| Tribuna da imprensa online www.tribunadaimprensa.com.br Rio de janeiro, quarta-feira, 03 de maio de 2006 |
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Antonio
Olinto É na poesia principalmente que a literatura brasileira
atinge seu ponto mais alto. O ponto em que estiveram Drummond, Jorge de Lima,
Quintana, Cassiano, Cecília, Bandeira. Repito: poesia é, neste País,
das coisas mais vivas e mais avançadas que existem. Volta e meia, poeta
novo começa a fazer versos e a sacudir a mesmice dos estilos. Ou poetas
já conhecidos alcançam pontos mais altos no exprimir o talvez inexprimível. O
mais evidente exemplo desse permanente renascer, de uma linha, e de outra, e de
outra, é o do poeta Alexandre Marino, cujo livro "Arqueolhar"
reúne poemas que, num desdobramento de temas, numa experimentação
verbal própria, numa retração de sons e numa explosão
silábica cheia de significados, atinge um nível de poesia que o
situa entre o que de melhor tem o verso brasileiro do momento. No livro
de Alexandre Marino, predominam a rua, a árvore, a fruta, um pente, uma
escova de dentes, uma xícara, a montanha, o quarto, a pedra, muitas vezes
a pedra, que espera, contempla, acompanha tudo e aceita as mais diversas possibilidades
nua verdadeira poesia do possível. Veja-se de que maneira obriga
o poeta a que a rua nos acompanhe, no belo poema "Esta rua", de que
cito 11 versos: "Esta rua te percorre/ e faz de teus passos exílio./
Esta rua te caminha/ e vigia,/ define teus limites/ e espaços,/ e de tua
saudade/ te alimenta." Quase no final do poema, que é belamente
longo, diz: "Vaga nesta rua a tua alma/ ao redor da fogueira/ que te devora
os ossos". Além de sabedoria vocabular, revela o estilo de
Alexandre Marino uma extraordinária elasticidade rítmica. Alguns
de seus versos dão a impressão de que podem ser lidos ao contrário
ou tomados em qualquer ponto, pois o ritmo como que parte dali e se integra em
nova unidade. Atente-se para o sereno domínio do poeta sobre seus símbolos,
suas realidades, suas palavras. O poeta multiplica os lugares do mundo,
já que dentro da casa há outra casa, e outra, e outra, com outros
quartos e incontáveis cômodos, entre corredores e labirintos passagens
subterrâneas numa completa reconstrução dos espaços
de ontem, que ainda são os espaços de hoje. Os poemas são
todos dedicados ao menino, o menino de ontem que não mudou e continua vivendo
o momento. Assim: "Lá vai o menino Dois
temas visíveis do poeta - o menino e o espanto - poderia ser fixado num
"espanto do menino", diante das coisas todas, diante do preto velho
mais feliz do mundo que um dia não mais se achava lá. Diz o verso:
"Não imaginava que morrer fosse enorme." Na realidade,
"Arqueolhar" é uma história do Brasil, com suas jabuticabas,
seus palhaços, seus circos, onde a trapezista flutua e os malabaristas
fazem malabarismos - e é, assim, a historia do País, a história
de uma infância, a história de um tempo, que o poeta levanta em versos,
numa luta pelo aperfeiçoamento de uma capacidade de percepção.
Para isto, precisa o poeta de uma entrega total, absoluta, de si mesmo
às palavras que viram versos, uma entrega cromo a do sacerdote, como a
do eremita. E precisa ser forte para enfrentar a pedra, que lá está
sempre, medida tranqüila das coisas. Eis o final de seu poema "Pedra
de amolar": "Um dia, nos escombros do futuro,/ em certo altar abandonado,/
com paredes e entulhos/ de um alpendre, um terraço/ ossos, restos, rastros
sobre a terra,/ irremediavelmente oculta/ ou apenas insepulta,/ lá estará
a pedra/ insone,/ a recordar, sem saudade,/ um regato, um leito de rio,/ uma borda
de serra." Não hesito em colocar Alexandre Marino, com este
"Arqueolhar", entre os grandes poetas do Brasil. A originalidade de
seus temas, o bom e forte equilíbrio de seus versos, seu grave e necessário
respeito pelas suas memórias, por inventar uma literatura para cada poema.
Há um tipo de poesia que é matéria verbal, vocal, oral, visível,
signo, sinal, e é no ritmo que a matéria se forma e ganha contorno.
Fazendo poesia com palavras, conscientemente com palavras, o bojo vocabular de
Alexandre Marino é de extraordinária riqueza. "Arqueolhar",
de Alexandre Marino, é um lançamento da L.G.E Editora, de Brasília.
Editor: Antonio Carlos A Navarro. Capa de Rômulo Geraldino (Arte Contexto),
prefácio de Maria Esther Maciel e Floriano Martins, "orelha"
de Sérgio de Sá. |
| 3/5/2006 22:30:04 |