que se apresentam como tais, apuram quantos pares de sapatos determinada perua possui, a marca da banheira da socialite do momento, o nome do namorado da pretensa atriz global. Haja lixo informativo! O mais lamentável é que tais pautas tomaram de assalto não apenas as revistas “especializadas” no assunto, mas também editorias supostamente sérias de jornais igualmente sérios. Qualquer matéria mais aprofundada sobre literatura, música ou cinema, numa editoria de cultura, pode perder seu espaço se na última hora uma agência de notícias informar que uma famosa quem, desnudada na última edição de conhecida revista masculina, fez um escândalo num restaurante ao brigar com o namorado da hora. E essa mídia da banalidade soube construir um público leitor ávido por notícias do tipo. A classe média em peso lê Caras, a revista símbolo desses tempos de futilidade. A mesma classe média que discutia música, literatura e cinema nas décadas de 60, 70 e 80, quando a arte desempenhava papel importante na luta contra a ditadura militar e a censura tentava privar o público de obras produzidas pelos artistas de um país então inquieto e efervescente. A classe média lê Caras e acompanha com ansiedade as telenovelas da Rede Globo. Os jornalistas, herdeiros daqueles intelectuais d´antanho que procuravam escrever nos jornais sobre o melhor da produção cultural brasileira e internacional, também lêem Caras e choram diante dos melodramas da Globo, ainda mais agora com as telas de plasma, que eles pagam a prestação, e o sonho próximo da TV digital. Até alguns anos atrás, os jornalistas saíam das redações e se encontravam em botecos, às vezes pé-sujos, para destilar suas emoções despertadas pelo último filme de Antonioni, Bergman ou Buñuel, ou dissecar a técnica literária de García Márquez, Rubem Fonseca ou Thomas Mann. Hoje, correm para casa e se jogam no sofá, lenço à mão, para ouvir os diálogos que entorpecem o Brasil. Há quem diga que as telenovelas que a TV Globo impôs à classe média, antigamente tão arredia, são as sucessoras dos folhetins literários lidos com avidez pelo público da imprensa escrita antes do advento da televisão. Há um parentesco distante. Mas a economia de mercado e a industrialização da imprensa operaram uma transformação evidente não apenas nas pautas dos meios de comunicação como também nos programas de entretenimento das emissoras de TV, e as novelas passaram de forma exemplar por esse processo. Na busca sedenta por públicos e audiências, as pesquisas de mercado são fator determinante. A partir de seus resultados, mata-se um personagem, enquanto outro, irrelevante, ganha força; altera-se o rumo da história. Parece muito democrático: a trama é definida a partir das reações do telespectador. Ainda bem que não é assim que os grandes romances são escritos, mesmo que os escritores da geração internet ofereçam ao público, com a intenção de testá-los, os capítulos já prontos. Ter o leitor como co-autor pode ser um grande equívoco, até mesmo porque não é apenas um leitor escolhido, mas a massa deles. Para atingir a massa é preciso nivelar – e o nivelamento é sempre por baixo. Uma antiga regra da publicidade dizia: “Se você quer atingir todos os consumidores de determinada marca de carro, dirija-se ao mais burro deles.” Se a máxima for verdadeira – é bom lembrar que nunca foi desmentida – a interatividade, termo tão em moda, é fator de emburrecimento. As pesquisas de mercado utilizadas pelos jornais definem o que o público quer ler, e seus resultados dirigem a linha editorial, a pauta, todo o trabalho da reportagem. É diferente do tempo em que os jornais não eram escravos da audiência e a concorrência não os sufocava. Fazer jornal significava dar ao público o que melhor poderia contribuir para o seu crescimento intelectual. Pode parecer uma visão paternalista, assim como atender às pesquisas parece mais democrático. Mas é bom prestar atenção nos resultados. Não foi apenas a economia de mercado que transformou a mídia. Paralelamente à modernização tecnológica houve uma virada histórica. A ditadura militar acabou, o país se democratizou e a classe média, antes tão preocupada com os destinos nacionais, voltou-se para si mesma. O leitor, cansado de refletir, agora quer se divertir. O cidadão se tornou consumidor. A arte deu lugar ao entretenimento. E a editoria de cultura passou a tratar de temas como gastronomia, moda, televisão e banalidades em geral. A literatura foi confinada a espaços muito específicos, em cadernos semanais, sempre ameaçada pela queda de faturamento da área comercial. Aos poucos, os empresários da imprensa acabaram com a crítica literária, com as resenhas aprofundadas, com o espaço para textos de literatura. Os departamentos de marketing das editoras e gravadoras, as grandes produtoras de cinema, teatro e shows passaram a pautar o espaço que restava. A indústria cultural fechou o cerco, e no espaço que ficou passou a despejar sua produção – e também seu lixo altamente rentável, efeito colateral da cultura de mercado. Mas a literatura continua firme e forte. O conto, a crônica e o romance continuam sendo produzidos, publicados e vendidos. A poesia, que encontrou na internet um ótimo canal de divulgação, está viva como nunca, ainda que as editoras insistam que “poesia não vende”. O leitor atento sabe que o país produz muita poesia, grande parte de boa qualidade. A publicação de livros é intensa, seja por pequenas editoras ou selos especializados, seja pelos próprios poetas, ainda que com tiragens reduzidas e dirigidas a públicos específicos. A mídia tem enorme resistência a colecionadores de estranhezas, e não há tipo mais estranho que o poeta. Para ele, mais importante que vender sua obra é produzi-la. E vender é diferente de sujeitar-se às leis de mercado. A poesia tem suas próprias leis. Ao voltar-se excessivamente para o mercado, a imprensa cultural perdeu muito daquilo que é inerente à poesia: a curiosidade, a capacidade de contemplar, observar e refletir, o interesse pelo inusitado. Nesse deserto mercantilizado, a poesia é o oásis. Brasília, dezembro de 2008. O HOMEM DAS CAVERNAS E A CAVERNA DOS HOMENS A humanidade construiu, ao longo da História, um complexo sistema de comunicação, que começou dentro das cavernas, com os grunhidos, precursores da linguagem, e milênios depois desaguou na internet. No meio dessa trajetória, uma invenção foi determinante para a construção daquilo que chamamos civilização: a linguagem escrita. Graças a ela, o indivíduo que detém a informação não precisa transmiti-la pessoalmente, de corpo presente, a seu interlocutor. Assim, os seres humanos tornaram-se capazes de passar de geração a geração os conhecimentos acumulados, informações de todas as espécies, contando sua própria História aos que nasceriam, ou nascerão, em futuro distante. De acordo com os arqueólogos, o que se pode chamar de nascimento da escrita aconteceu no fim do quarto milênio antes de Cristo, na Mesopotâmia, quando as primeiras sociedades agrícolas inventaram registros, gravados em pedras, de suas leis e negócios. Alguns desses objetos ancestrais do livro sobreviveram durante milênios, e até a década passada permaneciam guardados no Museu Arqueológico de Bagdá. De desenhos simbolizando bois a ícones abstratos, representações de fonemas, a escrita acompanhou a evolução humana. O conhecimento aprofundou-se através dos tempos, e a criação da pontuação, a partir do século 200 a.C., tornou esse processo menos doloroso e mais possível. A partir do nascimento, uma criança é forçada pelos pais a comunicar-se e a compreender, da mesma forma que é tomada pela mão e forçada a andar, para educar as pernas. A linguagem oral, que aprenderá nos primeiros anos, é parte da aquisição de conhecimentos, e a leitura prosseguirá esse processo, que só se encerrará com a morte, pois o conhecimento humano, pode-se dizer, é infinito, ao menos considerando nosso curto e insuficiente período de vida. À medida que a criança se desenvolve, os fonemas típicos de seu idioma criarão uma espécie de fôrma para os mecanismos da fala, adaptando sua anatomia para os sons nativos. Por isso é difícil para o português ou brasileiro sonorizar o “th” do idioma inglês, assim como os nativos dessa língua dificilmente emitirão com perfeição o “ão” do português. Se a criança, durante os primeiros anos de vida, permanecer acorrentada, trancada num quarto, suas pernas terão dificuldade para cumprir a função de caminhar. Se não ouve ou não é forçada a falar, é possível que permaneça muda para sempre. E se não é iniciada nos mistérios da leitura, no devido tempo, certamente seu cérebro não se desenvolverá adequadamente e sua capacidade de processar informações ficará limitada. Estudos nesse sentido foram desenvolvidos pelo professor canadense André Rocha Lecours, primeiro no Brasil, em pesquisas com analfabetos, e depois em seu país, com pacientes com distúrbios diversos. Os analistas do mercado, uma espécie surgida da complexidade das relações de trabalho do mundo contemporâneo, costumam dizer que um bom profissional nos tempos de hoje deve ter amplo conhecimento da realidade, embora esse mercado exija especialização cada vez maior. Dentro desse contexto, o jornalismo atual parece voltado apenas para a superficialidade, de forma a suprir o leitor de uma visão genérica e limitada da realidade, liberando-o para gastar seu tempo sempre escasso em outras demandas, e guardando o cérebro para o conhecimento técnico exigido pela sobrevivência. Da mesma forma, a literatura, que ensina o leitor a pensar, é substituída nas listas de livros mais vendidos pelos textos técnicos e pela auto-ajuda, uma espécie de bengala para aqueles que não desenvolveram o raciocínio e a reflexão. As grandes livrarias e importantes jornais recebem um novo tipo de leitor, fútil e consumista, e aquele de formação humanista e profunda, descendente dos estudiosos que ajudaram a desenvolver o mundo, tornam-se exóticos integrantes de um gueto misterioso. Os males da superficialidade não são exclusivos dos jornais brasileiros. É tendência da imprensa mundial a banalização das pautas, o sensacionalismo, a troca do texto profundo pelo colorido chamativo, e poucos dos jornais mais tradicionais se esforçam por escapar a esse rolo compressor. Esse ser humano afastado da reflexão, abobalhado pelas vitrines coloridas das capas, enganado pela informação excessiva e rala, submisso às leis de mercado, em breve se transformará, ele próprio, numa criatura que a ficção científica criou há muito tempo: um robô com inimagináveis habilidades técnicas, porém incapaz de refletir. A humanidade talvez esteja inaugurando, assim, uma nova era, dominada por esse ser híbrido e bárbaro, sem ética, anti-solidário e violento. Talvez tantos milênios em busca da civilização apenas tenham nos levado a um barbarismo glamorizado. Talvez a humanidade seja obrigada a reconhecer que pouco mudou em sua íntima natureza. Gengis Khan passou pelo Afeganistão no século 13, e deixou em paz os budas gigantes, destruídos pelos talibans no alvorecer do século XXI. As pedras gravadas com a escrita ancestral conservaram-se durante cinco milênios, mas nem o Museu Arqueológico de Bagdá, onde eram guardadas, sobreviveu aos soldados lobotomizados de George W. Bush. Talvez seja muita pretensão esperar da imprensa uma contribuição para qualquer alteração nessa rota em que viajamos, mas seria bom que os jornalistas refletissem sobre isso. Brasília, dezembro de 2003. A profissão de jornalista é muito mais complexa do que supõe a vã filosofia de juízes e outros leigos. Muita gente que se imagina capaz de emendar uma palavra a outra pensa que é assim que se redige um texto jornalístico; logo, pensa que qualquer um pode exercer a atividade sem preparar-se para tal. O jornalista deve dominar uma série de técnicas, mas a imagem do profissional com bloquinho ou microfone nas mãos ou digitando no computador não passa de folclore. Mais importante que saber o significado de palavras como “lead” ou “passagem” é compreender o alcance social de sua função. O jornalismo é atividade de imensa responsabilidade. Exige profundo senso ético, idealismo e uma boa dose de dedicação religiosa. Os profissionais que o exercem devem refletir sobre o seu significado, antes de se habilitarem e durante o exercício da profissão. Ser um bom repórter não se limita a fazer perguntas ao entrevistado e escrever o que ele responde, nem é apenas observar um fato e descrevê-lo. O propósito do jornalismo é, ou deveria ser, apresentar à sociedade a informação que guiará a sua evolução, o seu desenvolvimento. Erros cometidos pelo jornalista podem não causar mortes ou catástrofes, como acontece na medicina ou na engenharia, mas podem destruir carreiras ou reputações, como há exemplos em nossa história recente. E há prejuízos mais sutis, mesmo que até mais graves, nem sempre visíveis aos olhos do grande público (ou mesmo ao pequeno). O jornalista é um formador de opinião. Assim, sua responsabilidade não se limita a descrever o que se passa na sociedade. Também deve contribuir para melhorá-la. A imprensa tem uma função cultural e até educacional, porque pressupõe-se que um bom leitor de jornais, além de saber das mazelas momentâneas da política ou da economia, também tem conhecimento do que de melhor a sua comunidade produz, tem noções de história e conhece a fundo seu próprio povo. Esse conceito, meio fora de moda, vigorava a todo vapor no tempo em que não se exigiam diplomas aos jornalistas, até porque as universidades não ofereciam esse curso. Os profissionais de então eram pessoas de sólida formação humanista, e exerciam sua atividade como sacerdotes. Não é o que ocorre nos tempos globalizados, quando os jovens procuram os cursos de jornalismo pensando exclusivamente no sucesso financeiro, além de sonhar com a aparição diária de seu rostinho no vídeo ou no alto de colunas nos jornais. Os empresários do setor estão preocupados apenas com o mercado, e não querem saber de sacerdócios. Entendem que a pauta jornalística tem que visar lucro, além de servir aos seus interesses mesquinhos e inconfessáveis. A sede de renovação das redações se deve a esses conceitos, porque jornalistas recém-formados (e estagiários, uma ilegalidade institucionalizada), inexperientes, transformam-se facilmente em fantoches dessas figuras nefastas. São criados nesse caldo viciado cuja verdade maior é o livre mercado da informação (e desinformação). O jornalismo brasileiro vive hoje uma crise sem precedentes. O denuncismo irresponsável, a banalização das pautas, a criação artificial de personagens e notícias estabelecem um círculo vicioso que envolve o leitor (consumidor) e destroem o senso crítico. Fofoqueiros medíocres conquistaram colunas em todos os jornais, onde reinam endeusados pelos empresários do setor. Em seus espaços, controlam a notícia de acordo com as necessidades dos negócios. Para o empresário, a notícia é um produto como outro qualquer. Para que seja melhor consumida, cria-se artificialmente a sua necessidade. A rede de consumo é estabelecida pela mídia, ou seja, todos os órgãos de imprensa, fantasiados de concorrentes, de mãos dadas para enganar o leitor/telespectador. Foi assim que os chamados “reality shows” se tornaram essa doença mental criada em laboratório para destruir o cérebro da população... O artigo 221 da Constituição estabelece que a programação das emissoras atenderá preferencialmente a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. Não é o único princípio que os meios de comunicação social vêm infringindo, mas este, especificamente, deveria valer também para a imprensa escrita. Eu disse há pouco que, no tempo em que o diploma não era exigido, os jornalistas exerciam a sua profissão com maior responsabilidade. Mas é um engano pensar que o fim da exigência do diploma reverterá a situação. Ao contrário, a salvação do jornalismo está dentro da Universidade, onde o papel social dos profissionais e dos meios de comunicação deveria ser mais intensamente discutido. É por isso que os grandes empresários são contra a obrigação do diploma. A obrigatoriedade do curso de jornalismo é a única saída para uma profissão decadente e em crise; somente a Universidade será capaz de resgatar o sentido humanista de uma atividade nobre, agora mercantilizada e mediocrizada por uma sociedade onde, cada vez mais, só importa o consumismo, o dinheiro, o mercado, a futilidade. A juíza Carla Abrantkoski Rister, da 16a. Vara Civil da Justiça Federal de São Paulo, que suspendeu a obrigatoriedade do diploma não só de jornalismo mas também de curso superior para a obtenção do registro profissional, é um símbolo desse reino da mediocridade e do equívoco. O texto de seu despacho, que estranhamente a Justiça (?) brasileira ainda não derrubou, é um primor de ignorância e interpretação distorcida das leis, inclusive a lei maior, a Constituição. Sem considerar os vários erros de português que essa senhora cometeu. Ela considera que a exigência de diploma para o exercício do jornalismo fere a liberdade de manifestação e expressão; considera a exigência elitista, por “impedir o acesso de profissionais talentosos à profissão” (sic); argumenta que na França não se exige qualquer qualificação para o jornalista, como se isso fosse uma vantagem... De vez em quando, juízes dessa estirpe voltam-se contra nossa profissão, engrossando uma campanha que dura décadas. Por que não vão mexer noutra freguesia? Há mestres de obras com uma bagagem de conhecimento muito maior que engenheiros recém-formados. Pois que sejam registrados como engenheiros, então! E por que conceder aos juízes o privilégio de emitir sentenças judiciais? Pelo conceito da juíza, não seria um atentado à liberdade de manifestação? A agonia do jornalismo é parte do processo de imbecilização do País, em função das deficiências educacionais, da ignorância, da falta de ética, da corrupção em todos os sentidos, incluindo a mental, e do desinteresse generalizado pela construção de um Brasil melhor. Brasília, maio de 2002 |
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OS PECADOS DA MÍDIA (ou: Para que serve a imprensa?) Nas redações de jornais, entre mesas, cadeiras, computadores e gente estressada, o personagem mais importante é invisível. Superior até aos editores, diretores ou autoridades em visita, é uma entidade abstrata, um ser meio humano, meio etéreo. Essa divindade, que guia os passos dos repórteres e tem como advogado na terra o diretor de redação, chama-se "o leitor". O leitor sem aspas o sujeito simplório que de vez em quando vai à banca de jornal para saber o resultado do jogo de seu time ou da loteria ou se informar sobre um acontecimento qualquer, a secretária que lê os jornais que o chefe não tem tempo de folhear, os profissionais que pautam seu trabalho na informação não costuma ter consciência de que freqüentemente seu nome é tomado em vão. Ele não sabe como funciona uma redação, não entende nada de jornal. Já os jornalistas têm uma visão distorcida dos leitores, porque, ao escrever para eles, paradoxalmente se distanciam deles, às custas das fantasias a que se entregam em decorrência de seu trabalho. Ao distorcer a sua própria imagem, crendo-se mais importante do que a própria notícia que reporta, o jornalista também distorce a imagem do leitor, o qual se torna uma espécie de sub-raça dependente da imprensa e daquilo que ela propaga. O repórter, ao redigir uma matéria, invoca a presença dessa criatura, "o leitor". Escreve algumas linhas, mas logo as apaga, lembrando-se da advertência do editor: "Isso não interessa ao leitor." E o que interessa? O repórter está absolutamente seguro de que sabe. Escreve segundo as fórmulas do jornalismo da moda: parágrafos de quatro linhas, historinhas com personagens anônimos, vocabulário pobre. Dessa forma, o "leitor" vai sussurrando ao repórter o que pretende ler, o que não quer, para que no dia seguinte esse monstro frankensteiniano, criado por executivos que vivem numa realidade paralela, possa comprar um jornal supostamente inteligível. Alguns jornais usam literalmente o nome dessa divindade para fazer seu marketing. Um dos maiores jornais do País tem como slogan a frase: "De rabo preso com o leitor". Outro declarou em editorial: "O papel do jornal é servir, servir e servir ao leitor". Revistas, emissoras de rádio e televisão seguem a mesma cartilha, apoiados, como os jornais, em pesquisas virtualmente sérias, que vão apontando os rumos para a linha editorial da mesma forma que os telespectadores das telenovelas ditam aos seus "autores" as cenas recheadas de clichês, os diálogos pobres e os finais previsíveis. No tempo em que o jornalismo era uma atividade de visionários, sonhadores, românticos, os profissionais acreditavam apenas em si mesmos e na importância do que escreviam. A evolução dessa imprensa poderia ter levado a uma mídia comprometida com a comunidade, com tempos melhores para a Nação. Porém, a profissionalização das redações transformou a notícia em mero produto, que deve ser maquiado e embrulhado de forma a tornar-se o mais atraente possível nas vitrines. As leis do marketing criaram esse semideus, "o leitor" entre aspas. O marketing é místico. Mas se tal ser não existe, ou pelo menos não é gente de carne e osso, para que serve a imprensa, que deveria servi-lo? O jornalismo, chamado de quarto poder, é um serviço de utilidade pública. É ou seria, teoricamente, um poder fiscalizador, olhos e vigia da sociedade, e a liberdade de imprensa, por essa razão, é uma das maiores conquistas que alcançamos nos últimos anos, em meio a muitas derrotas. Como serviço de utilidade pública, a imprensa deveria ter o compromisso primeiro com o crescimento cultural dos leitores; deveria prestar apoio ao sistema educacional, contribuir para o exercício do pensamento, da reflexão, do debate. Em país capitalista, a imprensa é um negócio. Mas empresário algum é obrigado a manter um jornal pode mudar de ramo na hora que quiser, abraçar uma atividade igualmente lucrativa que lhe exija menos da consciência e de compromisso social. No entanto, ao optar pela empresa de comunicação, o empresário assume também um dever. E ninguém neste país dá importância a este princípio nenhum empresário, poucos editores, alguns repórteres (com as exceções de praxe, algumas bastante admiráveis). O capitalismo brasileiro nem é selvagem, é um capitalismo salve-se quem puder. Subdesenvolvido e colonizado, o País é ambiente adequado para a proliferação dos vírus ideológicos que o imperialismo primeiro-mundista inoculou no Terceiro (e Quarto, e Quinto, e Sexto...) Mundo, espalhando a doença da macaquice, do deslumbramento, da inveja dos ricos. Nestes tempos globalizados, o planeta parece ter se tornado uma unanimidade em que todos os agentes econômicos curvam-se aos ditames da cartilha da Casa Branca. Parece conversa de esquerdistas dos 60-70, voltando à carga contra a ditadura ideológica que a mídia nacional contribui para difundir. Nos anos 60-70, quando vivíamos sob uma ditadura militar, proliferou no País uma admirável experiência jornalística, a chamada imprensa alternativa. Eram jornais que não se preocupavam exclusivamente em desenvolver franca oposição ao Governo; possuíam o nobre propósito de contribuir para o crescimento cultural de nosso povo, por meio de uma linha editorial que propunha a reflexão e o aprofundamento. Mas também os grandes jornais enfrentavam a ditadura militar com olhos críticos alguns eram até submetidos à censura oficial, como O Estado de S. Paulo e a Veja, até a Veja, parece inacreditável! Hoje, a imprensa, além de não questionar o sistema econômico e ideológico, virou um território livre para a imposição das verdades importadas do Primeiro Mundo, liderado pelos Estados Unidos. A imprensa se atraca num jogo bárbaro de concorrência, uma guerra em que a estratégia é o espetáculo, o grotesco, o emburrecimento e as armas são as pesquisas que sondam "o leitor". Trabalham nesse jogo jornalistas com pobre formação cultural, mais preocupados com a ascensão profissional e econômica do que com deveres sociais. Não é à toa que os cursos de Jornalismo são campeões de procura nos vestibulares. Os jovens de classe média, grande maioria entre os que têm acesso às universidades, emburrecidos pelo notável trabalho de destruição educacional/cultural promovido pela ditadura militar, alimentam a fantasia de mostrar seus belos rostinhos na televisão, entrevistando personalidades. Imaginam-se como modelos ou atores, e como tais sonham em ser admirados. O verdadeiro jornalismo exigiria outras fantasias. A carência de senso crítico é um dos males que atacam nossa mídia. Na ânsia de oferecer ao "leitor" o que os ideólogos acham que ele quer, nossa imprensa perdeu o rumo. Os jornais prestam inestimável contribuição à nossa crise institucional, transformando em celebridades nacionais os personagens da hora sejam criminosos foragidos da polícia, traficantes, contraventores, prostitutas, socialites fúteis e outros indivíduos nada admiráveis, mas que se transformam em modelos de comportamento ao demonstrar esperteza e vocação para obter dólares, por mais escusos que sejam seus meios. Nefastos personagens de nossa História recente ganham espaços generosos em páginas e páginas de jornais e revistas e minutos de TV e rádio, para impor aos leitores/telespectadores suas verdades mentirosas, quase sempre sem qualquer filtro crítico. Freqüentemente os jornalistas demonstram não discernir entre informação e fofoca, colocando a vida pública e a pessoal de nossos personagens no mesmo caldeirão de mitos. A liberdade de imprensa é um bem pelo qual devemos zelar, e graças a ela todos os públicos, nichos, guetos, confrarias, grupos e tribos podem ler/ver/ouvir o veículo que lhes interesse. Mas, da mesma forma que não se pode admitir a existência de uma revista voltada para os interesses dos nazistas, porque os nazistas por força da Constituição devem estar na cadeia, também não se pode admitir que um veículo, qualquer que seja, despreze objetivos educativos, que estão ou deveriam estar entre as obrigações de todo e qualquer órgão de imprensa. No entanto, não é o que se constata diante de uma leitura cuidadosa de jornais e revistas distribuídos em nossas bancas. Nestes tempos do jornalismo marketeiro, não há lugar para a análise, para linguagens literárias, reflexão. O que existe é a sede pela conquista de mais e mais leitores, numa acirrada competição, que exige, para início de conversa, superficialidade, e para fim de conversa o mais absoluto desprezo à ética. Um jornal publica na primeira página a notícia de um terrível acidente de trânsito, causado pelo excesso de velocidade. No caderno de veículos, uma extensa reportagem enaltece as qualidades de um carro importado, capaz de ir de zero a 100 km/h em cinco segundos. A imprensa é alimentadora de fetiches, não importa quanto mal isso cause. Constrói mitos, por supor que "o leitor" os deseja. Endeusa algumas personagens e as destrói em seguida, porque a criatura também quer destruição. Constrói deuses do esporte, da música, da política, de todas as áreas possíveis. Cria uma forma e nela encaixa o primeiro ser humano que se pareça com a caricatura desejada, e depois o devora. Ídolos são notícia, mesmo que notícia falseada, forjada. Cada personagem é mero figurante no mundo do espetáculo, que nada tem a ver com o mundo real. O que "o leitor" gostaria de ler? As pesquisas nivelam por baixo (desculpem o pleonasmo, porque nivelar é sempre por baixo) e respondem. Em função delas, o leitor é obrigado a gostar do que lhe é imposto. O mercado tornou-se diversificado, criando revistas para crianças, adolescentes, negros (de classe média), mulheres mal-amadas, mulheres bem-sucedidas, praticantes de alpinismo, gays assumidos e gays enrustidos, para toda sorte de profissionais, temperamentos, faixas de idade, perfis psicológicos; diversifica-se para padronizar. Quanto maior a padronização, maior a venda. Nesse universo de produtos cada vez mais específicos, os jornais diários adotam duas estratégias. A primeira é o uso de uma linguagem simples, palatável e superficial. Se você quer atingir todos os consumidores de determinado carro, dirija-se ao mais burro deles, diz uma conhecida e não declarada máxima da publicidade. A segunda estratégia é criar cadernos, editorias, colunas sobre todos os assuntos imagináveis, adotando o maior número possível de faixas de público. Os jornais diários passaram a copiar as revistas, especialmente aquelas bem fúteis, de grande tiragem. E tome coberturas de desfiles de moda, entrevistas com personalidades fabricadas que nada têm a dizer, foragidos da polícia, cadernos dedicados a fofocas sobre atores de novelas de televisão, reportagens sobre o aniversário da cadela da socialite, a festa de casamento que acabou em dor de barriga... Nos cadernos de política, os repórteres se esmeram para descobrir o cardápio do jantar realizado na casa de um deputado, durante o qual se costurou importante acordo. A receita ditada pela cozinheira torna-se mais importante do que os termos do acordo, suas conseqüências sobre a vida do cidadão. Como explicar esse gosto dos jornalistas, e respectivos chefes, pelas banalidades paralelas aos fatos importantes? Eles acreditam que aquela criatura "o leitor" gosta disso. Especialistas em marketing pessoal criam fatos políticos absolutamente sem importância, e os repórteres caem como patinhos inocentes em suas arapucas. O presidente da Câmara e o presidente do Senado ganham espaços gigantescos nas páginas, trocando acusações estéreis e fúteis que são respondidas no dia seguinte, com palavras irônicas e bem-humoradas, alimentando o noticiário e o trabalho do pauteiro com o mesmo suspense que atraía os espectadores dos velhos seriados. Mais uma vez, o responsável é "o leitor", que, supõe-se, diverte-se e perde tempo acompanhando essa seqüência de idiotices. As editorias de economia abrigam jornalistas que se acham melhores que os colegas, e por extensão mais importantes que os leitores (sem aspas) e o cidadão comum. Alguns se acham superiores até mesmo às autoridades da área econômica. Poucos são aqueles que entendem realmente do que falam. Jornalistas não são obrigados a fazer cursos específicos nessa área (ou em qualquer outra) e o que sabem é aprendido à força no dia-a-dia da profissão, geralmente sem que as chefias lhes ofereçam condições ideais para tal. Adquirem vícios, lacunas deixam de ser preenchidas. No entanto, ao galgarem os degraus da profissão passam a vomitar regras. Uma repórter de uma emissora de televisão, ao comentar a conjuntura econômica, exclamou, com um olhar de tédio: "O Governo não aprende com seus próprios erros." Outra foi além, ao arvorar-se de conselheira: "Eu disse que essa medida não daria certo, mas o Governo insistiu." Nas editorias de Cidade, ou como se chame essa parte do jornal que trata do dia-a-dia do homem comum e suas fatalidades, os jornalistas tiveram uma visão e descobriram que "o leitor" adora sofrer com crimes, tragédias, acidentes. Passam então a despejar nas páginas dos jornais, ou nos olhos dos telespectadores, histórias sobre assassinatos, perversões e sangue. O mundo torna-se um lugar pavoroso, onde um criminoso aguarda em cada esquina a hora certa de agir e o acaso está sempre pronto a promover uma nova chacina. É assim na sua aldeia, é assim em todo o planeta. Também nas editorias de internacional, desastres ganham espaço nobre sobre acontecimentos mais importantes. Uma queda de um ônibus lotado num precipício, no interior do Paquistão, ganha destaque sobre uma decisão do governo paraguaio que poderá influenciar a vida dos brasileiros da fronteira. Quanto às editorias de arte e cultura, o que menos interessa é arte e cultura. Artistas escolhidos pelo marketing das grandes gravadoras (que seguem a cartilha rígida da massificação, do pleonástico nivelamento por baixo), reportagens gigantescas sobre filmes norte-americanos que já chegam prontas, e até traduzidas, de Hollywood, são os temas nobres. Escritores? De preferência estrangeiros, recomendados pelas principais editoras, que vendam milhares de livros, e mesmo assim o espaço deve ser restrito, já que livros não são para a massa. Os jornais não têm a pretensão de ensinar ninguém a ler... Nessa linha, a mídia colonizada enleva toda a produção cultural dos Primeiros Mundos, seja cinema, música popular, literatura, artes plásticas, cênicas, etc, etc, e recebe com paus e pedras a arte que se produz no Brasil. Bem, às vezes não recebe, apenas despreza, o que gera um panorama distorcido da produção cultural brasileira. Para vencer tais barreiras, uma boa estratégia para o artista é ter bons relacionamentos nas redações de jornais e entre personalidades que ditam as modas da mídia. Dessa forma, por pior que seja o seu trabalho, sempre haverá espaço para divulgá-lo e artificialmente transformá-lo em coisa de gênio. Quase sempre, o critério da imprensa é o relacionamento pessoal, porque discernimento depende de bagagem cultural mais aprofundada. A imprensa cultural adora polêmicas. A maior parte dos bate-bocas veiculados nas páginas dos segundos cadernos são artificiais, fabricados. Esse "fenômeno" também ocorre em outras editorias, especialmente política, mas nos cadernos culturais chegam às raias do faniquito. Seguindo esse modelo, a imprensa cria mitos, personagens, estereótipos. É conhecido o caso da modelo brasileira que seduziu um astro do rock inglês e engravidou, depois de um curto e obscuro relacionamento. Foi um golpe de mestre. Em vez de ser paga por uma noite de amor, a garota receberá pagamento mensal e vitalício, obtido na Justiça depois de um exame de DNA. A imprensa a transforma em celebridade nacional, exemplo para as mais jovens. A imprensa cultural agora investe em um novo segmento: a moda. Roupas esdrúxulas adquirem o status de arte. Estilistas débeis mentais tornam-se gênios. Diante do microfone, vomitam obviedades e frases de envergonhar estudantes de primeiro grau. Modelos que não passam de cabides-que-andam são transformadas em personalidades nacionais e internacionais, pelo simples fato de ganhar milhares de dólares a cada vez que pisam numa passarela. E passam a dar entrevistas expondo sua visão (?) de mundo, sua filosofia (?) de vida. A mídia transformou em semideusas algumas mulheres cujo único mérito é ter um corpo bonito e único dom movimentar esse corpo de forma sensual ao som de tambores e ritmos imbecilizantes. Parabéns para elas, afinal, usar o corpo para ganhar dinheiro é atividade antiga. No entanto, transformá-las em pessoas vencedoras, exemplares, é uma anomalia da mídia. Para que uma mulher assuma o papel de apresentadora de programas infantis, ela deveria possuir capacidade pedagógica para oferecer atrações educativas. Para ser uma entrevistadora de um canal de TV, não bastaria um corpo bonito, deveria ser necessário o mínimo de cultura geral, conhecimento, discernimento, raciocínio rápido. Mas a imprensa cultural adora personalidades que têm méritos físicos, ponto. Mais é acessório, desnecessário, improvável. Imprensa cultural, na verdade, é cobertura de entretenimento, considerando entretenimento desde o filme de arte até principalmente o mais desqualificado programa de televisão. O jornalismo deveria ser, por definição, isento e imparcial, dentro das possibilidades humanas. Mas a atual tendência da profissão aponta para o personalismo exagerado, que manda a isenção para o lixo. O jornalista quer ser notícia, e não apenas um transmissor da notícia. Ele não distingue entre seu próprio poder e o do veículo que representa. Julga-se superior, sábio, senhor da verdade. Deixa de ser um profissional da informação para se impor como uma personalidade da mídia. As emissoras de televisão e os jornais estimulam essa distorção. Analistas derramam sua verborragia na televisão, sem portar bagagem cultural que os qualifique. Nos jornais, quase todas as matérias são assinadas, e cada vez mais gente emite opiniões. Há uma disputa silenciosa entre os jornalistas, cada um tentando eleger-se o mais genial. Nestes tempos globalizantes, a informação que o "leitor/telespectador" recebe não passa de ilusão. O planeta rola desorientado nessa sala de espelhos distorcidos, como um brinquedo numa festa de malucos. Brasília, abril de 2000. |
Na ante-sala do gabinete de um ministro, um jornalista muito branco e de olheiras (é o estilo dark involuntário) aguarda ser atendido para uma entrevista, enquanto sonha com uma viagem ao exterior e uma casa própria no Lago Norte. Trêmulo, vai aos poucos enchendo um cinzeiro com alguns anos de vida a menos. Está condenado a morrer de infarto, mas atingirá a glória da profissão mais narcisista que existe, depois dos cabeleireiros. Não é apenas um jornalista: é um jornalista político que vive em Brasília e trabalha numa grande sucursal, e imagina que os grandes nomes do poder muito o respeitam. É um paranóico, mas não liga ou, dependendo do grau da paranóia, já nem sabe disso mais. Não tem tempo para ir ao cinema ou ver um show de música popular, mas cultiva um hábito muito comum nas redações brasilienses: pelo menos duas ou três vezes por semana vai almoçar com a "fonte" (um bem informado funcionário do poder, que não é amigo mas é útil, porque sabe das coisas). O jornalismo em Brasília é uma paranóia só. O centro nervoso da Capital é o Eixo Monumental. Começa morno no Palácio do Buriti, sede do governo local, esquenta no Setor Comercial Sul, onde fica a maioria das sucursais (e alguns bares fedidos onde os jornalistas vão aliviar a tensão), atinge altas temperaturas na Esplanada dos Ministérios e ferve na Praça dos Três Poderes, onde coleguinhas de jornais concorrentes viram feras uns com os outros. Fazer a cobertura diária de um ministério é um teste para o coração. Se um repórter se levanta de sua mesa e vai ao banheiro, imediatamente os outros trocam olhares preocupados. Será que ele foi buscar um furo? A pergunta é telepática. Um dos pré-requisitos de um bom profissional é a paranormalidade, muito útil para se preverem fatos políticos óbvios. Saber ler nos olhos de uma autoridade que tudo aquilo que ela está dizendo é mentira também é essencial, mas para isso, pensando bem, ninguém precisa ser paranormal. O triste do jornalismo é que se publica, em nome da objetividade dos fatos, apenas o que a autoridade fala, não o que transmite no olhar. Bom repórter, segundo os manuais, é aquele que fura os coleguinhas, tem trânsito livre nos corredores do poder, é chamado pelo nome pelas autoridades do primeiro escalão numa coletiva, e almoça com a fonte. Nas redações, jornalista que trabalha 16 horas por dia e atende sem reclamar às convocações para trabalhar no fim de semana provoca orgasmos. Nunca recebe hora extra, porque jornalismo é, acima de tudo, uma religião. Os jornalistas que vivem em Brasília se dividem em dois grupos. O primeiro é o dos que acreditam que o jornalismo é a única coisa importante da vida. Aspiram intimidade com o poder e, às vezes, cargos. Nas redações, às vezes conquistam efêmeras chefias que lhes dão certos privilégios sobre os repórteres. Só que todo jornalista chefe é também chefiado, e o chefe supremo não é, na verdade, jornalista: é empresário. O segundo grupo é o dos que chegam aos 30, 40, 50 anos e se aposentam (isto quando não morrem antes, geralmente por problemas cardíacos) sempre repetindo para si mesmos que um dia abandonarão o jornalismo para "fazer o que gostam". Eles geralmente pensam que gostam de coisas exóticas. Sonham em morar numa praia deserta, criar cabras, abrir um restaurante, comprar um sítio, escrever peças de teatro. Mas são uns ingênuos. O que gostam mesmo é do jornalismo, só que não sabem disso. Jornalista sofre, mas se diverte. Nada como uma festa no sábado, onde rola muito uísque, vinho e outras coisas. De vez em quando, alguém come alguém. A classe é muito fofoqueira e todo mundo fica sabendo, mas ninguém liga para isso. Até dá status. Afinal, quase todos têm casos mal resolvidos na vida. Jornalista se julga a elite da raça, e não é fácil encontrar um(a) companheiro(a) à altura. A solução é a rotatividade. É uma pena que os jornais sejam tão sérios e quadradões. Se os repórteres escrevessem sobre tudo o que vivem, a imprensa seria muito mais divertida. Os repórteres continuariam paranóicos, mas pelo menos os leitores descobririam que ser jornalista é como ser mãe: é padecer no paraíso. Caderno 2, O Estado de S. Paulo, dezembro de 1987. |
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